Tom Brady volta a fintar o destino numa histórica Super Bowl

Patriots são campeões, após reviravolta inédita. Quarterback e coach Belichick atingem recorde de cinco títulos

De alguém que hesitou na adolescência entre futebol americano e basebol, passou anos como suplente da equipa da universidade, e chegou à NFL como 199.ª escolha do draft, não se esperariam grandes feitos. No entanto, Tom Brady sempre soube fintar o destino: converteu-se na maior estrela da modalidade nas primeiras décadas do século XXI, com o mesmo jeito com que agora continua a contrariar expectativas pessimistas. O último exemplo foi a forma como guiou os New England Patriots, no domingo à noite (já madrugada de ontem em Portugal), à conquista do seu quinto título da Super Bowl, com uma reviravolta lendária diante dos Atlanta Falcons (34-28, após estarem a perder 3-28).

A história de Brady confunde-se com a dos Patriots. A partir de 2000, com o quarterback e com o treinador Bill Belichick, uma equipa de palmarés banal tornou-se um dos colossos da NFL (National Football League, liga de futebol americano dos EUA), vencedora de cinco edições (2002, 2004, 2005, 2015 e 2017) e recordista de presenças na Super Bowl, a final da competição (perdeu em 1986, 1997, 2008 e 2012). Ainda assim, o emblema de Foxborough (Boston, Massachusetts) nunca tivera de sofrer tanto como no domingo. A partida, que também consagrou Tom Brady e Bill Belichick como quarterback e treinador mais bem-sucedidos da história da prova (cinco títulos), é apontada como a melhor Super Bowl de sempre.

Pela primeira vez, a final da liga de futebol americano foi resolvida no prolongamento, após um empate a 28, no fim do tempo regulamentar. Os Falcons, que tinham perdido a única final disputada (1999) não tiveram mãos para segurar o triunfo que parecia certo quando venciam por 21-0 ou 28-3: nunca uma equipa tinha conseguido recuperar de uma desvantagem superior a dez pontos. E essa reviravolta épica foi obra - em parte - de Tom Brady, que aos 39 anos voltou a fazer uma exibição lendária, sendo eleito o MVP do encontro, pela quarta vez (outro recorde, superando oseu ídolo de infância, Joe Montana).

"Todos juntos puxámos uns pelos outros. Nunca nos sentimos fora da discussão [pelo título]. Foi uma dura batalha", disse o quarterback, que iniciara a época a cumprir uma suspensão de quatro jogos, devido ao deflategate (caso de esvaziamento de bolas que marcou a temporada 2014/15). Com duas assistências para touchdown, uma interceção, 43 passes completos (outro máximo histórico), 62 tentados e 466 jardas (mais um recorde), Tom Brady comandou a reação dos Patriots. E, por uma noite, voltou a ser o comeback kid ("rapaz das reviravoltas") dos tempos de universidade, quando saltava do banco dos Michigan Wolverines para conquistar vitórias que pareciam impossíveis.

Talvez tenha sido aí, após anos de hesitação sobre qual modalidade seguir (o basebol era outro paixão) e muita desconfiança sobre a sua real valia, que Brady começou a fintar o destino. Agarrado às palavras do conselheiro e psicólogo da faculdade,Greg Harden - ""se não tivesses de passar por estas situações difíceis, não seria especial", dizia-me ele", contou anos mais tarde - resistiu às dificuldades mesmo quando a chegada aos Patriots, como 199.ª escolha do draft (de jogadores vindos das universidades), lhe augurava uma carreira discreta e fugaz.

O norte-americano, de ascendência irlandesa, defraudou essas expectativas pessimistas da mesma forma que tem redefinido os padrões do que é a carreira (tendencialmente curta) de um quarterback - em regra, a estrela de uma equipa de futebol americano. Segue uma dieta rigorosa, aconselha-se com atletas e treinadores de outros desportos e é inseparável de Alex Guerrero, o seu preparador físico e guru. De caminho, tornou-se uma estrela global, graças ao casamento com a modelo brasileira Gisele Bündchen, de quem tem dois filhos. E já se perspetiva que pode bater um recorde de longevidade na NFL, jogando até aos 44 anos (por agora, tem contrato com os Patriots até 2019).

De resto, esta 51.ª edição da Super Bowl, que decorreu em Houston (Texas), teve outros protagonistas, como novo presidente dos EUA, Donald Trump - foi visado por críticas no halftime show de Lady Gaga e em vários dos anúncios televisivos emitidos ao intervalo e usou o Twitter (como habitual) para felicitar os vencedores: "Que reviravolta incrível dos Patriots. Tom Brady, Bob Kraft [o patrão da equipa] e o coach B são grandes vencedores. Uau!"

Já dentro do campo, quem também se destacou foram o running back James White, que conseguiu igualar o recorde de touchdowns na Super Bowl (três) e o wide receiver Julian Edelman, que fez a receção in extremis, no meio de três adversários, que empurrou os Patriots para a etapa final da recuperação (estava o marcador em 20-28). "Foitudo obras destes jogadores. Temos grandes jogadores, são duros, tiveram de lutar por mais de 60 minutos e nem quando estava 28-3 olharam para trás", resumiu, no final, o treinador Bill Belichick, a outra face da ascensão dos Patriots como a melhor equipa da NFL neste milénio.

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