O karma de Jesus nos últimos minutos

Desde 2009, o treinador perdeu ou empatou 21 jogos no final. Manuel Cajuda dá pistas que ajudam a explicar esta situação

Azar ou coincidência, a verdade é que Jorge Jesus parece ter um karma que se prende com os últimos minutos dos jogos. Se partirmos do momento em que assumiu o comando do Benfica (2009/10), o técnico viu as suas equipas perder ou empatar 21 jogos devido a golos sofridos nos últimos dez minutos. E em 16 dessas partidas consentiu golos nos últimos cinco minutos.

Manuel Cajuda, um dos mais experientes treinadores portugueses, com 506 jogos na I Liga, lembrou ao DN que "Jesus tem feito um trabalho de excelência nos últimos dez anos", mas admitiu que "todos os trabalhos têm os seus problemas". Nesse sentido, diz que "há vários fatores" que podem explicar os golos sofridos no final por parte do Sporting já este ano. Apelando à sua experiência, Cajuda lembra que "às vezes o treinador leva tempo a perceber o que está a acontecer no campo", algo que diz poder ter acontecido aos leões em Guimarães, onde houve um fator que aponta como decisivo para que os leões perdessem a vantagem de 3-0: "Houve um bloqueio coletivo dos jogadores e da equipa técnica. Acontece, são todos humanos."

Olhando para o passado, o karma de Jesus começou na primeira época no Benfica, num jogo da Liga Europa, na Luz, no qual Ben Arfa marcou ao minuto 90 o golo do empate do Marselha, que obrigou os encarnados a esforços redobrados na segunda mão. Em 2010/11, foram cinco jogos para a Liga que se revelaram fatídicos para ficar a 21 pontos do campeão FC Porto.

Na época 2011/12, viu-se irremediavelmente ultrapassado no primeiro lugar no clássico com o FC Porto, na Luz, devido a um golo de Maicon (87"). Dias depois foi Raúl Meireles no tempo extra a confirmar a eliminação do Benfica na Champions, no campo do Chelsea. O pior veio na época seguinte, na qual perdeu três títulos numa semana nos instantes finais. Começou no Dragão com o famoso golo de Kelvin (90"+2) que custou o título, depois na final da Liga Europa foi Ivanovic (90"+3) a permitir ao Chelsea levantar o troféu e, finalmente, Ricardo Pereira prolongou o trauma na final da Taça de Portugal ganha pelo V. Guimarães.

No último ano na Luz os golos sofridos no final de três jogos não foram nefastos, pois coincidiram com escorregadelas do FC Porto.

Com a mudança para o Sporting, Jorge Jesus levou consigo esse karma. Na época passada, viu Musa, do CSKA Moscovo, tirar-lhe a possibilidade de disputar a fase de grupos da Champions. E cedeu dois empates - Paços de Ferreira e Tondela - que foram decisivos na luta pelo título com o Benfica.

Este ano a história mantém-se, com o empate em Guimarães depois de ter estado a vencer 3-0. E quando Cristiano Ronaldo e Morata marcaram dois golos após o minuto 89, que impediram o Sporting de fazer história em Madrid. Cajuda lembra que neste jogo "Jesus não estava no banco" e vai ao baú das memórias para dizer que "muitas vezes dizia aos jogadores que era o momento de atirar a bola para fora e de ver amarelos porque a vitória era importante". "Não sei se Jorge Jesus faria isso em Madrid, pois não estava no banco para decidir."

O que deve fazer um treinador para ultrapassar estas situações? Cajuda volta a usar um exemplo seu: "Em Braga perdi a ida à final da Taça, em casa, perante o Leixões. E na quarta-feira seguinte jogava com o Paços de Ferreira. Estávamos destroçados, sem vontade de jogar, e disse aos jogadores para irem para o campo e que jogassem mal, porque era impossível jogar bem, que eu depois assumiria as responsabilidades. Acabámos por ganhar, mas eu tinha de dar a cara por eles", recordou.

Sabendo que há várias causas para este tipo de situações, Manuel Cajuda assume a responsabilidade dos treinadores: "Nós não expressamos publicamente, e eu falo por mim, mas nós também cometemos erros." E deixou ainda mais uma pista que pode ser importante: "Em Madrid e em Guimarães o Sporting sofreu os golos quando o capitão Adrien Silva não estava em campo."

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