Estudioso, dedicado e um pensador do jogo. A história de Bruno Lage

No dia em que arranca a etapa como treinador principal do Benfica de "pleno direito", uma viagem pelas raízes, percurso e pensamento de Bruno Lage desde que se estreou nos juvenis do Vitória de Setúbal, ao lado de José Rocha.

No percurso de Bruno Lage há nomes que assumem importância reconhecida. Jaime Graça, o antigo magriço que foi glória do Benfica e do Vitória de Setúbal, terá sido o principal, como o novo treinador encarnado já sublinhou, dedicando-lhe inclusive publicamente, no Facebook, a primeira vitória obtida ao comando da equipa principal, então ainda com o estatuto de interino, frente ao Rio Ave.

Carlos Carvalhal, de quem foi adjunto em Inglaterra (no Sheffield Wednesday e no Swansea) e com quem escreveu um livro, é outra das referências obrigatórias. Mas tudo começou nas camadas jovens do Vitória de Setúbal, no final da década de 1990, quando o jovem Bruno Miguel Silva do Nascimento - que adotou o apelido Lage em homenagem ao pai, Fernando Lage, um ex-jogador que fez carreira em equipas do distrito de Setúbal - teve o primeiro contacto com o treino de campo, como adjunto na equipa de juvenis.

José Rocha, um antigo jogador do emblema sadino, contemporâneo de craques como Vítor Baptista, Fernando Tomé ou Jacinto João, era o líder dessa equipa técnica que abrigou "um jovem estudioso, que tinha tirado o curso de Educação Física e precisava de uma experiência para começar no treino", lembra ao DN o primeiro chefe de equipa de Bruno Lage, que atualmente treina a equipa de velhas glórias do Vitória.

De Setúbal ao Alentejo

"Eu já o conhecia porque era amigo do pai dele. Ele também fez uns jogos numas equipas distritais, mas percebeu que para jogador de alto nível era difícil e dedicou-se aos estudos para ser treinador. Naquela altura, 1997 ou 1998, por aí, eu assinei por quatro anos com o Vitória, para treinar os juvenis, e ele esteve lá uma época comigo", recorda José Rocha, que no jovem Bruno Lage viu "um rapaz muito dedicado, humilde e trabalhador".

Qualidades que, diz, ainda hoje reconhece naquele que entretanto se estreia esta terça-feira, em Guimarães, como treinador principal do Benfica de corpo inteiro, já não só como interino, depois de confirmado no cargo até final da época pelo presidente encarnado Luís Filipe Vieira.

E foi por ter ficado bem impressionado com essas qualidades de Bruno Lage que José Rocha voltou a recorrer ao jovem preparador físico, na época, quando, em 2003, lhe surgiu o convite do clube alentejano Estrela de Vendas Novas. "Era um projeto a dois anos, primeira para subir à segunda divisão e depois para manter, e eu fui buscá-lo, porque já tinha ficado com muito boa impressão dele", conta o antigo jogador sadino, que também foi adjunto da equipa principal algumas vezes na década de 90.

No Alentejo, o trabalho de José Rocha e Bruno Lage foi bem-sucedido e os objetivos cumpridos. "Preparava já comigo a equipa, na altura, liderava os treinos físicos, como era professor, e via-se que tinha condições para evoluir nesta carreira", desfia o antigo chefe de equipa, lembrando como Lage "preparava muito bem a equipa em termos físicos" e já na altura se mostrava muito interessado na parte tática do jogo. "Trocávamos muitas ideias, sobre a melhor forma de abordar o jogo seguinte e de preparar a época, e ele dava muitas sugestões".

"Ele não é muito extrovertido, agora até já está melhor", garante José Rocha

A imagem de um Bruno Lage tranquilo, ponderado, low profile que temos visto desde que os holofotes mediáticos se viraram para ele é a mesma que o jovem sadino apresentava já no início das suas experiências como treinador. "Ele não é muito extrovertido, agora até já está melhor", garante José Rocha. "Sempre foi assim: uma pessoa tranquila, educada e muito dedicada àquilo que faz".

