Boris Becker: "Gosto muito da atitude do João Sousa no court"

Ex-tenista alemão, atual comentador da Eurosport, em entrevista exclusiva para Portugal, na antevisão do Open da Austrália

Nome histórico do ténis, Boris Becker ainda é o último alemão a ter ganho um torneio do Grand Slam em singulares masculinos. À entrada para o primeiro grande torneio da temporada, aponta Novak Djokovic como o grande favorito para o Open da Austrália, fala do que distingue o tenista sérvio (a quem já treinou) dos restantes e deixa elogios ao português João Sousa, nesta entrevista promovida pela Eurosport e que reuniu vários meios de comunicação internacionais, entre os quais o Diário de Notícias.

João Sousa fez história para o ténis português no último US Open, ao atingir a quarta ronda, o mais longe que alguma vez foi num Grand Slam. Acha que ele pode melhorar esse resultado na Austrália? E que conselhos lhe daria?
Ele é um grande lutador, com grande atitude, é forte em todas as superfícies. Penso que é a atitude dele que o pode levar longe. O serviço tem de melhorar, a direita tem de se manter agressiva, mas gosto muito da sua atitude no court.

Novak Djokovic aparece como o grande favorito na Austrália, depois da excelente segunda metade de época em 2018. O Boris Becker já o treinou. O que é que separa Djokovic dos restantes?
Vou começar pela mentalidade de campeão. Novak sabe como ganhar. Depois, penso que a sua movimentação em court só é igualada pela do melhor Nadal. E quando ataca a bola sabe exatamente onde a atingir. No geral, penso que não há nada que possamos apontar propriamente como uma fraqueza no seu jogo: tem um bom serviço, a sua resposta ao serviço é provavelmente a melhor do planeta, o volley é bom, a esquerda cortada também... não há uma estratégia ou uma forma de jogar que se possa dizer que é "a forma" de bater Novak. Contra ele, à melhor de cinco sets, vai ser uma luta de quatro/cinco horas para quem aspirar a ganhar-lhe e muito poucos jogadores têm a determinação necessária para essa batalha contra ele.

Há algo em particular sobre Melbourne de que Djokovic goste para jogar regularmente tão bem no Open da Austrália?
Ele gosta do court central, penso que gosta de Rod Laver. Gosta dos jogos noturnos ali. E é uma boa altura do ano para ir a Melbourne, no meio de um longo inverno aqui na Europa. Além disso, foi o primeiro Grand Slam que ele ganhou.

"Novak [Djokovic] adora competir, está-lhe no sangue, faz parte da sua natureza"

Há alguma característica que o tenha impressionado em Novak que a generalidade das pessoas possa não conhecer?
Ele é um estudioso do jogo. Consegue dizer quem ganhou onde e quantas vezes. Está constantemente a tentar melhorar, não há um jogo que ele considere ter sido perfeito. Quer sempre jogar melhor, mesmo depois de já ter ganhado tantos títulos. Penso que com Roger e Rafa se passe o mesmo. E Novak adora competir, está-lhe no sangue, faz parte da sua natureza.

Quem é o melhor dos três para si?
Bom, essa é sempre a grande questão, certo? O mais bem sucedido é Roger, mas penso que Rafa e Novak estão muito próximos. A questão é se eles vão consesguir chegar aos 20 Grand slams, como o Roger. E o Roger conseguirá mais algum? É difícil responder a isso.

Será 2019 o ano em que finalmente se dará o render da guarda de que tanto se fala há anos? A nova geração está pronta a tomar o poder?
É a grande questão. Há certamente qualquer coisa no ar. Penso que a nova geração começa a estar mais próxima e que este pode ser o ano em que vamos começar a ver novos vencedores nos Grand Slam para lá de Djokovic, Nadal e Federer. A segunda metade do último ano deixou isso patente. Claro que o facto de Djokovic ter ganhado dois Grand Slams e Federer e Nadal os outros dois fez parecer mais do mesmo, mas tivemos a vitória de Zverev nas Finais ATP de Londres, batendo Djokovic e Federer de forma sucessiva. Isso foi impressionante, assim como o triunfo de Khachanov em Bercy. Portanto, eles [os mais novos] estão a bater à porta com insistência e eventualmente vão acabar por entrar no lote dos vencedores de Grand Slams. Sente-se essa atmosfera. Mas ainda acho que os três do topo, quando estão em forma, continuam a ser muito difíceis de bater.

