Liga dos Negócios Estrangeiros: uma vitoria pouco diplomática sobre Inglaterra

Num encontro entre os mais antigos aliados no mundo, representantes portugueses do Ministério dos Negócios Estrangeiros bateram os homólogos britânicos por 5-4 no Jamor a seis dias de poder haver uma final da Liga das Nações entre os dois países

Estádio Nacional, Portugal-Inglaterra, nove golos e uma reviravolta com contornos épicos. Esta podia ser a história de mais um confronto emocionante entre as seleções principais das duas nações, que já nos habituaram a duelos memoráveis, mas neste caso era um jogo de confraternização entre representantes dos Ministérios dos Negócios Estrangeiros (MNE) de ambas os países. Antes, ambos os conjuntos foram recebidos informalmente na Residência do Embaixador Britânico em Lisboa.

A equipa das quinas, que à exceção do capitão Paulo Teles da Gama utilizou camisolas brancas que havia à mão, esteve a perder por 1-3, mas deu a volta e acabou por ganhar por 5-4. Podia fazer lembrar a reviravolta portuguesa de 0-2 para 3-2 no Euro 2000 não fosse o estádio vazio e a diferença para a qualidade dos pezinhos de Luís Figo, João Vieira Pinto ou Rui Costa. Ainda assim, pode ser um bom prenúncio para os homens de Fernando Santos, que daqui a seis dias poderão defrontar Inglaterra na final da Liga das Nações, no Estádio do Dragão, caso ultrapassem a Suíça nas meias-finais e os britânicos vençam a Holanda.

Além de Portugal e Inglaterra terem estabelecido em 1386, no Tratado de Windsor, a mais antiga aliança diplomática do mundo ainda em vigor, também no futebol há laços fortes entre ambos os países, conforme explicou ao DN o vice-embaixador da Embaixada Britânica em Portugal, Ross Mathews.

"O Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico tem uma equipa de futebol e todos os anos fazem um tour por um lugar. Desta vez decidimos vir a Portugal, um país com o qual temos uma história rica no âmbito do futebol. Há mais de um século, os ingleses tiveram um papel na chegada do futebol a Portugal e viemos cá celebrar estes laços que têm sido reforçados com a presença de portugueses brilhantes na liga inglesa como Cristiano Ronaldo ou José Mourinho, que tiveram um impacto fantástico na nossa liga. E em Portugal houve influência de Sir Bobby Robson no Sporting e no FC Porto. Partilhamos uma história de futebol e por isso esta tour tem um simbolismo importante", explicou o diplomata que esta segunda-feira foi a jogo, num português a roçar a perfeição, contando também que antes deste jogo no Jamor já o Foreign Office tinha defrontado uma equipa da Marinha Portuguesa e o Lisbon Casuals de Carcavelos, este último com uma longa história relacionada com os britânicos e com a introdução do futebol em Portugal.

Mais efusivo em campo, a liderar a equipa portuguesa, esteve o diretor das relações bilaterais com os países da União Europeia (UE), Paulo Teles da Gama, que mostrou não gostar de perder nem a feijões. "Acima de tudo é um jogo de futebol, o que é muito importante, como deu para ver comigo a jogar. É interessante. Uma equipa que vem de Inglaterra para jogar connosco é giro, não acontece todos os dias. Os ingleses têm essa tradição de valorizar o desporto e o futebol, e isso é importante para o relacionamento diplomático entre os dois países", frisou o dirigente político que esta segunda-feira trocou o gabinete por um lugar no setor defensivo da seleção do MNE luso.

Ingleses só não querem penáltis

Esta segunda-feira foi a brincar no Jamor, mas domingo poderá haver um Portugal-Inglaterra bem a sério no Estádio do Dragão, para a final da Liga das Nações. "Se estivermos na final já é um bom sinal. Espero ganhar, não há outra razão para se participar em algo que não seja para ganhar", vincou Paulo Teles da Gama, que recusou fazer qualquer paralelismo entre o resultado do jogo entre diplomatas e do possível duelo do fim de semana. "Não tem nada a ver. Isto aqui acima de tudo é um convívio. É um prazer jogar neste campo. Não é todos os dias que temos esta oportunidade. É um privilégio", sublinhou o diretor das relações bilaterais com os países da UE, que pisou um relvado que dez dias antes tinha servido de palco da final da Taça de Portugal, com vitória do Sporting sobre o FC Porto nas grandes penalidades.

Por falar em grandes penalidades, foi dessa forma que Portugal eliminou Inglaterra nos quartos-de-final do Euro 2004 e Mundial 2006, depois de ter vencido por 3-2 na fase de grupos do Euro 2000. Ross Mathews não se importava de mais uma cimeira futebolística luso-britânica, apenas pede é para... não haver penáltis. "Que a final da Liga Nações seja Portugal-Inglaterra. Se assim for, será certamente um jogo fantástico. Em 1966 ganhou Inglaterra contra a equipa de Eusébio, mas recentemente Portugal tem ganhado várias vezes: 2000, 2004 e 2006. Vamos ver como é desta vez. Espero que não seja necessário utilizar penáltis desta vez. É demasiado cruel", atirou, bem-disposto, enquanto observava o bom início de jogo dos companheiros.

Lealdade e honestidade britânicas

Questionado sobre se os ingleses são mais fáceis de lidar dentro de campo ou numa mesa de negociações, Paulo Teles da Gama foi... diplomático. "Jogo futebol há muitos anos, já joguei com muitas equipas inglesas e gosto muito. Podem jogar duro e agressivo, mas sempre limpo e com honestidade, o que nem sempre se encontra dentro e fora dos campos. Acho que isso é fundamental", destacou, elogioso para com o típico fair play britânico.

Do outro lado, Ross Mathews salientou o contributo que "os melhores jogadores do mundo, incluindo muitos portugueses como os do Wolverhampton", têm dado para tornar a Premier League numa "fortaleza". "Essa fortaleza está a expressar-se na seleção nacional. Espero uma vitória inglesa nos próximos torneios, talvez já na Liga das Nações", vaticinou, com a camisola 4 nas costas.

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