Vervoort ganha a prata no Rio e diz que eutanásia pode esperar

Atleta belga que tinha reiterado a vontade de colocar um ponto final na sua vida após competir no Brasil ainda tem sonhos para cumprir antes de aceitar esse destino

A morte pode esperar. Afinal, Marieke Vervoort ainda tem muitos sonhos para cumprir após colocar um ponto final na sua extremamente bem-sucedida carreira de atleta paralímpica. Ao contrário do que chegou a ser veiculado, a belga não tenciona recorrer à eutanásia logo que termine a sua participação no Rio de Janeiro, onde já conquistou uma medalha de prata. Só quando a doença se tornar insuportável é que não terá outro remédio senão recorrer à morte clinicamente assistida.

Desde os 15 anos que Vervoort é atormentada por uma incurável doença degenerativa na sua coluna vertebral. Um problema que, entre outras consequências, lhe causa muitas dores e a impede de dormir convenientemente. Porém, nem o facto de estar presa a uma cadeira de rodas desde os 20 anos a impediu de se tornar numa desportista de sucesso. As duas medalhas - ouro nos 100m e prata nos 200m - que alcançou nos Jogos de Londres, há quatro anos, são a prova disso mesmo.

Na olímpiada brasileira, a derradeira prova da sua carreira, continua a mostrar credenciais. No sábado, recebeu do Engenhão uma das maiores ovações do dia, levando também a prata na corrida de 400m da categoria T52. "Foi incrível entrar no estádio. Não havia só belgas a gritar o meu nome, mas também adeptos de outros países. A prova correu bem, mas a minha adversária foi mais rápida. Mesmo assim, fiquei emocionada", admitiu Vervoort, após a façanha.

A belga, de 37 anos, já tem o papel que lhe permite avançar para a eutanásia assinado desde 2008. Resta saber quando decidirá utilizá-lo. "Não é certo que recorrerei à autanásia logo após o Rio. Vamos ver. Um jornalista escreveu um grande título sobre isso num jornal, mas eu ainda não decidi", explicou Vervoort. "Assinei os papéis em 2008 porque tenho muita dor e não quero viver com dor. Quero viver, mas bem. Após o Rio não vou pedir a eutanásia. Vivo dia a dia. Quando não aguentar mais, pedirei", contou à Agência EFE.

Enquanto a doença não leva a melhor, a atleta tem muitos items para riscar da sua bucket list. "A lista é bem grande. Quero fazer algumas loucuras e aproveitar o tempo com a família e os amigos, o que não conseguia enquanto treinava", atirou, como que aliviada.

Certo é que, depois de mais de uma década a competir, está na altura de dar descanso ao corpo. Vervoort vai tentar desfrutar da vida quando regressar a casa, que partilha com Zen, o seu insparável cão. Paralisada da cintura para baixo e com 20% da visão afetada, a belga é visitada quatro vezes por dia por uma enfermeira. Em caso de emergência, só tem de apertar um botão para chamar por ajuda.

Familiares e amigos já aceitaram a sua decisão e não tentam convencê-la a reconsiderar. Não fosse a Bélgica o país com a mentalidade (e a lei) mais permissiva em relação à eutanásia. Vervoort já escolheu quem vai querer a seu lado quando lhe for aplicada a injeção letal. Quer que o momento seja alegre, ao som de música. E deseja que as suas cinzas sejam espalhadas junto ao mar Lanzarote, revelou há meses numa entrevista ao El País.

"Vou-me aposentar feliz. Fiz tudo o que podia pela minha saúde. Tomo medicamentos para suportar as dores e tem sido muito difícil", reforçou Vervoort. Mas não sem antes tentar o ouro na última corrida da sua carreira: os 100m T52, marcados para dia 17.

Argélia arrisca exclusão

O misterioso desaparecimento da equipa feminina da Argélia, que faltou aos seus dois primeiros compromissos na competição de goalball, acendeu o rastilho da polémica no Rio de Janeiro. As africanas alegaram problemas na ligação para o Brasil, mas o Comité Paralímpico Internacional (CPI) desconfia que a verdadeira justificação para a falta de comparência esteja relacionada com um boicote à seleção de Israel, país que não é reconhecido pela Argélia.

A equipa argelina acabou por aterrar no Rio durante a madrugada de ontem, mas arrisca a exclusão da competição. "A alegação de que perderam os voos não nos soa muito bem. Esperamos que na terça-feira consigam apanhar o autocarro para defrontar o Brasil", atirou Craig Spencer, diretor de comunicação do CPI. Além do embate com as brasileiras, a seleção africana tem encontro marcado para hoje com o Japão, se entretanto não for desclassificada.

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