Uma memória corroborada por Joaquim Telha, à época o presidente do Estrela de Vendas Novas. Também ele identificou então "um moço dedicado e muito estudioso", que ajudou o clube "a conseguir um marco importante", com a manutenção na segunda divisão. O dirigente recorda ainda as conversas com o treinador José Rocha, "que gostava muito do trabalho dele e já dizia, na altura, que se ele mantivesse a dedicação e o empenho haveria de chegar mais longe". "Tenho-me recordado muito dessas conversas, agora", acrescenta, sobre a subida de Bruno Lage a treinador principal do Benfica.

Jaime Graça e o "menino de grande futuro"

Os elogios à postura de Bruno Lage são comuns nos vários sítios por onde foi ensaiando o seu trajeto, antes de chegar às camadas jovens do Benfica em 2004, pela mão do seu mentor Jaime Graça. Foi o ex-magriço, de resto, que lhe abriu as portas do futebol sénior, quando o levou consigo para o Fazendense, equipa da Associação de Futebol de Santarém. António Moreira, presidente do clube "há 40 anos", e "amigo de longa data do Jaime Graça", lembra como o antigo internacional apresentou Bruno Lage no clube de Fazendas de Almeirim.

"Trago aqui um menino que vai ter um grande futuro, disse-me. E olhe, aí está ele", recorda o dirigente, que resgata na memória conversas com o atual treinador do Benfica, nas quais Lage já deixava vincada a ambição de "abraçar a carreira de treinador". E os louvores repetem-se: "Era um miúdo simpático, muito estudioso e muito inteligente", diz este "benfiquista, sócio com lugar cativo na Luz" e que "já não estava a gostar nada do sistema do outro [Rui Vitória]". "Um treinador tem que ter inteligência de mudar quando é preciso", aponta, confiante de que Bruno Lage "está preparado para enfrentar o desafio" de devolver o Benfica aos títulos.

"Trago aqui um menino que vai ter um grande futuro, disse-me. E olhe, aí está ele"

No Fazendense, aprendiz (Lage) e mestre (Graça) ficaram "só uns sete ou oito meses", recorda António Moreira. "Depois o Benfica chamou o Jaime e saíram. Mas deixaram um bom trabalho", garante.

Pelo meio, ainda antes de também ele se mudar para as camadas jovens do Benfica, Bruno Lage teve a primeira experiência como treinador principal no Comércio e Indústria, histórico emblema da AF Setúbal, pelo qual já tinha passado o pai, Fernando. O massagista João Catalão, que se mantém na equipa há 24 anos, recorda essa estreia: "Era muito exigente e rigoroso nos planos de treino que programava jogo a jogo, mas muito amigo dos jogadores também. Aliás, fez grandes amizades com alguns deles."

Mas, se isso também preocupar alguns benfiquistas atualmente, a juventude não lhe minava a autoridade, garante o massagista. "Era muito respeitado. E os jogadores gostavam dos treinos dele, porque tinha métodos muito diferentes do que era habitual ver por aqui, neste nível distrital", sublinha João Catalão, que fala de "uma época com bons resultados e a manutenção assegurada de forma tranquila, numa altura de grandes dificuldades no clube".

Os craques formados no Seixal

Em 2004 Bruno Lage chegou então ao Benfica, de novo por influência de Jaime Graça, depois do bom trabalho no Estrela de Vendas Novas. O antigo internacional recomendou o jovem técnico para as camadas jovens do clube da Luz, onde se assumiu como um dos obreiros da nova filosofia de formação que era aposta de Luís Filipe Vieira para o projeto da academia do Seixal, que Bruno Lage viu nascer.

