2010: Espanha, património imaterial

A Espanha sagrou-se campeã do Mundo depois de afastar Portugal nos oitavos de final da prova

Casillas, Arbeloa, Sergio Ramos, Xavi, Xabi Alonso, Iniesta, Cesc Fàbregas, David Silva e Torres. Apenas nove? Não, os nove que entraram na história como vencedores de três torneios continentais seguidos: Euro 2008, Mundial 2010 e Euro 2012. Os únicos a consegui-lo no futebol planetário. Na África do Sul (primeiro torneio no Continente), é obrigatório referir ainda Puyol, Piquet, Busquets e o treinador Vicente Del Bosque (sucedeu a Luis Suárez, campeão europeu dois anos antes), que venceu dois anos mais tarde o Europeu. Ninguém resistiu a tanta Espanha e ao famoso "tiki-taka", ao futebol invisível das sucessivas trocas de posições e remotamente oriundo de Rinus Michels e Johan Cruyff, mas estabelecido por Pep Guardiola no Barcelona dos anos 2000. Foi o cume de um património imaterial influenciado por holandeses, a partir da década de 70.

Na história do futebol, e esticando o critério, podem juntar-se quatro seleções a esta transcendente "Roja" do "triplete". O Uruguai que ganhou a Copa América 1923, os Jogos Olímpicos 1924 e a Copa América 1924; a Itália que ganhou o Mundial 1934, Jogos Olímpicos 1936 e Mundial 1938; a França que ganhou o Mundial 1998, Euro 2000 e a Taça das Confederações 2001; e o Brasil que ganhou o Mundial 2002, a Copa América 2004 e a Taça das Confederações 2005. Como se vê, é preciso ser muito flexível nos critérios.

Esta Espanha, que hoje em dia ainda é semelhante, mas sem títulos desde 2012 (até ver), privilegiava a posse de bola no meio campo contrário, os passes de rutura e um controlo emocional incomparável. Sempre a tocar a bola até ao limite, até acabar com os adversários. Foi simbólico que conseguisse a consagração frente a uma explosiva Holanda (de Robben, Van Persie e Sneijder), o país onde foi buscar os percursores deste modelo de futebol global (Rinus Michels nos anos setenta, com Cruyff como jogador-símbolo; o próprio Cruyff como treinador nos anos 90, e depois como alma mater do Barcelona de Pep Guardiola).

A arbitragem portuguesa regressou aos mundiais, após o interregno em 2006. Olegário Benquerença apitou três partidas: Japão 1-0 Camarões, na primeira jornada do grupo E, e ainda o Nigéria 2-2 Coreia do Sul, da última ronda do grupo B. Finalizou a participação no jogo mais palpitante da prova. Dirigiu, nos quartos-de-final, o Uruguai 1-1 Gana, com uma decisão difícil, mas acertada, ao assinalar penálti para os africanos por mão na bola de Luis Suárez sobre a linha de golo no último minuto do prolongamento. Asamoah Gyan desperdiçou este autêntico "golo de ouro" e os sul-americanos seguiram em frente nos emocionantes penáltis (4-2). José Cardinal e Bertino Miranda foram os assistentes de Benquerença nos três jogos.

Benquerença que chegou mais longe do que a seleção portuguesa, agora orientada por Carlos Queiroz, que substituiu Luiz Felipe Scolari (esteve em três torneios: Euro 2004, Mundial 2006 e Euro 2008). A equipa portuguesa só conseguiu uma vitória (e logo a maior de sempre, 7-0 à Coreia do Norte, com um golo de Ronaldo a mantê-lo sempre a marcar nos campeonatos europeus e mundiais desde o Euro 2004) e dois empates, com Costa do Marfim e Brasil (ambos 0-0), este último decisivo para chegar aos oitavos-de-final. Fase em que sofreu o único golo (David Villa) e foi eliminada pela futura campeã Espanha.

Uma Espanha que começou mal (0-1 com a Suíça), mas que acabou no 1.º lugar do grupo depois de bater Honduras (2-0) e Chile (2-1). Depois, foi 1-0 em todos os jogos a eliminar: a Portugal nos oitavos (Villa, 63"), ao Paraguai nos quartos (Villa, 83"), à Alemanha nas meias-finais (Puyol, 73") e na final com a Holanda (Iniesta, 116" do prolongamento).

Uma campeã que marcou apenas oito golos, mas dominou e controlou os jogos com a posse de bola, passes intermináveis e jogadores sempre em movimento. Um campeão tão pouco finalizador indiciava um torneio com poucos golos. E assim foi: com apenas 145 golos, esta foi a edição com 64 jogos menos produtiva de sempre.

Houve, no entanto, a continuação da escalada de Klose até ao topo dos melhores marcadores de sempre, apontando quatro golos depois de cinco em 2002 e outros tantos em 2006 (em 2014 faria dois para chegar aos inatingíveis, até ao momento, 16). Mas os goleadores deste torneio foram Thomas Muller, David Villa, Wesley Sneijder e Diego Forlán, com cinco golos. O alemão fez mais assistências e ficou com a Bota de Ouro. Já a Bola de Ouro iria para Forlán, coroando uma bela prova do Uruguai, que acabou em 4.º, depois de perder o jogo de atribuição do último lugar do pódio com a Alemanha (repetia o 3.º posto de quatro anos antes, quando bateu Portugal).

A grande desilusão do África do Sul 2010 foi a campeã em título Itália, que caiu na fase de grupos como a França em 2002, o Brasil (1962-1966), repetindo o que tinha feito em 1950 (era a atual campeã, tendo ganho em 1938 antes da interrupção até ao Brasil 1950). A Espanha assumiria este papel no Mundial 2014, no Brasil. Em África, os italianos não venceram qualquer jogo, empatando duas vezes (Paraguai, 1-1; e Nova Zelândia, 1-1) e perdendo outra (Eslováquia, 2-3). A vice-campeã França também se ficou pela fase de grupos, com um empate e duas derrotas.

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