"O drible ou a finta nasce connosco, não se ensina nem se aprende"

Manuel Fernandes e Gelson Martins. Craques de antigamente entrevistam os miúdos da moda

Tal como Ronaldo e Figo, o "Manel" é uma das maiores referências do Sporting. Por isso ninguém melhor do que ele para entrevistar o mais promissor dos leões da atualidade, que já é uma certeza. Desde a época em que fintava vasos e pedras em Cabo Verde até à estreia pelo Sporting, tudo serviu para uma conversa entre leões.

Ainda te recordas de jogar futebol em Cabo Verde, onde nasceste?

Sim, comecei a jogar lá, na rua, mas recordo-me pouco, era muito novo, tinha aí uns 7 anos... ainda não sabia bem o que era o futebol, jogava aquilo por divertimento. Nessa altura era mais jogar à bola com os amigos ou fintar pedras e vasos...

Então nunca jogaste em equipas lá...

Não. Só futebol na rua mesmo e jogos entre bairros na cidade da Praia, com os amigos e o meu irmão mais velho (Vítor Martins, joga no Fofó) . Depois vim para a Amadora e, aos 12 anos, um amigo levou-me aos treinos de captação do Fofó (Clube Futebol Benfica), que foi o meu primeiro clube.

Falando em fintar pedras e vasos. Tens um enorme reportório de fintas e dribles. Isso é treinado, nasceu contigo? Tentas evoluir nos treinos?

Estamos sempre a evoluir nos treinos, mas as fintas é algo que nasce connosco... aprendemos muitas outras coisas com os treinadores, questões táticas e de gestão de esforço, mas o drible ou a finta nasce connosco, não se ensina nem se aprende.

E quando estás em campo e vês um defesa adversário à tua frente, o que pensas? Eu também podia responder a esta...

O meu pensamento é sempre ajudar a equipa. Por vezes penso recorrer um pouco ao individualismo, mas o pensamento é fazer algo que ajude, um drible, um cruzamento ou uma assistência para um golo de um colega. Desde que ajude a equipa está tudo bem porque isso é sempre mais importante. Sozinhos os jogadores nada conseguem.

Como é que foi essa história de terem tentado desviar-te para o futsal?

Não foi bem quererem desviar-me para o futsal, fui mesmo eu que me quis desviar [risos]. Jogava futebol de onze, tinha aquele futebol de rua e achava que o futsal era melhor e mais importante para mim, mas depois quando quis ir eles não me deixaram. Jogava no Fofó e ia para o futsal no Sporting, só que eles não me deram a carta. Só mais tarde é que me transferi para o Sporting, mas para o futebol de onze... tinha de ser o Sporting!

Escolheste o Sporting porquê? Hoje em dia é normal as crianças escolherem o clube conforme os jogos e os jogadores que veem muitas vezes na televisão. Foi assim contigo?

Sim, mas em Cabo Verde não tinha televisão, não via muitos jogos e passavam mais o campeonato brasileiro. Foi mais quando cheguei a Portugal que comecei a inclinar-me para o Sporting. Eu gostei do clube porque na altura adorava o Ricardo Quaresma e como ele era do Sporting simpatizei mais com o Sporting.

Estavas à espera de jogar tanto esta época ? És o único totalista da equipa...

Tenho orgulho em jogar e sentir a confiança do mister. Se ele confia em mim e me coloca a jogar é porque o meu trabalho vale a pena e eu tento sempre dar o máximo pela equipa. Todos queremos treinar bem e dar resposta às decisões do treinador.

Como é trabalhar com Jorge Jesus? É um treinador muito exigente?

Sim, sim, é exigente e penso que a exigência faz parte. Tem de ser, para os jogadores estarem mais concentrados. Ele é muito exigente, mas isso só nos ajuda a evoluir como atletas e como equipa. O mister Jesus aumentou muito o nível do Sporting, como treinador está no top dos melhores do mundo e tem também uma academia das melhores do mundo.

Antes do jogo com o Real Madrid, o Jorge Jesus disse que podias ser tão grande como foi Luís Figo. O que sentes quando ouves isso?

Claro que me sinto orgulhoso, é especial ouvir isso do nosso treinador. Os elogios são bons, vejo isso como uma motivação para contribuir da melhor forma, sei que tenho de continuar a trabalhar para evoluir e merecer os elogios.

Esta época tem sido marcada por grandes exibições da tua parte. Mas há uma que despertou a atenção da Europa, aquele jogo com o Real Madrid no Santiago Bernabéu em que fizeste a vida negra ao Marcelo. Achas que foi a tua melhor exibição?

