João Félix, o miúdo franzino que o FC Porto não aproveitou

O avançado de 18 anos renovou com o Benfica até 2023, ficando com uma cláusula de rescisão de 120 milhões de euros

João Félix, de 18 anos, renovou esta segunda-feira contrato com o Benfica até 2023 e ficou com a cláusula de rescisão mais alta do futebol português, 120 milhões de euros, o mesmo valor que a SAD benfiquista colocou recentemente no contrato de outro jovem da formação, Gedson Fernandes.

Em dezembro de 2017, o miúdo que este ano foi lançado por Rui Vitória na equipa principal do Benfica tinha renovado contrato até 2022. Mas a SAD entendeu que face ao valor e à margem de progressão de João Félix, este era o momento ideal para ampliar o vínculo por mais uma temporada e melhorar as condições salariais do atleta (ganhava 7500 euros/mês). E ao mesmo tempo blindar o médio ofensivo com uma cláusula de 120 milhões de euros (dobrou a que tinha anteriormente), dado tratar-se de um dos jovens do plantel que o clube entende ter um futuro mais promissor.

Mesmo antes de se estrear pela equipa principal do Benfica, João Félix já era apontado a alguns grandes emblemas europeus, casos do Barcelona, PSG, Manchester United, Arsenal, Mónaco, West Ham e AC Milan. As boas exibições na UEFA Youth League (a Liga dos Campeões de juniores) pelo Benfica na temporada passada e também pelos dos sub-21 de Portugal, fizeram com que o seu nome figurasse nos relatórios dos olheiros de vários colossos europeus desde cedo, existindo mesmo quem o comparasse a Rui Costa e Bernardo Silva.

João Félix estreou-se pela equipa principal do Benfica esta temporada, na segunda jornada, a 18 de agosto, diante do Boavista. Com o clube da Luz a vencer por 2-0, Rui Vitória lançou o médio ofensivo aos 88 minutos. O momento alto aconteceu sete dias depois, quando saltou do banco e em pleno Estádio da Luz, no dérbi com o Sporting, apontou de cabeça o golo que permitiu à sua equipa empatar a um golo diante do rival (há 41 anos que um jogador tão jovem do Benfica não marcava num clássico). "Não estou preocupado com a questão de ser um jogador jovem. Olho para a qualidade e olho para o enquadramento. Tem a qualidade que podia acrescentar algo ao jogo, uma capacidade de finalização enorme. Se lhe dão espaço ele arranja forma de finalizar", disse o treinador Rui Vitória no final do dérbi com os leões.

Em março, por ocasião de um estágio da seleção sub-21, João Félix caracterizou-se como "um jogador inteligente, imprevisível, que gosta de ter contacto com a bola e isolar os colegas", revelando a posição onde preferia atuar: "A minha posição preferida sempre foi a de médio ofensivo, mas faço o que o treinador pedir. Consigo adaptar-me bem a qualquer posição, seja ponta-de-lança, extremo ou médio ofensivo", observou, confessando que na infância tinha como ídolo Kaká, mas que atualmente gosta de ver jogar Neymar.

O médio ofensivo recebeu recentemente um grande elogio de Nuno Gomes, antigo jogador do Benfica que foi também responsável pela formação dos encarnados. "Tem muita personalidade e um toque de bola que me faz lembrar Zidane", referiu o antigo avançado das águias, em entrevista ao jornal Tuttosport, publicação italiana que este mês o colocou nos 40 nomeados ao troféu Golden Boy.

Filho de um jogador amador de futebol, João Félix, que nasceu em Viseu, começou a jogar num clube de bairro, o Pestinhas, onde o seu pai era treinador e por lá ficou um ano. Daí rumou ao FC Porto, então com oito anos, onde chegou a fazer parte do Projeto Jogador de Elite (PJE), tendo coincidido, entre outros, com Diogo Dalot e Diogo Queirós. Mas o facto de ser muito franzino, levou os treinadores das camadas jovens dos dragões a não apostarem no miúdo, que acabou por ser cedido ao Padroense.

"Eu gostava de saber o motivo do porquê de um jogador deste talento ter saído do FC Porto. Era pegar num pau e dar na cabeça de quem o deixou sair. Ver um miúdo com aquela classe e deixá-lo sair para o Benfica... não sei porquê e gostava de saber as razões. O FC Porto ficou de certeza absoluta muito mal visto nesta situação", disse recentemente Rodolfo Reis, comentador afeto ao FC Porto no programa O Dia Seguinte, da SIC Notícias.

Sem grandes perspetivas de futuro no FC Porto, João Félix quis deixar o clube em 2015. E foi então que o Benfica surgiu no seu caminho - na verdade, os encarnados já o tinham referenciado há muito tempo. Os responsáveis benfiquistas começaram por falar com Carlos Sequeira, pai do jogador, utilizando como exemplo André Gomes, um jogador que tinha feito grande parte da formação no FC Porto, mas que acabou por ir para o Benfica para ter oportunidades. E assim foi. Nesse mesmo ano de 2015, o médio ofensivo assinou pelo Benfica e começou a treinar no centro de estágio do Seixal.

"O João era muito franzino em relação aos outros, ele desenvolveu-se muito mais tarde. Mas é mentira que tenha sido dispensado do FC Porto. Não foi dispensado. Ninguém o mandou embora. Ele achou que tinha que sair. Foi uma decisão dele. Naquele momento ele achou que o melhor para ele era sair. Foi um tiro no escuro. Podia correr melhor ou não. Mas ele sabia que não ia ficar sem clube. Fosse para o Benfica, para o Sporting ou para Viseu, ele teria clube", contou a mãe, Carla Félix, em declarações ao site Maisfutebol.

No Seixal, João Félix deixou de ser o jogador franzino dos tempos do FC Porto. Cresceu, ganhou músculo e cedo começou a ser um dos jovens mais promissores da formação do Benfica. Logo em 2016 assinou o seu primeiro contrato profissional. E aos 16 anos já jogava na II Liga, pelo Benfica B. Aos 17 tornou-se o jogador mais jovem de sempre do clube a marcar um golo nesta competição. Apesar dos 17 anos, foi chamado à seleção de sub-21 num jogo frente à Bósnia, de qualificação para o Europeu. E desde então tem sido chamado com frequência por Rui Jorge.

E foi assim, sempre a queimar etapas, que chegou esta temporada ao plantel principal do Benfica. Já participou em sete jogos oficiais, num total de 122 minutos jogados, e tem dois golos marcados (Sporting e Desportivo das Aves). Só não jogou mais porque entretanto contraiu uma lesão. Esta quarta-feira viu o Benfica reconhecer o seu valor, aumentando-lhe a duração do contrato, o salário e colocando num contrato uma cláusula de rescisão de 120 milhões de euros. Luís Filipe Vieira disse esta semana em entrevista à TVI que vai segurar o médio ofensivo (assim como outros jovens da formação) - "o Benfica está a reter talento e não vai vender nenhum desses jogadores, apenas se chegarem ao valor da cláusula". Veremos se perante a ascensão de João Félix vai conseguir cumprir a promessa...

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