Goleada e show. Flamengo de Jesus está na final da Libertadores

38 anos depois, o Mengão volta ao jogo decisivo da competição mais importante da América do Sul, depois de golear o Grémio por 5-0 no Maracanã. Na final do dia 23 de novembro, Jesus terá como adversário o River Plate.

O Flamengo de Jorge Jesus está na final da Taça Libertadores, o troféu mais apetecido da América do Sul, equivalente à Liga dos Campeões europeia. A equipa carioca goleou o Grémio na madrugada desta quinta-feira, por 5-0, no mítico Maracanã (na primeira mão em Porto Alegre as duas equipas empataram a um golo), e 38 anos depois volta a marcar presença na final da prova, agendada para o dia 23 de novembro, no Chile, onde terá como adversário os argentinos do River Plate, atuais detentores do troféu. A equipa de Jesus realizou uma segunda parte de sonho e provou que de facto no Brasil não tem concorrência à altura. Se alguém ainda duvidava disso, neste jogo tirou todas as dúvidas. Dá gosto ver este Flamengo jogar!

Jorge Jesus apresentou o seu melhor onze, contando com os regressos de De Arrascaeta e Rafinha (jogou com uma proteção na cabeça), que falharam os últimos jogos por lesão, dispondo a equipa num 4x4x2, onde Gabriel Barbosa era o jogador mais adiantado, com uma linha de três logo atrás - Bruno Henrique, De Arrascaeta e Ewerton Ribeiro. Do lado do Grémio confirmou-se a ausência de Luan, por lesão, com Renato Gaúhco a apostar num esquema de 4x1x4x1.

A primeira parte foi equilibrada e teve algumas boas oportunidades de golo - três para o Flamengo, uma para o Grémio, que entrou bem no jogo. A equipa de Porto Alegre foi protagonista da primeira situação de perigo, aos 19', com Cebolinha a cruzar com muito perigo e Maicon a permitir a defesa de Diogo Alves.

Respondeu a equipa de Jorge Jesus num lance de contra-ataque, com Rafinha a assistir Bruno Henrique que, de cabeça, atirou ao lado aos 27'. Aos 35', De Arrascaeta fez um centro e quase surpreendeu o guarda-redes Paulo Victor. E quase em cima do apito para o intervalo, o Flamengo chegou à vantagem.

Num lance de contra-ataque, Bruno Henrique ganhou uma bola no meio-campo, serviu Gabriel Barbosa, o avançado rematou para defesa incompleta do guarda-redes do Grémio, e na recarga Bruno Henrique fez o Maracanã explodir pela primeira vez de alegria.

O segundo tempo começou praticamente com o segundo golo do Flamengo. De Arrascaeta cobrou um canto, André tentou aliviar, mas a bola foi parar direitinha aos pés de Gabriel Barbosa, que à meia volta encheu o pé esquerdo e marcou o segundo do Flamengo - foi o 34.º golo do avançado em 47 jogos. A final da Libertadores estava mais perto e nas bancadas do Maracanã os adeptos começavam a preparar a festa, que ganhou proporções maiores poucos minutos depois, quando Geromel cometeu falta na área sobre Bruno Henrique e de penálti Gabriel Barbosa bisou e fez o terceiro do Mengão aos 56'.

Só dava Flamengo, perante um Grémio vergado ao volume do resultado, que concedia demasiados espaços, e que começava a ser massacrado. Aos 63', Bruno Henrique marcou o quarto do Mengão, mas o lance foi anulado porque quando deu a início à jogada Gabriel Barbosa estava em posição de fora de jogo. Não valeu este, mas o Flamengo não demorou a marcar o quarto. Após um canto, o espanhol Pablo Marí levou a melhor sobre Geromel e de cabeça deu contornos de goleada ao resultado.

Se o Grémio já estava completamente destroçado ainda mais ficou quando Rodrigo Caio fez o quinto golo da equipa de Jesus, também de cabeça na sequência de um lance de bola parada. Uma exibição de luxo do Flamengo na segunda parte, perante um adversário incapaz de esboçar reação. O apito final chegou e a festa rebentou no relvado e nas bancadas do lotado Maracanã.