Acho que foi a melhor exibição da equipa, não foi só minha. Quando a equipa está toda bem é fácil elogiar a exibição dos jogadores e acho que foi isso que aconteceu. Não olho para o jogo com o Real Madrid como o meu melhor, cada um tem a sua história e o do Santiago Bernabéu podia ter tido uma história mais bonita e justa se tivéssemos ganho.

Depois desse jogo falou-se do interesse do Real Madrid, Barcelona, etc. Como é que um jogador jovem como tu lida com as notícias do interesse de grandes clubes?

Lido bem, de forma normal. Não olho muito a isso, mas é sempre um orgulho ver o meu nome associado a grandes clubes e ver o meu trabalho reconhecido. Estou focado no Sporting e é aqui que eu quero continuar. Tenho contrato até 2021. Só penso no Sporting.

Tens algum clube de referência em que sonhes jogar? O Sporting...

Não tenho um em especial...

Tens alguma referência, algum ídolo como jogador? Eu adorava o Johan Cruijff...

O Robinho, já desde miúdo. Quando era jovem via os jogos dele e imitava as fintas.

Era por isso que no Fofó te chamavam o "Robinho da Amadora"?

Sim. Porque eu sempre gostei do Robinho. Via-o na televisão e tentava imitar cada gesto, cada toque. Eu era rápido como ele. Fintava os outros rapazes todos na rua e por isso o desafio era fazer como os que já eram profissionais e o Robinho era um deles.

E como é jogar no Sporting com o teu melhor amigo, o Rúben Semedo...

Já jogávamos juntos no Fofó. Foi aí que nasceu a amizade. É especial para mim porque fizemos o mesmo caminho, ele veio para o Sporting primeiro, depois cheguei eu para a formação, depois ele subiu à equipa principal e eu logo a seguir. Identifico-me com o Rúben, é das melhores pessoas que conheço e com quem me dou no futebol e fora dos relvados.

Qual foi o treinador que mais te marcou e porquê?

O Jorge Jesus, porque me fez um jogador. Num curto espaço de tempo evoluí imenso, e com muito mérito dele também, foi sem dúvida o treinador que mais me marcou.

Já alguma vez sonhaste estar entre os nomeados para melhor jogador do mundo? Ou até vencer o troféu?

Ainda não penso nisso. Trabalho para conquistar objetivos. E pouco a pouco, o que vier... estou preparado. A minha ambição é chegar ao mais alto nível do futebol, chegar ao topo dos topos.

Falando nisso... Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo, quem preferes?

O Ronaldo, porque é o melhor do mundo e é português.

Qual foi a maior alegria e a maior deceção que o futebol te deu?

A maior alegria foi o meu primeiro jogo pela equipa principal do Sporting. Foi com o Tondela, a 14 de agosto de 2015, e vencemos por 2-1. Mas o momento mais marcante foi o golo ao FC Porto, que nos ajudou a vencer (2-1) este ano. Eu não costumo festejar e até tirei a camisola. A maior tristeza foi vivida o ano passado, por não conquistarmos aquele campeonato que tanto merecíamos.

É difícil para um jovem da tua idade ver-se privado de algumas coisas devido ao facto de seres profissional de futebol?

É a profissão que eu escolhi, por isso é maravilhoso, é a melhor profissão do mundo, o resto faz parte...Tenho 21 anos e quero continuar a trabalhar e a crescer, por isso tenho de continuar a trabalhar com humildade. É muito motivador saber que posso fazer carreira no futebol, tenho de aproveitar da melhor forma e trabalhar para isso.

Tens 21 anos e já és internacional A. Como foi ser chamado por Fernando Santos logo após Portugal ter sido campeão europeu?

Foi muito especial. A minha família também ficou muito contente. Só tenho de agradecer a quem depositou confiança em mim...Fiquei muito orgulhoso de representar a seleção, ainda mais a equipa campeã da Europa. Chegar lá era um objetivo, mas sabia que, primeiro, tinha de jogar a um grande nível no Sporting, para depois poder representar o meu país. Era um sonho desde miúdo e já estava na seleção desde os sub-18 , por isso era um objetivo ser chamado.

Foste praxado?

Não, não, fui muito bem recebido pelos meus colegas de seleção. O Ronaldo, como toda a equipa, deu-me os parabéns pela estreia.

E se tivesses sido chamado por Cabo Verde?

Eu representei a seleção de Portugal desde pequeno, por isso seria mais lógico optar pela seleção nacional portuguesa.

Quais são os teus maiores desejos para 2017?

Ser campeão pelo Sporting, obviamente.

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