Francisco Lázaro. O maratonista que morreu na estreia de Portugal nos Jogos Olímpicos

Atleta português morreu a 15 de julho de 1912, após ter desfalecido na maratona durante a primeira portuguesa nos Jogos Olímpicos, em Estocolmo (Suécia). Morte envolta em mistério: desidratação e insolação ou doping?

Francisco Lázaro é uma figura marcante no atletismo e na história olímpica de Portugal. Natural da zona de Benfica, em Lisboa, fez parte da primeira participação lusa nos Jogos Olímpicos, em 1912, em Estocolmo, na Suécia, onde participou na maratona. No entanto, desfaleceu ao quilómetro 29, na colina de Öfver-Järva, e veio a morrer horas depois, naquela que foi a primeira morte de um atleta durante os Jogos. Faz esta segunda-feira 107 anos.

Passado mais de um século, a memória de Francisco Lázaro continua a ser evocada, tanto que na semana passada foi para a estrada uma corrida com o seu nome, com partida e chegada no estádio do Futebol Benfica, que tem precisamente o nome de Francisco Lázaro - também existe uma rua alusiva ao atleta em Lisboa, entre os Anjos e o Intendente.

A morte do maratonista está, porém, envolta em algum mistério. A autópsia apontou a desidratação e insolação como causas da morte, depois de se ter besuntado com sebo antes da corrida e de ter sido um dos poucos participantes na prova com a cabeça descoberta, apesar do calor que se fazia sentir. No entanto, há quem fale noutras causas. Em julho de 2009, Gustavo Pires, professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana, contou ao DN que "o maratonista não morreu por insolação, inexperiência ou por ter coberto o corpo de sebo antes da corrida, como defenderam os colegas de comitiva nos Jogos da Suécia". "Foi vítima de uma cultura que aconselhava a prática comum naquela altura, entre os atletas e os ciclistas, uma mistura a que chamava emborcação - essência de terebintina (anestésico) e o ácido acético (vinagre) - como um complemento do treino", recordou na altura.

Também devidamente documentado, o presidente do Futebol Benfica, Domingos Estanislau, diz que não há nenhuma evidência de que o maratonista, então com 24 anos, tenha morrido devido ao consumo de substâncias ilícitas, e que está comprovado que se deveu a desidratação. "Não há mistério nenhum. Há uma senhora, que é a Laurinda Leitão, que é médica e já se deslocou à Suécia por três vezes para homenagens ao Francisco Lázaro e já teve acesso a documentação e pôde comprovar que ele morreu desidratado", afirmou ao DN.

Após leitura de obras relativas ao atleta, o líder do popular Fofó narra o que se passou naquela tarde quente de Estocolmo: "Há uma célebre frase dele antes da maratona que é 'Ganho ou morro' e foi isso: foi até às últimas consequências, até cair para o lado. O calor era muito, com 32º C à sombra, e estava um dia de sol sem nuvens. Ainda se pensou em adiar a prova, que foi marcada para as 13.45, mas os júris recusaram o pedido dos médicos. Lembro-me de ter lido que, dos 98 inscritos, só partiram 79 e apenas 35 chegaram à meta - os outros foram ficando pelo caminho. E o Lázaro, ainda por cima, partiu sem chapéu. Está provado que a causa foi a desidratação. Segundo consta, ao quilómetro 25 ia bem e bebeu água sofregamente. Passado uns quilómetros começou a cambalear, caindo e levantando-se, até cair inconsciente, sendo prontamente assistido pelos médicos da prova, que lhe colocaram gelo na cabeça. Foi transportado para o hospital, tinha uma temperatura corporal de 41,2º C e convulsões, acabando por falecer durante a madrugada."

Da carpintaria às corridas após o trabalho

Francisco Lázaro começou a vida profissional enquanto aprendiz de carpinteiro, mas acabou por ascender a oficial especializado em carroçarias de automóveis, numa altura em que os automóveis eram feitos mais à base de madeira do que de metal.

Paralelamente, foi somando feitos desportivos. Sem treinador, o atleta corria diariamente após deixar o emprego, partindo de Benfica e indo até São Sebastião da Pedreira, Bairro Alto ou Odivelas. A 3 de maio de 1908, estreou-se em provas com uma vitória na designada Maratona Portuguesa, organizada pela Revista Tiro e Sport, despendendo uma hora e 39 minutos a completar os 24 quilómetros entre Cascais e Dafundo.

No ano seguinte esteve parado devido a um problema nos pulmões, voltando em grande na quarta edição da Maratona Portuguesa a 2 de maio de 1910, que na altura tinha a distância de pouco mais de 42 quilómetros. Lázaro não só venceu a prova, com o tempo de 2 horas, 57 minutos e 35 segundos, como deixou o segundo classificado, Armando Cruz, a cerca de 44 minutos.

As vitórias foram-se sucedendo, ao mesmo tempo que praticava futebol no Futebol Benfica, clube que, apesar de ter sido fundado oficialmente em 1933, já existia desde 1895. Em 1912 mudou-se para o Lisbon Sports Club, depois de o amigo D. José de Mascarenhas, com o qual tinha corrido no Velo Club de Lisboa, lhe prometeu condições de preparação, de higiene de vida e de alimentação, com o intuito de o tornar um campeão olímpico.

Cerca de um mês antes dos Jogos de Estocolmo, voltou a vencer a Maratona Portuguesa, desta vez com um tempo de 2 horas, 52 minutos e 8 segundos, cerca de três minutos a menos do que o tempo despendido pelo vencedor da maratona olímpica dos Jogos de 1908, em Londres, apesar do percurso exigente que teve como reta da meta a subida da Calçada de Carriche, em Lisboa. A confiança para Estocolmo era, por isso, muito elevada.

Memória eternizada

A 14 de julho de 2012, um século após o falecimento, foi inaugurada uma placa de homenagem a Francisco Lázaro, na porta da Maratona do Estádio Olímpico de Estocolmo. "Ainda hoje indivíduos suecos têm consideração e respeito por esse acontecimento. Já cá estiveram em Portugal evocar a memória de Francisco Lázaro e convidaram-me para os acompanhar: fomos ao cemitério e jantar com o embaixador", revela Domingos Estanislau, que justifica a escolha do nome do antigo atleta para o estádio do Futebol Benfica: "Francisco Lázaro jogou futebol no Futebol Benfica, nasceu em Benfica e na primeira vez que Portugal vai aos Jogos Olímpicos dá-se este trágico acontecimento. Após a reorganização do clube, em 1933, demos o nome dele ao estádio."

Este ano, pela 13.ª vez, decorreu o Memorial Francisco Lázaro, uma corrida de dez quilómetros com partida e chegada no relvado do campo do Futebol Benfica e que passou por ruas de Benfica e de Monsanto. "Temos feito a corrida todos os anos, já vamos na 13.ª edição. Pomos a malta a correr e no fundo não deixamos morrer o nome de uma pessoa que foi um ícone do desporto nacional. Mas as pessoas dão pouco valor a situações destas, esquecem-se depressa e perdem alguns valores, à exceção das pessoas ligadas ao atletismo, que não o esquecem, e também lhe têm sido feitas várias homenagens pelo Comité Olímpico de Portugal", conta o líder do Fofó.

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