Jesus venceu a desconfiança

Jesus, o mister, como é carinhosamente apelidado pelos adeptos do Mengão que atualmente o idolatram, já ganhou um lugar na história do clube que só no Brasil tem cerca de 40 milhões de seguidores, que o tornam numa das equipas com mais adeptos em todo o mundo. Após alguma desconfiança inicial dos torcedores, e mesmo entre a classe de treinadores brasileiros, que só agora começam a dar mérito ao técnico português, Jesus conseguiu colocar o Flamengo de novo no topo. Além da final da Libertadores, a equipa rubro-negra é líder do campeonato brasileiro e já está a 10 pontos do segundo classificado, o Palmeiras.

Aliás, antes do jogo da primeira mão, em Porto Alegre, o treinador do Grémio, Renato Gaúcho, deu início a uma guerra de palavras, depois de o português ter dito que orientava a equipa do Brasil que melhor futebol praticava. "Concordo que o Flamengo está a jogar o melhor futebol do Brasil junto com o Grémio, mas o Jorge Jesus ganhou só dois ou três títulos portugueses. E saiu de Portugal e foi para a Arábia. Ele nunca treinou fora de Portugal um grande clube na Europa. Nunca conquistou nada e está com 65 anos", atirou o técnico do Grémio. Jesus, apesar de constantemente picado pela imprensa brasileira para responder, não o fez, preferindo mostrar o domínio do Flamengo dentro dos relvados. A única declaração que fez a esse respeito foi "ele [Renato Gáucho] já ganhou a Libertadores, eu ainda posso ganhar". E pode.

O Flamengo está numa fase demolidora, com vitórias consecutivas nos últimos seis jogos e há 18 partidas sem conhecer a derrota - a última foi em agosto de 2019, quando perderam por 3-0 com o Baía.

38 anos depois de Zico e companhia

A última presença (e única) do Flamengo numa final da Taça Libertadores data de novembro de 1981. Numa altura em que o jogo era ainda disputado a duas mãos, o clube do Rio de Janeiro venceu em casa por 2-1 o Cobreloa, do Chile, e depois na segunda-mão foi derrotado por 1-0, o que obrigou a uma partida de desempate realizada em campo neutro - no Estádio Centenário, em Montevideu, no Uruguai.

O Flamengo, que na altura era treinado por Paulo César Carpegiani, e que tinha uma das melhores equipas da sua história, com craques como Zico, Mozer, Júnior, Andrade, Leandro, Tita, entre outros, venceu por 2-0, com um bis de Zico, conquistando a única Libertadores do seu historial.

Jorge Jesus tem agora a possibilidade de dar a segunda Libertadores ao Flamengo e igualar o número de troféus na prova do Internacional e do Cruzeiro. Os clubes canarinhos com mais Taças dos Libertadores conquistadas são o Santos (1962, 1963 e 2011), o Grémio (1983, 1995 e 2017) e o São Paulo (1992, 1993 e 2005). A equipa que mais vezes venceu a prova foi o Independiente, da Argentina, em sete ocasiões.

A terceira grande final de Jesus

Esta é a terceira final de uma grande competição em que Jorge Jesus estará presente como treinador. Durante o tempo em que orientou o Benfica, o técnico disputou duas finais da Liga Europa. Em 2012-13 foi derrotado pelo Chelsea (2-1), com um golo de Ivanovic nos descontos. E na temporada seguinte caiu diante do Sevilha, no desempate por grandes penalidades depois de o jogo ter terminado sem golos.

Agora, à terceira tentativa, Jesus tem a possibilidade de fazer história aos 65 anos e, além do que o título representa para o Flamengo, pode tornar-se apenas no segundo técnico europeu a conseguir vencer a Libertadores, depois do croata Mirko Jozic, que chegou a orientar o Sporting, ter conseguido tal feito na edição de 1991, ao serviço dos chilenos do Colo-Colo.

"Se alguma vez me tivessem perguntado se poderia estar na Libertadores... não pensava nisso, a minha vida era a Champions. Mas a Libertadores é a Champions da América Latina e participar nesta competição foi um dos motivos pelos quais aceitei o Flamengo. Entra no currículo que já tenho na Europa," disse Jorge Jesus em julho, antes de se estrear na prova com os equatorianos do Emelec, longe de imaginar que três meses depois estaria a disputar a final.