Carlos Godinho: "Ronaldo foi talvez a maior herança do Euro 2004"

Tem 69 anos e 45 na Federação! Conquistou três títulos, esteve em cinco finais e 15 fases finais. Na altura do Euro 2004 era diretor das seleções nacionais, hoje é team manager da seleção principal e recordou ao DN o torneio europeu que Portugal organizou em 2004 e a final perdida para a Grécia e como isso lançou alicerces para os triunfos no Euro 2016 e na Liga das Nações.

Quinze anos depois como olha para o Euro 2004?
Com orgulho. O Euro 2004 ajudou muito à organização da Federação Portuguesa de Futebol [FPF] enquanto estrutura e ao desenvolvimento das seleções nacionais. Não se pode desligar uma coisa da outra. Foi um período extraordinário, desde 1998, altura em que se começou a trabalhar no assunto, até ao Europeu em si. O dia 12 de outubro de 1999 é um dos mais importantes do futebol português, foi o dia me que nos foi atribuído o Euro 2004. Um período de muito trabalho que incluiu a elaboração da resposta ao caderno de encargos. Pertenci à comissão executiva e fiquei responsável direto pelos centros de treino e pelo calendário da prova. Mais tarde, Gilberto Madaíl chegou a convidar-me para diretor do Euro 2004, mas eu achei que não era a minha praia e recusei, fiquei somente como responsável da seleção nacional. Depois o final não foi tão bom assim... faltou a cereja em cima do bolo.

Ainda se lembra de como foi a atribuição do torneio a Portugal?
Ainda há dias estive a ver o vídeo... foi uma alegria imensa, estive em Achen e soube nesse dia de manhã que íamos ganhar. Eu só viajei no dia da atribuição e quem me foi buscar ao aeroporto era o motorista de uma alta entidade do futebol alemão e que me diz assim: "Ontem fui buscar o meu patrão ao aeroporto e ouvi a conversa com o presidente da UEFA e sei que vocês [Portugal] vão ganhar." Sorri. Quando cheguei ao hotel a comissão executiva de Portugal estava toda reunida e contei-lhes. O Carlos Cruz ficou muito relutante aos "boatos", como lhe chamou. Mas o motorista sabia e mais tarde fui ter com ele, ofereci-lhe uma taça de champanhe quando se soube que íamos organizar o Euro 2004. Foi um momento extraordinário. No dia a seguir encontrei numa rua junto do hotel o Ángel Villar, presidente da federação espanhola na altura, sozinho com um ar muito abatido. É uma imagem que nunca mais esquecerei, nestas coisas há sempre o outro lado, o de quem não vence.

A quem devemos agradecer o Euro 2004?
À FPF, ao Estado, à comissão executiva, aos clubes, às autarquias que tiveram o bom senso de avançar e de se prepararem para ganhar a organização, o que não era nada fácil. Participei um pouco e sei do que falo. O processo de atribuição destas provas é sempre difícil e intenso...

O que sobra do Euro 2004 nos tempos que correm?
Em primeiro lugar, os estádios, mesmo com alguns problemas nalguns deles. Foi fantástico para os clubes terem a possibilidade de construir estádios novos e dar outra dignidade ao futebol português. Penso que isso é notório. Acabámos de jogar e conquistar a Liga das Nações num dos estádios do Euro 2004, que se mantêm, além de bonitos, funcionais. E eu acho que isso foi fundamental para a mudança de mentalidades em relação à seleção. A possibilidade de termos estado pela primeira vez numa final, a alegria que foi o percurso da seleção até à final, que não resultou na vitória mas abriu-nos a porta de entrada no núcleo dos finalistas, e sabíamos que um dia íamos ganhar e ganhámos 12 longos anos depois, em 2016...

Foi esse o momento de viragem, no sentido em que os portugueses sentiram que podiam vencer algo?
Sim. Já tínhamos estado em duas meias-finais e sabíamos que a qualquer momento ia surgir uma final. E depois ganhar...

