Alverca. O renascer do clube que já foi o Robin dos Bosques da I Liga

Esteve quase a fechar portas, mas conseguiu reerguer-se. Regressou aos campeonatos nacionais, tem um centro de estágio e um novo investidor.

Ricardo Carvalho, Maniche, Deco e Mantorras foram alguns dos grandes jogadores que passaram pelo Alverca e que, mesmo sem darem conta, foram ajudando o clube ribatejano a sobreviver depois da despromoção à II Liga, em 2004, e extinção do futebol sénior no ano seguinte. "O Alverca [hoje a disputar a Série C do Campeonato de Portugal] sobrevivia porque vivia quase exclusivamente de algumas receitas extraordinárias, as percentagens do mecanismo de solidariedade das transferências deles", explicou ao DN o atual presidente do clube, Fernando Orge, no cargo desde 2011.

Cinco presenças na I Liga podem não chegar para obter o estatuto de histórico do futebol português, mas, mais do que os números, valem as recordações. E as do Futebol Clube de Alverca são as de um clube por onde passaram grandes jogadores e que insistia em bater o pé aos três grandes.

A rápida ascensão dos alverquenses na década de 1990 coincidiu com os dez anos de Luís Filipe Vieira à frente dos destinos do clube (1991 a 2001), e a queda abrupta com a saída do dirigente para o Benfica. "A SAD perdeu a pessoa mais idealista, que pensava a SAD e a executava de uma forma que não houve mais ninguém em Alverca que conseguiu. A partir daí, a SAD foi perdendo valor e gás, e em determinada altura o balão começou a esvaziar, até que chegou a uma altura em que com a não inscrição tudo ruiu", contou Fernando Orge, 56 anos, que garante que o seu antecessor mais mediático "tem dado algumas ajudas não financeiras", "está sempre pronto para ajudar e ainda é muito importante no clube".

"Foi dos presidentes que mais anos aqui passaram. Quando aqui cheguei esteve ligeiramente afastado do clube, mas manteve a sua quotização em dia. Mas tem-se aproximado e tido um papel preponderante no crescimento e renascimento do Alverca", acrescentou o atual líder, nascido e criado na cidade e antigo jogador e treinador nas camadas jovens do clube.

Centro de formação de fazer inveja


O que lá vai lá vai. O futebol sénior começou do zero em 2006-07, na terceira divisão distrital da AF Lisboa. Seguiu-se uma ascensão degrau a degrau, que 13 anos depois recolocou a equipa nos campeonatos nacionais. Paralelamente, foi decorrendo "um trabalho enorme para estancar a dívida e reduzir custos", mas sem perder as outras linhas orientadoras: "Colocar todas as equipas nos campeonatos nacionais, virar o clube para a cidade e, essencialmente, terminar um projeto que acabava por estar cruzado com todas as outras linhas orientadoras para a direção: o centro de formação." Entretanto, tal como os seniores, os iniciados também chegaram aos nacionais e os juniores, que interromperam a hegemonia dos três grandes em 2001-02, atingiram a 1.ª divisão da categoria.

Situado nas proximidades do complexo desportivo, que se mantém em muito boas condições, emerge o verde da relva: dois campos de futebol 11, um de futebol 9 e outro de 5, com balneários e iluminação. Uma infraestrutura de fazer inveja a vários clubes da I Liga e com "um custo de cerca de um milhão de euros, em que cerca de 75% são investimento do Alverca", mas que Fernando Orge garante, com "certeza absoluta", de que é "um investimento que vai ser pago dentro de pouco tempo", porque serão formados "melhores jogadores e esses melhores jogadores vão dar retorno financeiro".

O projeto foi idealizado ainda por Luís Filipe Vieira e até estava previsto que as instalações fossem o local de estágio de uma das seleções participantes no Euro 2004. Mas só foi avante no ano passado. "Se Luís Filipe Vieira não se tivesse tornado presidente do Benfica, teria apostado forte no Alverca e levado o clube à Europa. Já havia maquetas e tudo. O centro de formação é muito importante para formar jogadores. E depois é preciso aproveitá-los. É uma mais-valia para o clube", considerou Ramires, 42 anos, antigo extremo e futebolista com mais jogos pelo Alverca na I Liga (130).

