Um clube de bairro que anda a formar grandes jogadores

Nesta época o Fofó inscreveu 300 miúdos que perseguem os sonhos de Ricardo, Rúben e Gelson. Leões valeram 66 mil euros

"Não é porque passou pelo Fofó, é porque vai ser o melhor do mundo." A frase do presidente, como é tratado Domingos Estanislau, reflete o orgulho que sente por ver Gelson Martins brilhar no Sporting e na seleção. E por saber que "o menino de ouro" não é caso único. Também Rúben Semedo (Sporting) e Ricardo Pereira (Nice) são exemplos atuais do sucesso da formação do clube do bairro de Benfica,em Lisboa, que no passado lançou Artur Correia e Paulo Bento, entre outros, como mostram as centenas de recortes de jornais e revistas que forram as paredes da sede com história. Nem todos foram tão mediáticos como os referidos Artur Correia e Paulo Bento, internacionais portugueses com passagens pelos dois grandes de Lisboa, mas o Fofó também conseguiu promover futebolistas como o seu atual treinador Dady, um ponta-de-lança que singrou no Belenenses antes de representar o Osasuna, ou Rui Borges, um médio ofensivo de baixa estatura que defendeu clubes do primeiro escalão do nosso futebol como Boavista, Estrela da Amadora ou Belenenses.

O segredo? "Trabalho, disciplina e humildade". Estas são as três palavras mágicas, com que o presidente ainda hoje finaliza a troca de mensagens com os seus "meninos", mesmo que "eles já estejam num patamar superior". Fê-lo ainda há duas semanas na estreia de Gelson pela seleção, mas também quando soube que "o Rúben andava a desviar-se do caminho certo e precisava que o lembrasse como podia voltar". Ou apenas para "felicitar o Ricardo, quando assinou pelo clube do coração (FC Porto)". Porque formar "também é falar, ouvir, aconselhar e dar na cabeça... não é só treinar".

Estanislau soletra as três palavras tantas vezes ao dia quantos novos recrutas lhe apareçam à frente. Só esta época o Fofó, nome pelo qual é tratado o Futebol Benfica, inscreveu 300 miúdos em competição entre todos os escalões de formação. Só em inscrições foram 40 mil euros, quase metade do orçamento. "Mas a formação paga-se a ele própria", atira o presidente lembrando que cada jogador paga 25 euros/mês.

E há regras sagradas. A primeira é que nunca se inscrevem miúdos sem eles fazerem um treino primeiro: "Só depois de treinar e ver se gosta é que se faz a ficha. Não se vai inscrever e pagar e depois não gostar e desistir. Quem joga no Fofó é porque quer jogar no Fofó." E ninguém treina sem equipamento do clube. "Se chega um miúdo para treinar e vem equipado com camisola de outro clube é-lhe dado um colete. É importante perceberem logo a importância do vermelho e preto do Futebol Benfica", explica Estanislau, destacando que a direção conseguiu um "acordo bom", que permite comprar três camisolaspor dez euros. Além disso, se há dois irmãos inscritos só um é que paga...

Sair de casa e entrar no campo...

Localizado em Benfica, em plena capital, é conhecido por ser um clube de bairro. E no caso de Nuno Esteves, o capitão dos juvenis A, só foi mesmo preciso sair a porta de casa, minutos antes de entrar no campo onde treina. "Escolhi o Fofó há três anos. Nunca tinha jogado futebol e sempre foi uma coisa que quis fazer e queria um clube com boas condições e o Fofó fica a metros de casa", conta ao DN,um futuro lateral esquerdo, fã de Jordi Alba do Barcelona.

Como os benjamins de Dady (ver texto secundário) demoraram mais do que o previsto a desocupar a metade do campo onde os juvenis iam treinar...a bola dos juvenis só começou a rolar perto das 20.00 e depois da palestra do mister, por entre a algazarra habitual. As "fintas bué fixes" do Gelson e o golo de Rúben Semedo nos sub-21 dominaram as conversas por minutos.