Sem o Euro 2004, o Euro 2016 tinha o mesmo encanto?
Tinha encanto na mesma. Depois do Euro 2004, em 2006 só não fomos à final do Mundial por questões estranhas ao jogo que não quero abordar, em 2012 também estivemos perto da final, e por isso sabíamos que mais ano menos ano iríamos lá chegar. O Euro 2016 terá sempre encanto, foi a primeira vez que Portugal ganhou um troféu. Um encanto extraordinário e inigualável, não há palavras para descrever aquilo que todos sentimos. A segunda vez [Liga das Nações] já foi mais comedida, mas ainda assim uma imensa alegria. Ainda mais porque em 2016 sentimos que estava tudo feito para a França. Nós ficámos no balneário da equipa da casa e vi passar três ou quatro caixas de champanhe para o balneário deles, e essas coisas marcam-nos... Em 2016 foi tudo muito forte e só será ultrapassado com um título mundial, talvez, quem sabe.

E nós não tínhamos champanhe em França? Não íamos preparados para a festa?
Não, não... Por uma questão de princípio e superstição, desde 2004 nunca mais tratei de nada disso, nem champanhe, nem autocarro, nem camisolas, alguém que trate, eu é que não... Tratei disso tudo em 2004 e jurei para nunca mais. É a única superstição, nem agora na Liga das Nações tratei disso, só distribuí as camisolas... que alguém, e bem, preparou.

Mas se estava tudo feito para a França no Euro 2016, também, nesse contexto, estava tudo feito para Portugal no Euro 2004...
Se fosse hoje não perdíamos aquela final, é o que sinto...

Mas o Euro 2004 não começou bem. Aquela derrota no Dragão foi mesmo um balde de água fria...
Não e sim. Perdemos, é certo, mas ganhámos uma equipa. Há uma coisa que nos fez ver que o povo português estava connosco apesar da derrota. Acabámos o jogo muito desiludidos, extremamente abatidos, depois de tanto trabalho sentir que perdemos... Depois do jogo fomos para o aeroporto para seguir viagem para Lisboa e quando chegámos ao aeroporto do Porto estava uma pequena multidão a dar-nos apoio e carinho. Isso para mim foi decisivo para o resto do campeonato, aquela pequena multidão que acreditou em nós depois de uma derrota. Foi isso que os jogadores sentiram, foi aí que se deu o clique.

Depois temos um torneio...
Épico, ou quase... Depois da derrota com a Grécia seguiu-se a Rússia. Eu estava no túnel de acesso ao balneário, branco como a cal, quase a desfalecer... A equipa ia entrar em campo e o Luís Figo aproxima-se de mim e diz: "Calma boss, hoje limpamos isto." E foi assim. Depois seguiu-se a Espanha. O Pauleta não podia jogar, mas foi ele a fazer o discurso no balneário e disse ao grupo: "Quem vai jogar no meu lugar vai marcar e resolver isto." E acertou. O Nuno Gomes fez o golo da vitória frente à Espanha em Alvalade. A seguir a Inglaterra e os penáltis. Coitado do meu grande amigo Eusébio, mas se o Ricardo tem ouvido a orientação dele não tinha defendido [risos]. Ele disse ao Ricardo para que lado devia atirar-se, mas ele foi para o outro, mas depois criou-se a dúvida se o Eusébio tinha dito para a direita dele ou a do Ricardo [risos]. Sobre o Ricardo, lembro-me que depois de marcar o penálti e já sem luvas a festa apoderou-se dele. O Ricardo já nem se lembrava que tinha luvas, tal era a festa. Ficaram penduradas na baliza e eu fui lá buscá-las enquanto toda a gente comemorava. Depois quando cheguei ao balneário tinha uma mensagem no telemóvel a dizer "devolve as luvas ao dono" [risos]. Depois a Holanda e aqueles golos do Maniche e do Cristiano, este talvez a grande herança do Euro 2004. Foi um jogo extraordinário.

