Rei ou deus sueco? Apenas Zlatan a ser Zlatan

Ibrahimovic acabou a MLS com 31 golos em 31 jogos e já se fala num regresso ao futebol europeu. United, Milan, Bolonha e Nápoles interessados. Jogador de muitas polémicas, já desafiou Guardiola, Messi e Cristiano Ronaldo.

"Não consigo fazer outra coisa a não ser rir de como sou tão perfeito." A declaração é de Zlatan Ibrahimovic, jogador sueco de 38 anos que é quase tão conhecido pelos golos que marca como pelas polémicas que protagoniza e pelas declarações inusitadas que faz e que costuma finalizar com um "Zlatan a ser Zlatan". Uma frase que já é marca registada e que significa "deixar marca". E já não dá para ficar indiferente à personalidade forte e irreverente do avançado dos LA Galaxy, que pode estar de regresso à Europa e com ele promete fazer regressar as boas e polémicas frases que gosta de alimentar com alguma dose de loucura.

Quando muitos antecipavam o final da carreira, após a primeira e única lesão grave ao serviço do Manchester United, em abril de 2017, Zlatan Ibrahimovic, "o super-homem", renasceu para o futebol nos EUA, para jogar na MLS com a camisola dos LA Galaxy. Agora, aos 38 anos, fala-se num regresso à Europa. "Sou como o vinho, fico melhor com os anos", atirou, uma das muitas frases icónicas que lhe marcam a carreira à mesma velocidade com que joga e marca golos. De tal forma que, no ano passado, um jornalista americano quis saber porque respondia Zlatan sempre de maneira tão arrogante e narcisista, ao que ele respondeu que era para "estar à altura das perguntas idiotas e provocatórias" que lhe faziam.

Em boa forma e em destaque na MLS (31 golos marcados em 31 jogos!), o Manchester United, o Bolonha, o Nápoles e o Milan, entre outros, já o desafiaram a voltar ao futebol europeu. "Se eu ficar será bom para a MLS, porque todo o mundo vai ver a competição. Mas se me for embora, ninguém vai lembrar-se de que a MLS existe", atirou o sueco, após uma derrota com os Los Angeles FC (5-3) em outubro. Um jogo em que saiu de campo a mostrar o dedo do meio aos adeptos que lhe acenaram com cinco dedos em alusão aos cinco golos sofridos. Confrontado, optou mais uma vez pelo tom desafiante em vez de pedir desculpa ou dar uma justificação: "O estádio é muito pequeno, estou acostumado a jogar para 80 mil pessoas e isso é um passeio pelo parque."

Em julho, uma semana depois de ver Carlos Vela ser eleito o melhor jogador do campeonato e de ele mostrar o seu desagrado por isso, Zlatan respondeu-lhe em campo com um hat trick, que garantiu a vitória do Galaxy sobre o LA FC (3- 2).

Zlatan já é quase tão conhecido pelos golos que faz como pelas polémicas que protagoniza com colegas e adversários. Porquê? "Gosto de me sentir vivo. Gosto de duelos, são eles que me fazem sentir vivo. Têm de me espicaçar, senão é tudo muito fácil. Eu conheço-me. Quando estou zangado sinto-me bem", respondeu, em abril, depois de um jogo com o Real Salt Lake (2-1), em que marcou um golo e foi notícia por gritar com o guarda-redes adversário.

No início da carreira, quando jogava no Malmö, chegou a falar-se no interesse do Arsenal. Algo que não chegou a acontecer. "Arsène Wenger queria que passasse por um período de testes no Arsenal, quando tinha 17 anos. Recusei. Zlatan não faz testes", explicou o jogador, que tem uma carreira recheada de títulos e já tem direito ao seu documentário na Netflix.

O que pensa de Mourinho, Messi, Ronaldo e Guardiola?