Ali, nas camadas jovens do Benfica, treinou todos os escalões, das escolas aos juniores, passando por iniciados e juvenis, tendo conquistado dois campeonatos nacionais e dois distritais. Mas, mais importante do que isso, teve um papel importante nos processos de formação de jogadores como Bernardo Silva, Gonçalo Guedes, Ederson, André Gomes, João Cancelo, Rony Lopes, Ivan Cavaleiro, Hélder Costa e vários outros, que começaram a dar corpo ao tão acenado projeto de talentos "made in Seixal" que o presidente encarnado ergueu como bandeira do clube.

Um desses jogadores cuja formação passou por Bruno Lage foi Miguel Rosa, médio criativo que joga atualmente no Cova da Piedade, da II Liga. "É uma pessoa fantástica, um grande treinador", começa por dizer ao DN, realçando depois "a capacidade de liderança, apesar de ser ainda jovem". "É um técnico que gosta de um futebol apoiado, muito forte taticamente e muito forte a motivar os seus jogadores", acrescenta.

"Passei oito anos num sítio especial que marcou a minha carreira. Quando entrei aqui com 27 anos foi quando senti mais aquela oportunidade de seguir uma carreira profissional. Recordo-me de um período importante, ainda sem o centro de estágio, de trabalhar nos Pupilos do Exército, e depois já com o Seixal. Um dos fisioterapeutas chegou a ser meu atleta, o João Ribeiro. O que me recordo? Dos primeiros treinos, do primeiro jogo, do início de uma nova era", contou em entrevista à BTV este verão, quando regressou ao Benfica para treinar a equipa B, ainda longe de imaginar que iria terminar a época na equipa principal.

O percurso no Benfica teve um interregno de seis anos. Saiu em 2012 para ir para o Al Ahli do Dubai, com o espanhol Quique Flores, que o tinha conhecido na passagem pela Luz. "O falecimento do mister Jaime Graça [em fevereiro de 2012] marcou-me imenso e percebi que precisava de um novo estímulo", contou nessa mesma entrevista à BTV.

As ideias sobre o treino

Foi então que o seu caminho se cruzou com o de Carlos Carvalhal, que iria treinar o clube árabe na época seguinte. Com o antigo técnico do Sporting conheceu a aventura do futebol inglês e da Premier League. "A Premier League é o sonho de qualquer treinador e consegui chegar lá como adjunto do Carvalhal. Tínhamos uma amizade extrema, havia autonomia total em função das suas ideias. Conseguiu tirar o melhor de mim e das minhas competências, ajudou-me a evoluir para me tornar um treinador de futebol profissional", reconhece, sobre outra das suas grandes referências no futebol.

Esse foi um período em que aproveitou também para registar a escrito alguns dos seus pensamentos sobre o jogo e o treino. Escreveu dois livros, um em parceria com Carvalhal, outro em autoria própria com prefácio do antigo treinador do Sheffield Wednesday e do Swansea e durante algum tempo, em 2014, publicou também algumas reflexões no blog Visão de Mercado, onde deu a conhecer algumas das suas ideias que, hoje, os adeptos do Benfica esperarão ver refletidas na equipa principal.

"É um técnico que gosta de um futebol apoiado, muito forte taticamente e muito forte a motivar os seus jogadores", diz Miguel Rosa

Ali podemos perceber, por exemplo, como Bruno Lage valoriza "o processo e o desempenho" para além do resultado e como considera que só "a exigência e qualidade no treino" podem ajudar a conviver com essa "inevitável pressão do resultado". "Deve trabalhar-se para ganhar, mas sem abdicar daquilo em que acreditamos que é o melhor para a evolução dos nossos jogadores e da nossa equipa", escreveu, num desses artigos, dos quais pode ler alguns excertos no final deste texto.*

Seis meses para agarrar o futuro

Agora, o treinador dedicado, o estudioso do jogo, o homem que se preparou etapa a etapa para evoluir na carreira, tem o seu teste mais importante pela frente. Seis meses como treinador principal para resgatar o Benfica da depressão em que mergulhara nos últimos tempos com Rui Vitória.