A seguir chega a final...
Depois chega a final... demorámos uma hora e meia a chegar ao estádio. Na antevéspera, eu, o Scolari e o presidente tínhamos estado a planear a final. Eu achava que não deveríamos submeter os jogadores àquela pressão. Ponderou-se vir dormir a Lisboa ou chegar de helicóptero, o Scolari não se pronunciou e o presidente Madaíl virou-se para mim e disse: "Se fazemos isso e perdemos amanhã estou morto. Então é deixar escrever as coisas como têm de ser escritas." E assim foi. Ficámos na Academia, em Alcochete, e no dia demorámos hora e meia a chegar ao estádio, e só chegámos a horas porque antecipei a hora de saída, mas a desconcentração foi total. Aviões, barcos, motos, carros, cavalos, pessoas na estrada... tudo isso entrou na cabeça dos jogadores. Serviu-nos a lição para 2016, que nem música havia no autocarro...

Então, toda aquela gente na rua foi demasiado para os jogadores, no sentido em que lhes criou uma enorme pressão para o jogo...
Sim, na minha opinião, sim. Não foi por isso que perdemos, como é evidente, mas se calhar... bem, nunca saberemos.

Qual foi o momento mais marcante do Euro 2004 para si?
O que mais me sensibilizou foi o povo do Porto. Aquela multidão no aeroporto, após a derrota com a Grécia. Passava-se sempre a imagem de que os adeptos do Porto eram do FC Porto e não da seleção, mas eles mostraram que não era verdade, aliás, ainda agora na Liga das Nações se viu a união dos portugueses e dos portuenses à seleção. Se aquelas largas dezenas de pessoas acreditavam, porque não devíamos nós e os jogadores acreditar? Esse foi o meu momento do Euro 2004.

Como era o ambiente na seleção? Transparecia alguma tensão por causa da naturalização do Deco?
A naturalização do Deco já estava ultrapassada. Depois daquela reação pública de desagrado do Figo, o Scolari pediu-me para lhe ligar e dizer-lhe que juntos resolveríamos, e resolveu. O Deco quando chegou integrou-se completamente, pelo seu carácter e feitio e porque é muito inteligente e soube gerir a situação. E os jogadores que mais contestaram a naturalização acabaram por o aceitar e perceberam que ele tinha tanto talento que só podia ajudar. A mais-valia desportiva era e foi evidente. Hoje ninguém contesta o Deco como ninguém contesta o Pepe, não é possível contestar o Pepe. Houve alguma tensão, não tanto pela naturalização do Deco, mas pelos problemas que vinham do Mundial da Coreia e do Japão. As coisas estavam tensas no seio da seleção depois do Mundial 2002 e Scolari foi o pacificador.

Era muito próximo de Scolari. Como viveu ele tudo isso?
O Scolari viveu o Euro 2004 de forma muito intensa, ainda hoje se considera português, tem cá o filho e dois netos. Contribuiu de forma decisiva para a mudança de mentalidades. Quando Madaíl me perguntou o que eu achava do nome do futuro selecionador, desconhecendo eu nessa altura o acordo com Manuel José, respondi-lhe: "Os jogadores querem um estrangeiro porque consideram que nenhum português vai conseguir alhear-se das enormes pressões dos clubes." Mais tarde chama-me a casa dele e informa-me que o selecionador ia ser o Luiz Felipe Scolari. Depois foi um casamento quase perfeito.

Aquela ideia de pedir bandeiras nas janelas, de quem saiu?
As bandeiras não foram ideia do Scolari, mas ele agarrou-a bem. A ideia nasceu em Óbidos no primeiro dia do estágio e saiu da cabeça do presidente Madaíl. Mas quando o presidente a revelou eu senti os olhos do Scolari a brilhar, era uma grande ideia, daquelas para agarrar, e assim foi. Fomos convidados para ir a uma festa da Câmara de Óbidos e foi lá que o Scolari se saiu com as bandeiras nas janelas, símbolo do orgulho nacional. Eu acho bem, devemos adorar a nossa bandeira, ainda por cima é bonita. O Scolari conquistou os portugueses.