Com passagens por Ajax, Juventus, Milan, Inter de Milão, Barcelona, Paris Saint-Germain e LA Galaxy, Ibrahimovic protagonizou várias polémicas ao longo da carreira. Algumas das que deram mais que falar aconteceram na Catalunha. Certo dia, a imprensa espanhola publicou uma fotografia de Ibra e Piqué em clima de cumplicidade no parque de estacionamento de Camp Nou. O momento foi captado e tornou-se viral nas redes sociais, onde muitos lhe chamaram gay. Ele respondeu a um desses comentários assim. "Gay? Venha até à minha casa para ver se sou gay. E traga a sua irmã."

Em outubro, numa entrevista à Gazzetta dello Sport, Zlatan Ibrahimovic recordou José Mourinho, com quem trabalhou no Inter de Milão, com saudade: "Mourinho? Ainda nos relacionamos. Ele teve um impacto incrível na minha carreira. Mourinho ainda é especial, é um vencedor. Espero que volte rapidamente a um banco, porque tenho a certeza de que irá vencer no imediato." E quando lhe perguntaram por Pep Guardiola, que o treinou no Barcelona, Ibra disse que nem um café tomaria com o atual técnico do Manchester City. "Nunca tivemos um encontro e apenas por culpa dele. Quando nos encarávamos, ele escondia-se. Esperava que eu passasse e depois é que saía do balneário. Como treinador é um fenómeno, como homem...", disse.

O sueco não perde uma entrevista sem alfinetar Pep. "Não havia lugar para uma personalidade como a minha no pequeno mundo de Pep Guardiola." E nem as famosas palestras do espanhol do City escaparam: "Guardiola começou a filosofar. Mal estava a ouvir. Por que deveria? Era uma tontice sobre sangue, suor e lágrimas, esse tipo de coisas." Em Barcelona foi colega de muitas estrelas, mas a personalidade delas ficaram muito aquém dos padrões de Zlatan: "A atmosfera no balneário sempre foi quieta de mais para mim. Messi, Iniesta e Xavi obedecem sempre sem protestar. São como meninos de colégio. Não sou assim e não podia-me soltar."

Natural da Suécia, Ibrahimovic não é consensual entre os seus. Ganhou 11 vezes o prémio de Jogador Sueco do Ano, mas ainda há no seu país quem ache o afável Henrik Larsson como o melhor de todos os tempos. "Sou o melhor jogador da história da Suécia. Sou arrogante? Isso não interessa. Sou o melhor!", disse o jogador dos LA Galaxy, que em tempos se meteu com Cristiano Ronaldo: "Não preciso da Bola de Ouro para saber que sou o melhor. Isso importa mais para alguns jogadores." E não foi caso único.

Quando Cristiano Ronaldo marcou um golo de pontapé de bicicleta a Buffon (Juventus) e deliciou o mundo com o gesto técnico, levando muitos a apelidar o golo de melhor da história. Mas não para Zlatan: "Foi um bom golo, devia tentar fazê-lo a 40 metros." Isto porque ele próprio já tinha marcado um golo de pontapé de bicicleta pela seleção sueca num jogo com a Inglaterra em que estava fora da grande área. A bem da verdade, golos espetaculares é com ele. De tal modo que na sua opinião "nem nos videojogos" se marcam golos mais bonitos: "Marco muitos golos difíceis de reproduzir. São os tipos de golos que elevam os espíritos das pessoas."

Em 2014, a Suécia de Zlatan apanhou o Portugal de Ronaldo num play-off de apuramento para o Mundial do Brasil. Depois de perder o jogo em Lisboa (1-0), questionaram o então capitão sueco como seria o segundo jogo. "Só Deus sabe", respondeu, levando o repórter a argumentar que seria difícil perguntar-lhe. Zlatan discordou: "Você está falando com Ele..." Os portugueses venceram também o segundo jogo (3-2) e afastaram a Suécia do Mundial 2014. Quando o questionaram sobre a ausência, numa altura em que estava em grande forma, ele simplesmente desvalorizou a maior prova de seleções do mundo. "O Mundial sem mim não é nada para se ver, então nem vale a pena esperar pelo Mundial", disse.

