Especialistas em lesões cerebrais querem banir cabeceamentos no futebol

Vários antigos futebolistas têm sido diagnosticados com demência, que terá sido causada pelo contacto repetido da cabeça com a bola

Vários especialistas em lesões cerebrais querem que o contacto entre a cabeça dos futebolistas e a bola seja proibido em jogos de futebol. O neuropatologista e patologista forense Bennet Omalu, um dos mais conceituados a nível mundial, tem-se dedicado ao longo da última década e meia ao estudo encefalopatia traumática crónica, que diz ser causada por repetidos traumatismos cranianos e ter efeitos ao longo prazo, e é um defensor acérrimo da proibição dos cabeceamentos.

"Não faz sentido controlar com a cabeça um objeto que se move a alta velocidade. Considero que, a um nível profissional, precisemos de restringir os cabeceamentos. É perigoso", argumentou o clínico nigeriano-americano à BBC Radio 5. "Nenhum jovem com menos de 18 anos deve cabecear uma bola. As crianças entre os 12 e os 14 anos devem jogar com o menor contacto possível. As crianças entre 12 e os 18 anos podem jogar futebol, mas não devem cabecear a bola", reforçou, reclamando uma mudança de regras: "Sei que é difícil de aceitar para muita gente, mas a ciência evolui. Nós mudamos com o tempo, a sociedade muda e é altura para mudarmos alguns dos nossos comportamentos."

A BBC recorda que se concluiu que a morte de um antigo jogador do West Bromwich e da seleção inglesa, em 2002, foi causada por um traumatismo cerebral causado por bolas de couro pesadas. Jeff Astle tinha 59 anos e sofria de Alzheimer há dez, depois de uma carreira de 18 anos. Desde então que a sua filha Dawn tem pedido para que as entidades que tutelam a modalidade investiguem possíveis ligações entre a encefalopatia traumática crónica e os cabeceamentos na bola. "Agora é um facto. Não estamos só a dizer que outros jogadores poderão ter morrido devido ao mesmo problema do meu pai, é um facto mesmo", vincou na quarta-feira.

Outro antigo futebolista inglês, Rod Taylor, morreu em abril deste ano devido à mesma causa. "A demência do meu pai foi causada por cabecear a bola e concussões. Não podemos esperar pela morte deles para os começar a ajudar. Temos que começá-los a ajudar agora", frisou a filha Rachel Walden, que reclama mais apoios por parte da Federação Inglesa (FA) e da Associação de Futebolistas Profissionais de Inglaterra (PFA) aos antigos futebolistas e às respetivas famílias. "Não estamos a culpar os clubes e não se trata de mudar o jogo, é tentar fazer com que a PFA assuma a responsabilidade pelos seus membros na hora em que eles mais precisam", frisou.

A outros vários antigos futebolistas de topo foram diagnosticada demência, incluindo alguns campeões mundiais por Inglaterra em 1966, o que se acredita ter sido causado pelo efeito do contacto entre a cabeça e a bola. "O cérebro humano flutua como um balão no interior do crânio. Quando se cabeceia a bola, sofre-se dano cerebral. Sofre-se danos cerebrais sempre que se cabeceia a bola", explicou Bennet Omalu. "Jogar futebol aumenta o risco de sofrer danos cerebrais numa idade mais adiantada e favorece o desenvolvimento de demência e encefalopatia traumática crónica", acrescentou o clínico.

Noutra modalidade também com tradição em Inglaterra, o críquete, foram introduzidas este ano substituições para permitir às equipas trocarem um jogador que tenha sofrido uma concussão ou uma suspeita de concussão. Já no râguebi, estão previstas mudanças às leis de jogo para reduzir o número de lesões.

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