O Euro 2004 também nos deu Ronaldo...
Sim. Como eu disse antes, o Cristiano foi talvez a grande herança do Euro 2004. Passou um pouco despercebido no meio de Couto, Figo, Rui Costa, Deco, mas aquele golo à Holanda já mostrou o génio. Eu lembro-me daquele miúdo espigadote. magrinho, com uma ambição tremenda de conquistar tudo. Foi aí que ele começou a marcar a diferença na nossa seleção. Lembro-me da primeira vez que ele foi à seleção e o Fernando Couto lhe dizer "miúdo respira, respira miúdo". Fazia cada raide... Hoje é capitão e incontestado como melhor do mundo. Recebeu a braçadeira em 2007, salvo erro por homenagem ao malogrado Carlos Silva. Nós íamos jogar a Londres com o Brasil quando na véspera da viagem o vice-presidente da FPF, Carlos Silva, que adorava o Cristiano, morreu. Nem pudemos ir ao funeral porque tínhamos de viajar. E o Scolari quis honrar a memória dele, metendo o "menino", como lhe chamava, a capitão. Mesmo contra a opinião de alguns dos mais velhos, o Scolari manteve a ideia e informou a equipa de que ia meter o Cristiano a capitão, até porque ia ser no futuro um ídolo mundial e o Carlos Silva já lhe tinha falado nisso. E até hoje ele só tem honrado a braçadeira.

Depois do Euro 2004, Portugal recebeu a Liga das Nações. Portugal vai candidatar-se à organização do Mundial 2030?
O diretor-geral, Tiago Craveiro, antes do anúncio disse-me que íamos lançar as bases para uma candidatura conjunta com Espanha, e achei muito boa ideia, esperando que se ganhe. Sozinhos não tínhamos condições, Portugal e Espanha juntos sim. Espero ainda estar com saúde nessa altura porque gostava de assistir a um Mundial em Portugal, sinceramente gostava. Que Portugal ganhe a organização e se possível ganhe o torneio também. Nos últimos anos Portugal conseguiu colocar-se na agenda do futebol Mundial graças ao Cristiano, ao Figo e a tantos outros jogadores e treinadores, à modernização da estrutura que é a FPF, mas também aos clubes, que apostaram na formação e têm fornecido extraordinários jogadores à seleção - sem formação não vamos a lado algum. Apesar de ser um país muito pequeno tem grande dimensão e é respeitado no futebol atual, e um Mundial é o que nos falta agora.

Também faz agora anos da conquista do Euro 2016. O que recorda do Europeu?
Antes de tudo por termos preparado, finalmente em casa, uma fase final, na Cidade do Futebol, algo que tanta gente sonhou e Fernando Gomes concretizou, e depois as coisas incríveis que se passaram em França, e foram tantas, umas lógicas, outras mais "anormais", como a história do galo. Sei lá, um período extraordinário que dava só por si um livro. Uma alegria imensa impossível de explicar. Tiago Craveiro mandou-me uma mensagem já bastante tarde na noite que antecedia o jogo da final e eu respondi-lhe assim: "Amanhã vai ser o grande dia." Absoluta certeza de que iríamos vencer. Às duas da manhã, sem conseguirmos dormir, estava com um pequeno grupo do staff da seleção a conviver com os emigrantes à porta de Marcoussis. A glória estava ali a chegar. Senti isso. Porquê? Não sei.

Como viveu a conquista da Liga das Nações?
Com tranquilidade. Mais uma vez tinha a certeza absoluta de que íamos ganhar. Nem nervoso estava. Quando o selecionador nacional e a maior figura da seleção dizem "isto é para ganhar", é porque é mesmo para ganhar.

Está na FPF há mais de 20 anos. Como tem sido a experiência de estar na sombra dos selecionadores? E até quando vamos ter Carlos Godinho na sombra da seleção?
Na sombra dos selecionadores foi quase sempre muito positivo, quase sempre... Fico na FPF com a seleção até terminar o compromisso que tenho com o diretor-geral da FPF, e ele sabe qual é...