"Nesta altura, Zverev é ''the best of the rest'. Está pronto para chegar mais longe"

O que podemos esperar da geração mais nova (Zverev, Khachanov, etc) que ainda não tenhamos visto?
Penso que alguns já começam a demonstrar as qualidades que vemos na velha guarda. Sascha [Zverev] gosta de competir com os jogadores de topo, está sempre a estudar o jogo, gosta do ambiente da competição. É um tenista alto, o que também é importante no ténis atual, e um grande batedor. Estes talentos emergentes parecem lidar bem com a pressão. Fala-se muito de exemplos como o Kyrgios, instáveis, mas Zverev e um par de outros jovens jogadores não parecem muito afetados pela pressão. Não entram em pânico se perdem uma primeira ronda, nem ficam em êxtase se ganham um título.

Alexander Zverev ganhou as Finais ATP apenas algumas semanas depois de começar a trabalhar com Ivan Lendl. Acha que ele está pronto para ganhar na Austrália o seu primeiro Grand Slam?
Como alemão, espero que ele consiga ganhar um Grand Slam em breve. Nesta altura, ele é 'the best of the rest'. O melhor da classe abaixo dos 21 anos. Acho que está pronto para ir mais longe.

"Enquanto Federer tiver prazer a jogar e quiser estar em court, vai sempre ser muito bom"

Federer e Nadal vão abrandar o ritmo este ano?
Bem, com Federer essa questão tem-se colocado nos últimos dois ou três anos, mas ele consegue surgir sempre rejuvenescido e ainda mais forte. Vi-o em Perth, na Taça Hopman, e ele continua a parecer em grande forma. Com Nadal provavelmente há mais interrogações, já não joga há algum tempo, desistiu de Brisbane e precisa de estar a 100% para competir. Por isso, em relação a ele, acho que precisamos de o ver jogar algumas partidas, após a longa paragem por lesão, para percebermos melhor o seu estado. Mas com Federer, enquanto ele tiver prazer a jogar e quiser estar em court, vai sempre ser muito bom.

Rafael Nadal jogou último jogo em setembro. Quão grande é este handicap para ele e a para as suas hipóteses de ganhar na Austrália?
Para qualquer outro jogador que não Nadal eu diria que precisaria de jogar um par de torneios antes. Mas ele já provou uma e outra vez que pode voltar de lesões e jogar a um nível muito alto. Agora, claro que não está a ficar mais novo e tem um jogo muito físico, pelo que precisa de um par de jogos para chegar ao seu melhor estado, mas este é um torneio longo. Se ele achasse que não teria hipóteses não se inscrevia.

"Polémica entre Serena e Carlos Ramos já está esquecida"

Serena Williams pode igualar o recorde absoluto de vitórias em torneios do Grand Slam, de Margaret Court, com 24. Esse será um forte fator de motivação a fazer da norte-americana favorita em Melbourne?
Penso que é o que a motiva a continuar a jogar: ganhar mais Grand Slams, bater todos os recordes. Já não joga "a sério" desde o US Open, mas pareceu em forma na Taça Hopman e penso que é uma das principais favoritas. Nas mulheres não há uma favorita clara, como há nos homens, mas é uma das três principais candidatas.

Como viu a situação que envolveu Serena Williams e o árbitro português Carlos Ramos na final do US Open? Acha que isso danificou de alguma forma a imagem da norte-americana?
Acho que isso já foi há muito esquecido. Já se jogou tanto ténis desde essa altura que eu já nem me lembrava disso. Sim, foi o último jogo da Serena, estou certo que vai ser questionada sobre isso na primeira ronda, mas à medida que for ganhando e avançando eliminatórias isso vai desaparecer.

"Penso que o que motiva Serena a continuar a jogar é isso: ganhar mais Grand Slams, bater todos os recordes"

Caroline Wozniacki ganhou finalmente um Grand Slam no ano passado. Agora enfrenta a pressão para defender o título. Vê-a entre as favoritas?
Pressão tinha ela antes, para ganhar um major. Agora penso que não terá nenhuma pressão. Ela é uma das mais fortes lutadoras, gosta da Austrália, os australianos gostam dela, tem todas as condições para fazer um bom torneio. Porque não ganhar mais Grand Slams? É nova o suficiente para poder ganhar mais algum major nos próximos dois ou três anos.

Angelique Kerber, no setor feminino, é a melhor opção para ver um tenista da Alemanha a levantar o troféu de vencedor na Austrália?
É certamente uma das favoritas no quadro feminino. É a nº 2 do mundo, gosta do piso, tem um novo treinador (Rainer Schuettler) e está em excelente forma.

E Maria Sharapova, ainda tem ténis para ganhar um Grand Slam?
Tem de prová-lo. Desde que voltou da suspensão, ainda não conseguiu estar ao seu melhor. Seria bom para ela e para o ténis.

Quem pensa que vai dominar o ténis feminino em 2019?
Acho que ninguém vai dominar. Acho que vamos continuar a ter uma lista diversificada de vencedoras, como no ano passado. Não há uma figura dominante, nesta altura, que nós possamos prever que vá ganhar vários Grand Slams nesta época.

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