Artur Moraes será o rosto da nova SAD

Para dar continuidade a este crescimento sustentado e fazer face aos custos "astronómicos" do Campeonato de Portugal, em que o profissionalismo se faz sentir em grande parte dos 72 participantes, foi necessário procurar um parceiro. "Sabíamos que tínhamos de tomar um rumo, que era criarmos uma parceria com alguém exterior que nos ajudasse a suportar a equipa sénior nos campeonatos nacionais. No final de 2018, princípio de 2019, conseguimos esta parceria com Ricardo Vicintin como representantes máximos e com Artur Moraes como vice-presidente ou administrador da SAD para nos ajudar a manter nos campeonatos nacionais e pensar nas ligas profissionais", contou o presidente. Sim, leu bem, Artur Moraes, antigo guarda-redes de Sp. Braga e Benfica, que já se encontra a trabalhar mas ainda aguarda pela constituição da SAD para exercer funções oficialmente.

A sociedade ainda não está criada, mas a parceria já se faz sentir. Depois de ter passado a primeira volta no fundo da tabela, o plantel dos ribatejanos sofreu uma remodelação no último mês e os resultados estão à vista: três vitórias nas últimas três jornadas, frente a Mação, Alcains e Fátima. O conjunto orientado por Tó-Pê, obreiro da subida no ano passado, ainda ocupa a zona de despromoção, mas já vê a luz ao fundo do túnel.

O objetivo para esta época é a promoção, mas, a partir daí, o céu é o limite. "O povo de Alverca, não sendo muito aguerrido com o futebol, mexe-se com a emoção. Em tempos de ascensão, o Alverca faz-se notar em número de sócios e de público a apoiar. Caminhando juntamente com a SAD, com os pés bem assentes no chão, podemos fazer coisas bonitas daqui para a frente", afirmou Fernando Orge, presidente de um clube com "cerca de dois mil sócios" e "uma assiduidade na bancada à volta de 400 ou 500 pessoas."

Um projeto e uma ambição que merecem a aprovação de Ramires, que tem acompanhado o renascimento do clube pela comunicação social. "Sei que estão em zona de despromoção mas que estão a recuperar e que entraram novos investidores. Fico muito feliz pelo regresso aos campeonatos nacionais e pela construção do centro de formação. Ainda há um longo percurso a percorrer, mas veria com muitos bons olhos o regresso do Alverca à I Liga", disse ao DN.

Depois de ter "passado um pouco pelo caminho das trevas durante estes 15 anos", o sonho passa pelo regresso "aos grandes palcos e quem sabe concretizar o sonho que não se concretizou na altura: disputar as competições europeias". "Seria uma coisa gira e nova", vaticinou Fernando Orge. E para ajudar a voltar ao topo, seriam bem-vindas novas receitas extraordinárias: se eu mandasse, o André Almeida e o Rafa [jogadores formados no clube] seriam vendidos de seis em seis meses."

O Robin dos Bosques da I Liga

Robin dos Bosques é um herói mítico inglês que roubava aos ricos para dar aos pobres, um papel futebolisticamente desempenhado entre 1998 e 2004 pelo Alverca, que apesar de nunca ter ido além do 11.º lugar na I Liga insistia em bater o pé aos principais clubes Em dez jogos com cada um dos grandes, alcançou três empates (dois nas Antas) com o FC Porto, três vitórias (uma na Luz) e um empate fora com o Benfica e quatro triunfos (um em Alvalade) e dois empates (ambos fora) com o Sporting.

"Lembro-me bem desse empate em casa com o FC Porto [30 de janeiro de 2000]. Estivemos a ganhar 1-0, com um golo meu, e o FC Porto acabou por empatar num lance esquisito, com ressalto, com golo do Jorge Costa. Esse jogo marcou-me. Estava num grande momento emprestado pelo Benfica, pelo que alimentei sempre o sonho de regressar. Fiz um jogo que me saiu muito bem", recordou Ramires, que vestia a camisola 7.

Para esses encontros, garante o extremo internacional pelas camadas jovens e pela seleção B, não era preciso grande esforço por parte de treinadores como Mário Wilson, José Romão, Jesualdo Ferreira ou Vítor Manuel para motivar os jogadores. "Éramos todos jovens e queríamos mostrar o nosso valor e atingir um futuro melhor. A nossa média de idades era muito baixa. Tínhamos muita qualidade, com nomes como Ricardo Carvalho, Maniche, Mantorras ou Deco, dos melhores do mundo nas suas posições. Também tínhamos Bruno Aguiar, Hugo Leal, José Soares, Veríssimo, Rui Borges, Hugo Costa, Caju, Anderson, tantos... Uns chegaram ao topo do futebol mundial, outros podiam ter chegado mais longe, como eu. Ganhámos a todas as equipas menos ao FC Porto e a uma ou outra", rematou Ramires, nostálgico, esperançado no sucesso do clube.

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