Para já, ainda como interino, somou duas vitórias em dois jogos. E, talvez mais revelador do que isso, não teve receio de imprimir já a sua marca, ao alterar o tão criticado sistema 4x3x3 de Rui Vitória para um 4x4x2 com filosofia de jogo diferenciada da do seu antecessor.

Mas os desafios mais difíceis começam agora, com o calendário a apertar e as decisões a sucederem-se nas diferentes competições em que o Benfica está inserido. A começar já em Guimarães, para a Taça de Portugal, e com uma final four da Taça da Liga no horizonte próximo, na semana seguinte.

"Penso sinceramente que é a pessoa indicada para o Benfica", diz José Rocha, o treinador que o acolheu no começo de tudo, nos juvenis do Vitória de Setúbal. "Tem as bases e o perfil necessário para ter sucesso". É o que Bruno Lage terá de provar nos próximos seis meses.

"Uma estrutura de sucesso no Futebol é aquela que tem capacidade para repetir a longo prazo com objetivo de preparar o sucesso. Para tal, é importante perceber o passado, planear o presente e perspetivar o futuro. No passado, onde estavam há 5-10 anos atrás? O que evoluíram? Como evoluíram? Delinear o presente - Que planeamento? Que processo de treino? E arquitetar o futuro: onde querem estar em 5-10 anos? No entanto, numa "indústria" como o futebol em que a "avaliação" ocorre nos jogos, de semana a semana nos clubes, de mês a mês nas seleções, nem sempre existe a capacidade de avaliar o processo e o desempenho, focando-se exclusivamente no resultado. Será que nos dias de hoje ainda faz sentido menosprezar o processo e valorizar apenas o resultado?"

"Entendo que é pela qualidade do treino que o treinador, em especial o treinador Formador, se deve distinguir, e deixando de parte o ganhar, o perder, o jogou o A em vez do B, o jogar em 4x3x3 ou em 4x4x2."

"Não partilho da opinião que um treinador na formação trabalhe melhor sem a pressão do resultado (...) A inexistência ou não de pressão não pode, de forma alguma, condicionar a forma de trabalhar de um treinador e muito menos conduzir a alterações no método de trabalho."
"Enquanto treinador no Sport Lisboa e Benfica, e também na minha última experiência na equipa B do Al Ahli, guiei-me sempre por uma ideia de jogo, compreendida como apenas mais um conteúdo a abordar ao longo do tempo, e sempre ajustada às características do escalão e à capacidade dos jogadores"

"É um facto, e não nego, que grande parte da nossa prestação é avaliada em função do resultado obtido e não do trabalho realizado. Uma forma de lidar com essa"pressão invisível do resultado"é criar uma auto-pressão para apresentar um treino com qualidade de acordo com uma lógica sequencial e de progressão para os jogadores, pressionar os atletas para que a cada dia que passa sejam melhores e impor níveis de exigência, determinação e rigor na organização do treino."

"Deve trabalhar-se para ganhar, mas sem abdicar daquilo em que acreditamos que é o melhor para a Evolução dos nossos jogadores e da nossa equipa. Mas isso depende da impressão digital de cada um e a forma como pretende deixar a sua marca..."

"Preparar o jogo e, simultaneamente recuperar, para voltar a competir em 3 dias. Este acaba por ser o grande desafio do treinador: preparar estes ciclos em que a equipa tem que jogar no máximo, com o mínimo de 3 dias de intervalo entre os jogos. Neste curto espaço de tempo o treinador deve ter a competência de continuar a consolidar o jogar da equipa, reforçar princípios de jogo, aperfeiçoar a estratégia para o jogo seguinte e simultaneamente contemplar a recuperação para que os jogadores estejam o mais aptos possível para competir no próximo jogo (...)Não é fácil superar estes ciclos de jogos registando apenas sucessos e é nestes momentos, em que as competições se cruzam, que quem não estiver bem Preparado fica mais longe de atingir os objetivos pretendidos."

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