O filme das 24 horas mais negras da história do Sporting

Tarde de 15 de maio de 2018 marcada pela invasão à Academia e agressões a jogadores, dois dias depois de uma derrota na Madeira que afastou os leões da Liga dos Campeões

15 de maio de 2018 é considerado por muitos como o dia mais negro da história do Sporting. Durante essa tarde, antes de um treino da última semana da temporada, várias dezenas de adeptos invadiram a Academia do clube, em Alcochete, e no espaço de um quarto de hora agrediram vários jogadores e elementos da equipa técnica com recurso a cintos e barras de ferro. Um momento que levou o clube de Alvalade a perder ativos, a viver uma crise diretiva e permanecer no topo da atualidade pelos piores motivos.

Os incidentes, na sequência de maus resultados no final da época 2017/18, surgiram dois dias depois de os leões terem perdido ante o Marítimo no Estádio dos Barreiros, no Funchal, e desperdiçado a oportunidade de se qualificarem para a terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões, tendo sido relegados para o 3.º lugar na última jornada da I Liga.

Após o jogo, ainda no estádio, os jogadores leoninos foram insultados pelos adeptos, o que motivou à formação de um cordão policial para que não existissem confrontos físicos. Os momentos de tensão continuaram no Aeroporto Cristiano Ronaldo e no parque de estacionamento do Estádio de Alvalade, quando elementos de claques se aproximaram de jogadores e equipa técnica, que se preparavam para recolher os respetivos carros.

Aparato mediático pela situação de Jesus

No dia seguinte, a 14 de maio, Bruno de Carvalho reuniu com Jorge Jesus e terá transmitido ao treinador que não contava mais com ele, a seis dias do último jogo da época, a final da Taça de Portugal. Na altura, chegou a ser noticiado que o técnico foi suspenso e que poderia não marcar presença no Jamor, o que levou a um grande aparato mediático no regresso da equipa aos treinos, marcado para dia 15, uma terça-feira.

15 minutos de terror

Já com os jogadores no interior da Academia do clube, em Alcochete, várias dezenas de adeptos surgiram a correr, de cara tapada, tentaram impedir os jornalistas de filmar e entrar nas instalações leoninas, tendo saído do local ao fim de 15 minutos, sem intervenção da polícia.

Nesse quarto de hora, a fação utilizou cintos e barras de ferro para agredir vários jogadores, entre os quais Bas Dost, Acuña, Rui Patrício, William Carvalho, Battaglia e Misic, assim como elementos da equipa técnica. Houve tochas atiradas para o balneário, os alarmes contra incêndios dispararam e os jogadores recusaram treinar, começando-se a falar desde logo na possibilidade de rescisões por justa causa.

As primeiras imagens

Entretanto, surgiram nas redes sociais e em vários meios de comunicação algumas imagens dos incidentes, com destaque para uma fotografia de Bas Dost ferido na cabeça e de lágrima nos olhos e vídeos do estado do balneário depois do arremesso de tochas lá dentro. "Isto não é aceitável, é uma situação perigosa. Bas Dost é um dos jogadores mais importantes do Sporting nos últimos 10 anos", reagiu prontamente o empresário do avançado holandês, Gunther Neuhaus. "Não tenho palavras. Não estava à espera desta situação. Foi uma situação angustiante e estamos todos chocados. Isto é um drama para todos. Estou vazio", confessou Dost, em declarações ao jornal ​AD, do seu país.

"É um dia muito triste para todos", limitou-se a dizer o médio João Palhinha depois de abandonar as instalações do Comando Territorial do Montijo, onde foi ouvido no próprio dia da invasão, tal como os restantes companheiros de equipa e elementos da equipa técnica, que recusaram fazer qualquer tipo de comentários.

"Ninguém tem a noção do que se passou. Parecia um filme de terror... Tochas no balneário, ameaças em alto e bom som, diziam que nos iam matar... agressões... Não é por acaso que nunca mais consegui entrar na Academia, até pedi ao Márcio e ao Paulinho para trazerem as minhas coisas. Nunca mais lá entrei", contou Jorge Jesus algum tempo depois.

23 detidos no próprio dia

No mesmo dia da invasão, a GNR deteve 23 dos atacantes, que permaneceram em prisão preventiva pela prática de crimes de terrorismo, ofensa à integridade física qualificada, ameaça agravada, sequestro e dano com violência. A 18 de maio, o advogado dos arguidos, Guilherme Oliveira, revelou que o grupo foi convocado através do WhatsApp, uma aplicação de mensagens para telemóveis, mas que se tinha deslocado à Academia para falar com jogadores, a exemplo do que será prática comum, deixando em aberto a possibilidade de alguns elementos se terem deslocado ao centro de treinos com outras intenções.

Mais tarde, a 5 de junho, foi detido o antigo líder da Juventude Leonina, Fernando Mendes, que entrou no balneário mas que, segundo testemunhas, não terá participado nas agressões. "Fernando, ajuda, estes gajos estão a bater nos jogadores, ajuda-me", terá pedido Jorge Jesus. A resposta terá sido: "A gente não veio aqui para bater, só para falar." Entretanto, em outubro, o lote de suspeitos aumentou para 40.

