A história de Cristiane, a brasileira que bateu um recorde de Cristiano Ronaldo

Em menina, arrancava a cabeça das bonecas para jogar. Agora, com um hat trick à Jamaica, tornou-se a mais velha de sempre, entre homens e mulheres, a marcar três golos num jogo de uma fase final de um Mundial

Cristiane Rozeira de Souza Silva, ou simplesmente Cristiane, entrou na história do futebol no domingo ao marcar os três golos no jogo de estreia da seleção brasileira no Mundial feminino que decorre em França. A vítima foi a Jamaica, cujas jogadoras assistiram bem de perto ao recorde estabelecido pela avançada do São Paulo.

Aos 34 anos, Cristiane tornou-se a mais velha de sempre (entre homens e mulheres) a marcar três golos numa fase final de um Campeonato do Mundo de futebol. E o recorde era de... Cristiano Ronaldo, que no jogo com a Espanha no Mundial da Rússia, no ano passado, tinha feito um hat trick no empate 3-3. CR7 tinha então 33 anos e quatro meses.

A jogadora natural de São Paulo está a disputar o seu quinto Mundial e tem uma carreira cheia de grandes marcas. A começar pelo torneio Olímpico de futebol, do qual é a melhor marcadora de sempre com 14 golos, algo que nenhum homem ou mulher conseguiu alcançar.

Além disso, no domingo, no jogo realizado em Grenoble, chegou aos 86 golos ao serviço da seleção canarinha, pelo que há muito superou o mítico Pelé que fez 77 golos pelo Brasil. Contudo, Marta, considerada a melhor futebolista brasileira de todos os tempos, leva 110 remates certeiros, pelo que Cristiane ainda está no segundo lugar do ranking da seleção.

Cristiane, a número 11 da canarinha, esteve para não participar neste Campeonato do Mundo, pois em setembro de 2017 anunciou a retirada da seleção por não concordar com o despedimento de Emily Lima, a primeira mulher a treinar a equipa nacional brasileira, menos de um ano depois de ter assumido o cargo. Nessa altura, a avançada já andava muito descontente com a diferença de tratamento que era dado à seleção feminina em comparação com a masculina. E essas diferenças iam desde as condições de trabalho, ao valor das diárias e dos prémios.

Em abril de 2018, o selecionador Vadão acabou por convencê-la a reconsiderar e acabou por ajudar o Brasil a conquistar o sétimo título da Copa América. Depois disso, uma série de lesões também ameaçou a sua presença no Mundial de França, mas acabou por reaparecer em grande estilo, com três golos que lhe valeram um recorde mundial.

Após a vitória com a Jamaica, Cristiane disse tratar-se de uma "vitória pessoal muito grande", algo que também se explica com o facto de ter sofrido uma depressão há cerca de três anos por causa de uma lesão, conjugada com a morte da avó que a criou, o fim de um relacionamento e a profunda desilusão nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, onde a seleção não foi além do quarto lugar, ficando assim fora das medalhas.

Ao longo da carreira Cristiane representou vários clubes brasileiros, mas conta também com passagens pelos campeonatos da Alemanha, Estados Unidos, Suécia, Rússia, Coreia do Sul, França e China. Um percurso que, por certo, nunca imaginou poder alcançar, sobretudo quando na infância, passada na cidade paulista de Osasco, arrancava as cabeças das bonecas que lhe serviam de bola.

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