Alphonso Davies. Do campo de refugiados até ao golo histórico pelo Bayern

Filho de refugiados liberianos, nasceu no Gana e é internacional pelo Canadá. Aos 18 anos, é o mais novo a marcar pelo Bayern de Munique neste século

Com 18 anos, quatro meses e 15 dias de idade, o avançado canadiano Alphonso Davies tornou-se no domingo o futebolista mais jovem a marcar pelo Bayern de Munique na Bundesliga, no século XXI, ao fechar a goleada com que os bávaros venceram o Mainz, por 6-0.

Um golo histórico que é mais um passo na afirmação de um jovem talento que finta nos relvados de futebol o destino que lhe parecia imposto à nascença, no campo de refugiados de Buduburam, no Gana. Filho de liberianos fugidos da guerra civil naquele país africano, Alphonso nasceu em novembro de 2000 no campo criado pela ONU nos arredores da capital ganesa (Accra).

O campo de Buduburam foi fundado em 1990, para receber refugiados da Primeira Guerra Civil da Libéria. O conflito teve uma pausa entre 1996 e 1999, mas foi reaberto nesse final do século passado, levando então os pais de Alphonso a fugir de Monróvia e procurarem abrigo no acampamento ganês, à semelhança do que aconteceu com outros 400 mil liberianos ao longo dessa década.

"Era difícil viver na Libéria, era perigoso. Porque a única maneira de sobreviver, às vezes, era através das armas também. Nós não tínhamos nenhum interesse em matar, então decidimos fugir de lá. No campo de refugiados estávamos a salvo, mas era bastante duro. Tínhamos de gastar dinheiro em tudo o que precisávamos: água, comida, o que fosse. E nós não tínhamos dinheiro. A preocupação era enorme, porque a fome também mata pessoas no campo de refugiados, não apenas nas zonas de guerra. Pensávamos como poderíamos arranjar comida para os nossos filhos não terem fome", relembrou o pai de Alphonso, Debeah Davies, em declarações ao site oficial da Bundesliga [liga alemã].

Alphonso Davies nasceu e cresceu aí, entre as difíceis condições de sobrevivência em Buduburam, até aos cinco anos, altura em que a família foi admitida num programa de realojamento que os levou até ao Canadá.

"Por um lado, estava triste, porque a nossa família estava em África e não tínhamos ninguém no Canadá. Por outro lado, estava feliz, porque estava com o meu marido e as minhas crianças, para nos tornarmos pessoas melhores. O Alphonso não tinha escola no campo de refugiados, mas começou a estudar no Canadá", recordou a mãe, Victoria Davies. Alphonso e a família começaram por morar em Ontario e depois mudaram-se para Edmonton, onde o atual jogador do Bayern começou a destacar-se no futebol, ainda antes dos dez anos, numa fase em que também assumia já responsabilidades em casa, a tomar conta dos irmãos mais novos enquanto os pais trabalhavam.

Uma das suas professoras de Educação Física na escola, Melissa Guzzo, levou Davies a inscrever-se num programa para crianças carenciadas, Free Footie, e bastaram poucos treinos para que o mentor desse programa, Tim Adams, se desse conta do talento especial que lhe tinha ido parar às mãos. Tim convenceu a escola de futebol de St. Nicholas a acolher o jovem Alphonso e a partir daí o trajeto do pequeno craque foi vertiginoso.

"Não pensava que era tão bom assim. Só jogava porque gostava de estar com os meus amigos. Os outros pais, treinadores e companheiros é que começaram a dizer-me que eu podia chegar longe e a partir daí comecei a levar o futebol mais a sério", recordou Alphonso Davies, antes da mudança para o Bayern.

Desde cedo a bater recordes

Mas o percurso evidencia o talento bem acima da média e desde cedo o nome de Alphonso Davies começou a ecoar como a grande promessa de futuro para um futebol canadiano que tenta ganhar alguma expressão a nível internacional. Aos 14 anos, o talentoso avançado assinou pelos Vancouver Whitecaps e começou a bater recordes de precocidade.

Em julho de 2016, com 15 anos, tornou-se o primeiro jogador nascido nos anos 2000 a estrear-se na MLS, a liga que acolhe as melhores equipas da América do Norte (EUA e Canadá). O sucesso nos relvados desbloqueou o processo de naturalização e em junho de 2017, com apenas 16 anos, estreou-se mesmo pela seleção principal canadiana, uma semana depois de ter recebido a cidadania. O primeiro golo veio ainda antes dos 17, contra a Guiana Francesa.

Alphonso tornou-se até o rosto canadiano na candidatura conjunta com os EUA e o México ao Mundial de 2026. "Foi uma vida difícil, mas quando eu tinha cinco anos de idade, um país chamado Canadá acolheu-me. Sou um cidadão canadiano com orgulho e o meu sonho é competir um dia no Campeonato do Mundo, talvez até na minha cidade, Edmonton" disse Alphonso, numa intervenção em Moscovo, durante um congresso da FIFA, contando a sua história para ajudar a ganhar a organização do Mundial 2026 para aqueles três países, com veio a acontecer.

Jogador rápido, de drible fácil, Alphonso Davies captou as atenções de várias grandes equipas europeias, entre elas o Real Madrid, e acabou por ser o Bayern de Munique a levar a melhor na corrida pela joia do futebol canadiano.

O clube alemão pagou 11,4 milhões de euros pelo extremo esquerdo, que bateu o recorde da transferência mais cara de um jogador da MLS [o total pode subir até aos 19 milhões, mediante objetivos] e se mudou para Munique em novembro passado, depois de cumpridos os 18 anos. Ao quinto jogo, o menino nascido no campo de refugiados de Buduburam já fez história pelo Bayern.

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