"É mentira! Se voltas a acusar-me disso, parto-te as duas pernas"

Conhecido pelos dotes físicos - atlético, alta estatura e longas pernas - e pelos golpes acrobáticos, se não fosse jogador teria, decerto, futuro nas artes marciais. "Se me tivesse dedicado ao teakwondo [modalidade na qual é faixa preta], seguramente tinha conquistado diversas medalhas olímpicas", afirmou o jogador, que não gosta da fama de violento. Aliás, poucas coisas arreliam mais Ibrahimovic do que acusarem-no de ser violento. Van der Vaart, colega de equipa no Ajax, ousou acusá-lo de o lesionar de propósito durante um jogo entre a Suécia e a Holanda. "É mentira! Se voltas a acusar-me disso, parto-te as duas pernas", respondeu.

Quando chegou a França para jogar pelo PSG admitiu não conhecer o campeonato: "É verdade que não conheço muito sobre os jogadores na Ligue 1. Mas com certeza eles sabem quem sou." Depois, revelou que estava à procura de um apartamento em Paris: "Se não encontrarmos nada, provavelmente terei de comprar um hotel." Ainda em França, em 2015, foi notícia a nível mundial quando aceitou participar no projeto das Nações Unidas 805 Milhões de Nomes - com o objetivo de sensibilizar o mundo para o problema da fome -, que o levou a tatuar 50 nomes de pessoas.

Em 2016, após o PSG aplicar uma goleada à antiga ao Troyes (9-0, com quatro golos de Ibra) e sagra-se campeão da Ligue 1 de 2016, prometeu ficar no clube se a Torre Eiffel fosse substituída por uma estátua sua. Depois, despediu-se: "Cheguei como rei, saio como lenda."

Assim que assinou pelo Manchester United de Mourinho em 2017, Eric Cantona referiu-se a ele como o "príncipe de Manchester", porque o rei era ele. E o sueco concordou: "Não serei o rei de Manchester. Serei o deus de Manchester." Na cidade inglesa teve a oportunidade de conhecer o rei Juan Carlos de Espanha e não perdeu a oportunidade para documentar o momento nas redes sociais. "Um rei reconhece um rei", postou o sueco, filho de pai bósnio e mãe croata, duas semanas depois de se fazer ao lugar do rei Gustavo XVI, atual rei da Suécia.

Em Nova Iorque têm a Estátua da Liberdade, na Suécia têm a estátua do Zlatan

Reservado na vida familiar, de vez em quando o jogador aceita falar da mulher e dos filhos, mas sem perder o sarcasmo habitual. "O que dei à minha mulher de presente de aniversário? Nada. Ela já tem o Zlatan." Depois confessou: "A minha mulher não me deixa pôr fotos minhas em casa. Só há uma, dos meus pés. Jogo com eles este desporto maravilhoso. E se os dedões são feios não me importa. Tenho na parede como recordação. Comemos graças a eles e deveriam beijá-los todos os dias."

E será que Zlatan tem sonhos por cumprir? "Eu não preciso de sonhar. Eu sou o sonho", respondeu, numa entrevista na ESPN, no ano passado, o fã assumido de Fortnite, jogo que tem conquistado milhões de fãs em todo o mundo. Depois de revelar publicamente o apreço pelo jogo, o sueco foi contactado pela Epic Games para fazer publicidade à versão mobile do jogo. Até aqui tudo bem, não fosse o sueco detestar as inovações da última versão e questionar a marca nas redes sociais a "exigir" que voltasse à versão anterior.

"Normalmente dizemos que não é possível virar lenda antes de morrer. Mas eu sou uma lenda viva." Palavra de Zlatan, que já tem uma estátua. No mês passado, o jogador foi a Malmö (Suécia) inaugurar a obra e não se fez rogado. "Quando vão a Nova Iorque, têm a Estátua da Liberdade, quando vêm à Suécia têm a estátua do Zlatan", disse o sueco, já retirado da seleção. A estátua foi oferecida pela Associação Sueca de Futebol, em homenagem a todas as conquistas futebolísticas do avançado. O monumento mede 2,7 metros de altura e pesa quinhentos quilos.

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