Rosa Mota ganhou uma prova aos 60. O que é que ela tem que a torna tão especial?

Rosa Mota ganhou em Macau aos 60 anos com um tempo já "razoável", diz responsável pela corrida em Portugal. Especialista em psicologia no desporto explica as diferenças entre os ex-atletas de alto nível que continuam, ou não, a exercitar-se

Fazer exercício físico aos 60 anos não é obviamente igual a, por exemplo, fazê-lo 30 anos antes. Os cuidados a ter e o tipo de treinos mudam, e o fator psicológico tem também um papel muito importante. Assim, não é a idade, apenas por si, que vai excluir determinada pessoa da prática de exercício físico, seja ele mais ou menos competitivo. Um desses exemplos é a recente vitória de Rosa Mota na mini-maratona (5,2 quilómetros) de Macau, trinta anos depois da vitória na maratona nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988.

Partindo do exemplo da campeoníssima atleta portuguesa, o DN falou com dois especialistas na matéria para perceber como, em termos físicos e mentais, alguém, sendo ou não um ex-atleta de alto nível, pode continuar a exercitar-se sem problemas, até numa idade que pode ser considerada avançada, como os 60 anos.

Pedro Rocha, treinador e responsável pelo programa de marcha e corrida da Federação Portuguesa de Atletismo, refere que no caso de Rosa Mota, porque as situações "têm sempre de ser analisadas caso a caso", o que se passa é que "após uma carreira ao nível da excelência", a ex-atleta "foi mantendo índices de prática e atividade física" que lhe permitem "manter de certa maneira uma boa condição".

"Estando numa boa condição física, para além dos treinos que ela eventualmente faz, há ainda alguma disponibilidade para alcançar resultados. É preciso manter a condição física, não abdicar de uma prática regular e, à medida que os anos avançam, ter também disponibilidade para realizar este nível de esforço", disse.

No geral, Pedro Rocha explica que "à medida que a idade avança o organismo tem menor capacidade de se ajustar às intensidades exigidas para um determinado resultado". Assim, e já de um ponto de vista mais alargado, "o que se faz é adequar as cargas de treino às capacidades das pessoas". "Em fases mais avançadas da idade o que se privilegia em treino é o volume. A intensidade tem de estar ajustada à capacidade da pessoa. Há ênfase no volume em detrimento da intensidade", frisou.

"A capacidade cardiorrespiratórios e de resistência cardíaca até se pode manter, a grande dificuldade é ter o sistema muscular a funcionar ao nível em que estava antes", acrescentou.

Distância de iniciação com "indicador" competitivo

O responsável pelo programa de marcha e corrida da Federação Portuguesa de Atletismo falou mais um pouco sobre o recente caso da vitória de Rosa Mota, ajudando a "desmistificar" algumas situações, mas assumindo que existem indicadores que apontam para alguma competição na corrida de Macau.

Pedro Rocha destacou que a distância de cinco quilómetros é usada muitas vezes para "iniciação" e que, por isso, existe a hipótese de grande parte das 2410 pessoas que terminaram atrás de Rosa Mota estarem a "iniciar-se na corrida" numa distância que é a "recomendada" para o efeito.

Este facto, disse, "desmistifica" um pouco a "questão da competição" nas corridas de cinco quilómetros, porque têm muita gente que se está a iniciar ou que simplesmente "gosta de estar envolvidas nos eventos de corrida". E não havendo então uma grande carga competitiva, o passado de Rosa Mota dava-lhe vantagem na corrida? Pedro Rocha diz que "sim", mas que o facto de ter tirado mais dois minutos ao tempo de 2016, quando também ganhou, é um "indicador" de que "já não foi só numa de participar, mas também de se testar".

Ou seja, 22,02 minutos para completar 5,2 quilómetros "já é um tempo razoável, a um ritmo agradável". "Para esse resultado ela já não ia numa intensidade moderada, que é quando ainda se consegue falar com o colega do lado. Já estamos a falar numa atividade mais vigorosa", explicou.

Os dois caminhos mentais após a alta competição

Sidónio Serpa, especialista em psicologia desportiva e ex-presidente da Sociedade Internacional da Psicologia no Desporto, referiu que, sobre a importância da parte mental no caso de Rosa Mota, só podia "avaliar em caso de contacto com a pessoa em questão", o que não tem nesta situação.

Reconhece, no entanto, que existe "uma atitude em relação à competição que vem dos seus tempos de atleta, com objetivos sempre elevados de auto superação". "O que acho relevante é que ela mantém uma atividade permanente, o que reduz naturalmente a perda de performance que poderia ter. Essa atividade permanente decorre de uma atitude favorável à prática desportiva que sempre teve e que manteve. Conseguiu manter esta motivação que nem todos os atletas mantêm, a maioria não mantém", refere no entanto.

Já numa perspetiva "geral", o Professor Catedrático na Faculdade de Motricidade Humana referiu que Rosa Mota "terá uma característica de personalidade que tem a ver com o desejo de superação e que manteve seguramente aquilo que já tinha, que é uma resistência à dor e ao sacrífico que está relacionado com o tal desejo de superação".

Sem "uma opinião enviesada", mas sim falando com base em "resultados de investigações que têm sido feitas ao longo de muitos anos" e que Sidónio Serpa constata também na sua observação, investigação e "constatação da realidade", divide os ex-atletas em duas categorias no que toca ao que diferencia os que continuam ou não com a prática desportiva.

Sidónio Serpa disse que "há dois tipos de orientação geral" neste assunto". A primeira tem a ver com "uma integração progressiva num sistema de alta competição a partir de uma prática geral que corresponde às motivações dos jovens e das crianças". A partir daqui, "existe depois uma especialização progressiva que leva ao alto rendimento". Nestes casos, "grande parte destes desportistas têm prazer ao longo da sua carreira desportiva". "Já ouvi de muitos que lhes dá mais prazer sentir que tiveram um bom desempenho mesmo perdendo, do que ganhar com a convicção de que tiveram um mau resultado. Aqui está presente o tal desejo de superação e aperfeiçoamento pessoal permanente", afirmou o também ex-treinador e membro do staff olímpico nacional nos Jogos Olímpicos de Atlanta (1996) e Sidney (2000).

"Estes atletas, quando deixam a prática desportiva, têm uma tendência muito grande para não terem problemas do ponto de vista físico e psicológico, como a saturação ou angústia", concluiu.

"Em paralelo", referiu, existe uma "outra linha de evolução dos atletas que é a da especialização precoce". "Aí os atletas são envolvidos imediatamente numa prática unidirecional, num só desporto, enquanto os outros fazem vários desportos ou várias variantes dentro do mesmo desporto", acrescentou.

"Quando chegam ao final da carreira, ao contrário do outro grupo, grande parte destes atletas em muitos casos têm problemas físicos e psicológicos grandes. E têm também uma saturação tal que nunca mais querem ver o desporto à sua frente. E abandonam de facto a prática desportiva, mesmo do ponto de vista da manutenção da saúde ou da condição", explicou também.

Voltando ao ponto de partida e usando-a como exemplo, Sidónio Serpa mostrou-se "convencido" de que Rosa Mota "desenvolveu sempre prazer naquilo que fez ao longo da sua carreira".

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