Infetados no desporto. Como Paulo Pereira e Rafaela Azevedo lidaram com o covid-19

Nadadora do Algés e Dafundo já regressou às piscinas e já treina para obter mínimos olímpicos. Treinador acabou contrato com o Óquei Barcelos e viu o campeonato cancelado.

Os casos de desportistas infetados com covid-19 são raros em Portugal. O treinador Paulo Pereira, do Óquei Barcelos e a nadadora do Algés e Dafundo, Rafaela Azevedo são dois casos. O técnico ficou frustrado por ter sido infetado no final de março e teve de passar 20 dias em isolamento, para impedir o contágio da mulher e filhos. Já a nadadora está feliz por finalmente poder voltar a uma piscina.

"Se ter de ficar em casa já era chato, ficar confinado a um quarto sem contacto com a família deixa-nos revoltados. Perguntamo-nos por que é que o vírus nos atacou, mas ele tinha muito por onde se alojar nesta casa e ainda bem que me escolheu. Tinha algumas reservas para poder aguentá-lo e não queria que nada acontecesse aos miúdos", contou à agência Lusa o técnico dos minhotos, um dos 7705 recuperados oficiais em Portugal -hoje o número vai passar para 17 357.

Paulo Pereira, de 51 anos, sentiu "um pico de febre" em 28 de março, alguns dias após o filho mais novo ter atravessado uma pneumonia e acusado negativo ao novo coronavírus, panorama que despertou a marcação de testes para si e para o outro filho em 2 de abril, no centro de rastreios instalado no pavilhão de Feiras e Exposições de Penafiel.

"Não tinha tosse, mas assim que registei 37,6 graus de febre isolei-me e nunca mais saí do quarto. Fiz o teste, recebi o resultado três dias depois e fui o único a dar positivo. Não faço a mínima ideia onde posso ter apanhado o vírus e é por isso que ele é esquisito, porque estivemos os quatro a conviver na mesma casa", observou.

Aproveitando as recomendações da mulher que é enfermeira, mas sem tomar qualquer medicamento, o treinador beneficiou da "felicidade" de habitar numa casa com dois pisos para evitar contactos com a restante família, com quem fomentou uma comunicação à distância, amparada pelo telemóvel e apenas atenuada nos momentos das refeições.

"Eles usavam a casa de banho do andar de baixo e eu tinha uma só para mim cá em cima. Deixavam-me as refeições à porta do quarto e, no final, levava o tabuleiro até lá, sem haver hipótese de nos cruzarmos. Tive algumas dores musculares e perdi o olfato, mas não o paladar, pelo que passei estes 20 dias sentado a engordar e a dormir", gracejou, revelando que adotou uma tática para ver o tempo passar mais depressa: ficar acordado de noite e dormir de dia.

Manifestando como "principal receio" a perceção de "mazelas nos pulmões e muitas dificuldades respiratórias", Paulo Pereira procurava, "assim que acordava", confirmar a eficácia das trocas gasosas entre o organismo e o meio exterior com "breves exercícios" de inalação e expiração, tendo avistado "alguma liberdade" na segunda quinzena de abril. Fez o último teste (negativo) a 17 de abril e pode finalmente respirar.

O desconfinamento devolveu Paulo Pereira às caminhadas e 'bicicletadas', que "decorrem como antigamente, sem sintomas nem complicações respiratórias", mas não a competição. A época foi cancelada pela Federação de Patinagem de Portugal em 29 de abril, sem títulos, mas com subidas e descidas.

Rafaela sentiu-se "algo entupida e com algumas dores de cabeça"

A jovem nadadora medalhada Rafaela Azevedo, do Algés e Dafundo, recuperou da covid-19 sem notar mais do que uma mera "constipação" e, no regresso à piscina, sentiu-se melhor do que o esperado, apesar ter acusado algum cansaço.

"Somos cinco em casa e os meus pais e a outra irmã já estavam negativos quando fizemos o teste, presumindo que chegaram mesmo a ter o vírus. O único contacto que havia era quando precisávamos de comida. De resto, ficávamos apenas pelo nosso quarto e almoçávamos as duas sozinhas", partilhou à agência Lusa a recordista nacional dos 50 e 100 metros costas.

Rafaela Azevedo, de 18 anos, sentiu-se "algo entupida e com algumas dores de cabeça" no final de março, mas, como "nunca teve febre", optou por deixar pendente a realização do teste de despistagem ao novo coronavírus, ao contrário da irmã Madalena, que reparou na infeção de uma colega de faculdade e detetou a covid-19 em 3 de abril.

"Como ela deu positivo, calculámos logo que também devíamos ter o vírus, pois todos apresentavam sintomas ligeiros. Marcámos os testes e fui a única a acusar positivo no dia 17, mas não senti grandes receios. Isto não passou de uma constipação e só tomei ibuprofeno uma ou duas vezes por causa das dores de cabeça", contou.

A residir em Oeiras, as duas irmãs voltaram ao laboratório privado Joaquim Chaves em 2 de maio para repetirem os testes, confirmando a recuperação total e o fim de um período obrigatório de isolamento, repartido pela esperança olímpica da natação lusa entre "treinos físicos, estudos, televisão e novas experiências na cozinha".

Os atletas profissionais e de alto rendimento beneficiaram de um regime de exceção para treinaram durante o estado de emergência, que vigorou entre 19 de março e 2 de maio, uma hipótese muitas vezes impossível para os nadadores pelo encerramento das piscinas, e finalmente atenuada com a reabertura do Centro de Alto Rendimento do Jamor, em 12 de maio.

"Senti-me melhor do que esperava, tendo em conta que parei dois meses e já não estava afastada da água assim há muito tempo. Claro que me senti cansada, mas não sei até que ponto foi da retoma e não de ter sido infetada. Depois da 'constipação', tentei treinar em casa, mas notei cansaço muscular e parei quase três semanas", observou a medalha de bronze nos 100 metros costas dos Europeus de juniores de 2019, ano em que terminou a final dos 50 costas nos Mundiais da mesma categoria na sétima posição.

Rafaela Azevedo acompanhou o regresso desfasado e condicionado às piscinas dos compatriotas Alexis Santos, Miguel Nascimento, João Vital e Victoria Kaminskaya, que evoluem nas instalações localizadas em Oeiras e integram o projeto olímpico para Tóquio2020, cuja realização foi prorrogada para o verão do próximo ano.

"Sou um dos casos em que o adiamento dos Jogos até foi positivo e não me deixou nada triste. Vou ter mais um ano de treino e a probabilidade de ser apurada será maior", assumiu umas das principais promessas nacionais, que precisa de obter a marca mínima de 01.00,25 minutos para competir nos 100 metros costas em solo japonês.

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