Vigília em Alvalade

O grave episódio indignou a maioria dos simpatizantes do Sporting, que organizaram nas redes sociais uma manifestação de apoio aos jogadores, em Alvalade, pela noite dentro. O que começou por umas centenas de adeptos tornou-se rapidamente numa multidão que ocupou a Praça do Centenário, junto ao estádio, assim como várias zonas envolventes.

"Contra a violência. Juntos. Pelo Sporting", lia-se nos cartazes exibidos pelos adeptos, que ergueram uma bandeira da Holanda e cantaram cânticos em homenagem a Bas Dost, um dos principais visadas pelas agressões.

Reação de Bruno de Carvalho: "Foi chato"

Embora os tivesse repudiado no próprio dia, o agora ex-presidente do clube, Bruno de Carvalho, começou por desvalorizar os incidentes, chegando a dizer que "o crime faz parte do dia-a-dia" e que "foi chato ver os familiares dos jogadores e staff a ligarem". Frases proferidas à Sporting TV que marcaram e que ainda hoje continuam bem presentes. No entanto, com o passar dos dias o então presidente do Sporting passou a apelidar a invasão como um "ato bárbaro e hediondo de terrorismo" e a considerar os jogadores como sendo da sua família.

Também a Juventude Leonina reagiu no próprio dia, através do Facebook, descartando-se desde logo do que aconteceu em Alcochete. "A Juventude Leonina lamenta profundamente o ocorrido e não se pode rever nos atos praticados contra o Sporting Clube de Portugal", escreve a organização, recordando que é a claque mais antiga de Portugal e que tem mais de 7000 sócios. Na mesma nota, pode ler-se que a claque não admite as acusações de que foi alvo, "lá porque aparece uma pessoa com a camisola da claque" no grupo dos agressores que invadiram a Academia.

As palavras de Marcelo, Costa e Ferro

Menos de 24 horas após os incidentes, Presidente da República, Primeiro-ministro e Presidente da Assembleia da República lamentaram e repudiaram os acontecimentos. "Tive o sentimento de alguém que se sente vexado pela imagem projetada por Portugal no mundo, vexado porque Portugal é uma potência, nomeadamente no futebol profissional, e vexado pela gravidade do que aconteceu", atirou Marcelo Rebelo de Sousa. Já António Costa prometeu "reforçar as medidas de segurança e avançar para uma autoridade nacional contra a violência no desporto, que permita agir nestas situações, e não só naquelas em que a lei permite às autoridades administrativas agir".

Também bastante incisivo foi Ferro Rodrigues, que além de líder do Parlamento é sócio leonino há quase 70 anos. "Foi um caso gravíssimo que coloca em causa o desporto português, o Sporting Clube de Portugal e o país", vincou, condenando a "violência, o fanatismo e a corrupção no futebol português", apelidando este tipo de incidentes de "atos terroristas" e responsabilizando Bruno de Carvalho pelos acontecimentos.

Igualmente contundente foi João Paulo Rebelo, secretário de Estado da Juventude e do Desporto: "Há um repúdio veemente para com os atos de violência e vandalismo criminosos como os que ocorreram nesta tarde. Quero mostrar solidariedade para com os jogadores, os técnicos e quem foi agredido."

"Não poupemos nas palavras. Não menorizemos o que aconteceu. Tivemos a atuação de um grupo que se comporta como uma milícia e que provoca atos de violência. Estaremos sempre ao lado daqueles que batalham pelo desporto jogado dentro das quatro linhas, de forma justa e leal", afirmou por sua vez o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina.

Entidades e universo leonino reagem

"A Federação Portuguesa de Futebol espera que as autoridades públicas não olhem a recursos para levar perante a justiça os responsáveis por atos criminosos que não podem deixar de ser punidos", comunicou a fonte oficial do organismo que rege o futebol nacional.

"Uma linha foi ultrapassada contra os verdadeiros artistas. Têm de ser tiradas ilações da responsabilidade de quem de forma primária tem utilizado o futebol como meio para outros fins. Os dirigentes têm de perceber que no futebol não vale tudo. Já se antecipava. Temos de inverter este discurso", disse Pedro Proença, presidente da Liga. "Os jogadores estão inseguros e convencidos que não têm condições para exercer a sua profissão", sublinhou Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato de Jogadores.

No seio do universo leonino, o então presidente da Mesa da Assembleia Geral, Jaime Marta Soares, prometeu uma análise ao momento do clube e pediu uma "investigação célebre" para encontrar os culpados. "Isto é muito prejudicial do ponto de vista reputacional e patrimonial", reagiu José Maria Ricciardi, banqueiro que viria a ser candidato à presidência do Sporting. "Foi o dia mais vergonhoso, mais negro e mais lamentável da história do clube", rematou Rogério Alves, hoje presidente da Mesa da Assembleia Geral do clube.

Quem também não ficou indiferente foi Iker Casillas, guarda-redes do FC Porto. "A violência não pode existir. Estou solidário com os meus colegas do Sporting", escreveu no Twitter.

24 horas que mudaram a história do Sporting, que a 23 de junho viu pela primeira vez um presidente ser destituído. Entretanto, foram marcadas eleições - para as quais Bruno de Carvalho, à luz dos estatutos do clube, não reuniu condições para ser candidato, por se encontrar suspenso de sócio ao abrigo de um processo disciplinar - que definiram Frederico Varandas, líder do departamento médico à data dos incidentes, como o 43.º presidente da história do emblema de Alvalade.

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