Quando a ordem para subir ao relvado (artificial) chega, Esteves recorda que, "o principal no Fofó é os jogadores desenvolverem-se enquanto pessoas e jogadores, para quando no futuro tiverem de decidirem se querem o futebol já terem algumas bases ou ficarem pessoas mais preparadas para a vida". Ele próprio ainda não decidiu se quer ser profissional. Para já gosta de jogar: "Sou esquerdino e sempre achei que tinha qualidade a jogar nas linhas e depois de experimentar jogar a lateral adaptei-me bem."

Enquanto isto os juvenis B dividem o outro campo com os seniores. Com dois campos e quase dez equipas, a ginástica é enorme para que todos treinem pelo menos três vezes por semana. Quanto a novos craques a sair do Futebol Benfica, é preciso calma, que os campeonatos só ainda agora começaram, mas, a avaliar pelas "bancadas cheias de olheiros e empresários", que Estanislau conhece "de cor", deve "haver algum diamante em bruto".

O clube goza de acordos e protocolos com a junta de freguesia e câmara municipal e segurança social, para acolher jovens em situação de risco dos bairros sociais nas redondezas. O que ajudou o Futebol Benfica a desenvolver um lado social e solidário. E não foi uma nem duas vezes que o clube perdoou o pagamento de uma ou outra mensalidade e até deu de comer a alguns. O presidente só não gosta de oportunismos: "E felizmente somos procurados tanto pelo filho do médico como pelo filho do pai que só vemos no dia em que assina a ficha para ele jogar e depois desaparece."

A maldita carta de desobrigação

Só na época passada o Fofó perdeu cinco benjamins, três para o Benfica e dois para o Sporting. Saem cada vez mais jovens. Porquê? "Por causa de uma lei que protege os ricos e que diz que os direitos de formação só começam aos 12 anos. Por isso um miúdo que vem para o Fofó aos seis anos e sai até aos 12, não recebemos um tostão. Nem um obrigado. Basta a chamada "carta da desobrigação" a informar: "mostrado o interesse de fulano tal em jogar no clube x, pede-se que o jogador se apresente com chuteiras no dia x. E está feito, perdemos um jogador", lamenta Estanislau.

E foi mais ou menos isso que aconteceu com Ricardo Pereira, que joga no Nice por empréstimo dos dragões. "Quando ele tinha dez anos um olheiro do Sporting falou comigo a dizer para ele ir lá à Academia. Fui falar com a mãe e ela virou-se para mim e disse, "mas ele é do FC Porto! [risos]". Acabou por ir para a Academia. Como tinha 11 anos não recebemos nada", conta.

Serviu de lição. No caso de Rubén Semedo e Gelson Martins a história foi diferente. Ambos chegaram ao clube depois dos 12 e saíram para o Sporting com acordos financeiros, que renderam ao clube 66 mil euros, 33 mil por cada um. "Fomos inteligentes a negociar. Recebemos logo mil euros e garantimos que se eles subissem aos juniores recebíamos mais dois mil e mais 30 mil quando fizessem cinco jogos na equipa principal", relata, revelando que o acordo faz escola e "é o não justo". Sem este acordo o clube receberia sete ou oito mil euros por cada um.

Agora, Estanislau já faz as contas a um possível encaixe quando Gelson Martins der o salto para outro campeonato mais competitivo do Velho Continente: "Temos direito a 1% do mecanismo de solidariedade, por isso se o Sporting o vender pelos 60 milhões de euros da cláusula de rescisão, o Fofó recebe 600 mil euros, que é mais do que o orçamento total de época (400/500 mil euros)."

Quando têm disponibilidade os ex-jogadores visitam o Fofó. E agora Gelson até tem um motivo extra, pois o irmão mais velho treina com os seniores do Futebol Benfica e vai ser inscrito em janeiro. Vitor Martins disse ao DN que o "mano" mais novo ficou muito agradecido por o Fofó "não o ter deixado ir para o futsal". E agora "pode ir até onde os sonhos dele chegarem".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG