A comunidade de venezuelanos que ajudou a revitalizar o voleibol em Guimarães

Os sonhos e angústias de sete voleibolistas venezuelanos que vivem em Guimarães "uma experiência rara", entre as preocupações pelas notícias que chegam de Caracas e a vontade de "dar uma imagem positiva da Venezuela"

Com a descida de divisão como cenário iminente, devido ao último lugar no campeonato nacional da época passada, o voleibol do Vitória de Guimarães precisava de uma solução urgente que garantisse a sobrevivência entre os melhores. A luz acendeu-se e apontou para a Venezuela, de onde chegaram José Verdi, Alonzo Parra, Ivan Fernandez, Pedro Siso, Alberto Briceño, Jesus Gomez e, mais recentemente, Edson Valência. Num país que tem visto aumentar, nos últimos anos, o número de venezuelanos em fuga às agruras do regime de Nicolas Maduro, Guimarães abriu as portas a uma pequena comunidade de voleibolistas de elite vindos de Caracas.

E numa altura em que, na Venezuela, as ruas se voltam a agitar em busca de solução para um país que se arrasta numa profunda crise, os jogadores do Vitória vivem de coração mais apertado pelas notícias que chegam desde o outro lado do Atlântico, enquanto procuram dar seguimento à missão que os trouxe para o voleibol europeu.

"Desde há muito tempo que a situação está muito difícil, a crise vai-se aprofundando, as pessoas estão cada vez mais pobres... A preocupação já vem de longe. Mas tenho uma grande esperança em que as coisas que se vivem agora no meu país possam servir para construir um futuro melhor", refere José Verdi, aquele que há mais tempo está em Portugal, que antes de representar o V. Guimarães já tinha jogado no Sp. Espinho na época passada.

São todos de fora de Caracas, a capital, onde mais se têm feito sentir os confrontos de rua, mas vão procurando manter-se ligados aos familiares e amigos para ir acompanhando diariamente o evoluir da situação de tensão desde que Juan Gaidó se autoproclamou presidente interino da república venezuelana, assumindo-se o rosto da oposição ao regime de Maduro.

"Tem havido muitas manifestações, muita gente nas ruas, há notícias de vários mortos. Na verdade, ficamos preocupados e vamos tentando manter contacto com os familiares, embora às vezes as comunicações não sejam fáceis, mais de metade da população está sem internet", explica Verdi.

"Têm saído muitas más notícias e a verdade é que a vida não está fácil na Venezuela", resume Iván Fernández, um dos jogadores venezuelanos do Vitória que tem estado em maior destaque na liga portuguesa, ocupando o pódio do ranking dos melhores pontuadores.

Os cuidados na abordagem à realidade venezuelana são comuns aos jogadores. Internacionais pelo seu país, a luta deles é outra. Desportiva. Faz-se jogo a jogo, para validar a qualidade do seu voleibol numa liga dominada nos últimos tempos pela titânica luta entre Benfica e Sporting, mas na qual o Vitória tem responsabilidades históricas conferidas por um título de campeão conquistado há pouco mais de dez anos (2008).

Por um lado, querem servir de bandeira positiva de um país associado sobretudo à imagem negativa que exporta por estes tempos. Por outro, tentam enviar uma mensagem de motivação aos que ficaram.

"Temos a sorte de estar a viver uma experiência assim"

Na época passada, a equipa vimaranense teve um ano para esquecer. Dificuldades várias levaram-na mesmo a acabar o campeonato no último lugar, com a descida de divisão no horizonte. Os regulamentos da federação abriam, no entanto, uma janela de esperança. E o V. Guimarães encontrou uma tábua de salvação garantida por estes internacionais venezuelanos. "Para ficarmos na primeira divisão, tínhamos de inscrever jogadores que cumprissem uma série de requisitos, como serem internacionais, campeões nacionais, pertencerem a seleções com presença em competições internacionais importantes, etc. E a Venezuela oferecia essas condições", descreve Francisco Carvalho, diretor do voleibol vimaranense.

Um intermediário madeirense com ligações à Venezuela fez a ponte. Um dos jogadores, José Verdi, já era conhecido do voleibol português - jogara no Sp. Espinho. E ajudou também a convencer os outros, que viram no Vitória uma preciosa oportunidade. "Vêm de um país em dificuldades, claro, as pessoas têm vontade de sair para procurar melhores condições e reconheceram no Vitória um clube estável, sério, com uma massa associativa apaixonada e boas condições para eles demonstrarem o bom nível do voleibol venezuelano. Isso também os convenceu a dar esse passo. E depois uns acabaram por ajudar a convencer os outros e sugeriram ainda mais um ou outro que sabiam ter qualidade", explica o dirigente vimaranense.

"É uma responsabilidade muito grande para nós, temos uma boa imagem da Venezuela para dar e tentar abrir portas para outros jogadores venezuelanos"

Verdi, um central de 28 anos oriundo de Aragua de Barcelona, no estado nortenho de Anzoategui, fala da "sorte de estar a viver uma experiência assim". "Sete venezuelanos numa mesma equipa é um feito muito raro e difícil de repetir", refere, ele que já teve uma amostra parecida, mas mais pequena, no Sp. Espinho, onde eram quatro os venezuelanos do plantel.

"Estamos a trabalhar para mostrar bons resultados. É uma responsabilidade muito grande para nós, temos uma boa imagem da Venezuela para dar e tentar abrir portas para outros jogadores venezuelanos poderem ter a oportunidade de vir para Portugal e para a Europa também", acrescenta.

Em relação aos problemas que deixaram para trás na Venezuela, sobram tristes constatações de dificuldades, mas também uma esperança que recusam deixar cair. "Nós estamos aqui para ajudar as nossas famílias que ficaram lá. Há muitos problemas, às vezes não há o que comer, há muita insegurança, coisas que nos escapam das mãos. Esperamos que se consiga solucionar e melhorar as condições de vida, para que possamos voltar um dia à Venezuela tranquilos", diz Iván Fernández.

Em Guimarães, têm vivido "uma experiência muito acolhedora", diz Verdi, que entretanto se lesionou com gravidade no tendão de aquiles e viu terminada a temporada. "Fomos muito bem recebidos, o Vitória é um clube muito organizado. E tem uma massa associativa muito apaixonada. Nesse aspeto é parecido com o que tínhamos na Venezuela, onde ambiente é muito intenso nos jogos", nota Alberto Briceño, um líbero de 29 anos que vive a primeira experiência europeia: "Era um sonho que eu tinha, o de jogar na Europa, e está a ser fantástico. Somos como uma família aqui."

A comunidade portuguesa e... Cristiano Ronaldo

Na Venezuela, alguns destes jogadores já vestiram as cores de uma equipa chamada Portugueseños, do estado de Portuguesa - que a lenda diz dever o nome a uma portuguesa afogada num rio desta região, o Temeri.

Alonzo Parra acha que isso não passa de "um mito". "A verdade é que não tínhamos muito contacto com a comunidade portuguesa na Venezuela. Somos todos de fora da capital e a maioria da comunidade portuguesa está em Caracas. O meu conhecimento de Portugal tinha mais a ver com a ligação ao Brasil. E conhecia o Cristiano Ronaldo, claro", diz, com a aprovação de todos os outros quando solta o nome do capitão da seleção portuguesa de futebol.

Na cidade-berço, além deles, também não têm registo de outros elementos da comunidade venezuelana que nos últimos anos reforçou a sua presença em Portugal. Mas o clube notou o maior envolvimento. "Há muitos venezuelanos a entrar em contacto connosco, a apoiar-nos nas redes sociais e a seguir o voleibol do Vitória", aponta Francisco Carvalho.

No voleibol português, encontraram "um campeonato equilibrado, com um nível muito competitivo". "Todos os jogos são muito disputados", diz Alberto Briceño. "É mais equilibrado do que o espanhol", compara Iván Fernández, que jogou no país vizinho antes de o colega Verdi lhe recomendar o V. Guimarães. "Para lá de Benfica e Sporting, que são os mais fortes, as outras equipas são muito niveladas. E há muitos estrangeiros bons, em Espanha não tantos", sublinha. Quanto à Liga venezuelana, "também tem equipas de bom nível, mas não são tantas", acrescenta Briceño.

"Quem fica lá, não consegue viver só do voleibol"

"Há uma qualidade grande no voleibol venezuelano. Temos jogadores com experiência internacional, mas infelizmente as coisas são muito instáveis e nem sempre se consegue manter o grupo. Na seleção, por exemplo, conseguimos ser sub-campeões do Sul-Americano, em 2017, mas depois o grupo desfez-se", constata Edson Valência, capitão da seleção e o último venezuelano a chegar a Guimarães, já neste mês de janeiro, para colmatar a lesão do compatriota Verdi.

"As condições de vida refletem-se no desporto. Noutros países os jogadores conseguem pensar só no voleibol, mas na Venezuela não é possível. Há uma carga social e pessoal muito grande, as dificuldades obrigam a pensar como vais sustentar a família e muitos jogadores têm de procurar outros empregos. Alguns, como nós, têm a sorte de vir para o estrangeiro, mas quem fica não consegue viver só do voleibol.", refere o experiente internacional, de 31 anos.

Atualmente no 5.º lugar da Liga, o V. Guimarães luta pelo acesso ao top 4 que dá direito a jogar o play-off do título. Os internacionais venezuelanos acreditam que é uma missão possível e ambicionam mesmo deixar uma marca maior no clube. "Benfica e Sporting para já estão noutro patamar, mas acredito que podemos chegar lá e lutar pelo título. Falta um pouco mais de adaptação, estamos a crescer juntos. Mas já fizemos bons jogos contra os clubes de topo, como frente ao Benfica", diz Jesus Gomez, de 23 anos, considerado o melhor blocador e atleta revelação da última liga venezuelana. "Gostaríamos de chegar a uma final e reviver essa emoção de quando o Vitória foi campeão em 2008", junta Iván Fernández.

Esperamos que se consiga solucionar os problemas, para que possamos voltar um dia à Venezuela tranquilos

Manter o foco dentro da quadra de voleibol pode não ser o mais fácil por estes dias. "Há companheiros que são casados, têm filhos lá e a preocupação é sempre grande, naturalmente", refere José Verdi. Mas sabem que esta é a melhor forma que têm de também ajudar o país nesta altura: "Aqui temos o nosso trabalho e temos de o fazer o melhor possível. O país precisa que o representemos bem."

Do tempo que levam em Guimarães, já deu para ficarem rendidos "à cultura da cidade", a sabores típicos como os "da francesinha e da natinha" e também... "à segurança". "Podermos andar tranquilos na rua", frisa Alonso Parra. "Isso é difícil na Venezuela".

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