"Nunca projetei o meu futuro. Agora é a seleção, é tudo pela seleção"

Terceira e última parte da versão completa da entrevista com o selecionador de futsal, publicada este domingo em versão mais reduzida no edição em papel do Diário de Notícias

Está no topo, é selecionador, campeão europeu... Vai seguir pelo menos até 2020, mas depois disto vê-se a fazer o quê? Já projetou o seu futuro?

Nunca o projetei. Nunca, Sempre vivi o dia-a-dia na procura de alcançar objetivos comuns para as equipas em que trabalhei. Mete-me muita confusão andar sempre a dizer que temos de ter objetivos comuns, que temos de funcionar como equipa e depois dizer 'eu quero chegar ali'. Agora é a seleção, é tudo pela seleção. O futuro? O futuro virá. Foi assim na UTAD, foi assim na Universidade do Minho, foi assim na Fundação, foi assim nas associações em que trabalhei. Vivo por inteiro, totalmente, o cenário em que estou e nunca centro as coisas em mim. Por isso é que fui o último a sair do aeroporto. Não tenho necessidade de sair à frente, com a taça. Promover é durante a semana de fato de treino e sapatilha.

Não ficou nenhum arrependimento de ter deixado uma carreira como guarda-redes do Desp. Chaves no futebol, no início dos anos 90?

Não (risos)... Na altura foi uma decisão muito difícil para um miúdo de 18 anos. Mas estava sempre com aquela preocupação de não largar a faculdade. No segundo ano no plantel senior do Chaves tive a oportunidade de assinar contrato para ficar e abanei, abanei muito. Mas pensei: "não, ainda é cedo, vou jogar para a segunda ou terceira divisão, fazer a faculdade e deixa ver o que isto vai dar depois". Não deu nada, em termos futebolísticos.

Era uma opção inegociável tirar o curso superior?

Não era inegociável, mas era muito importante para mim. Eu já era um apaixonado pelo treino e ir fazer o curso de Educação Física, ir para a Faculdade de Desporto do Porto, era o que eu queria porque tinha grandes referências. No primeiro ano, estar no Chaves e simultaneamente fazer aquele esforço brutal de ir às aulas, foi algo que me motivou imenso. Acabei por optar pelo curso com a ideia de chegar lá acima por outra via, com mais tempo, mas depois meteu-se o futsal pelo meio e nunca mais regressei ao futebol. Fui jogar futsal, fui às seleções universitárias, ser treinado pelo Orlando Duarte.

Mas o que queria fazer com o curso? Que planos tinha na altura?

Eu na altura brincava. Dizia que ia ser treinador e jogador tudo ao mesmo tempo, que ia conhecer os dois lados. Mas queria muito estar no desporto de alto rendimento e perceber. Perceber o que eu fazia, perceber o que eu passei, nunca fui jogador de me satisfazer com "um faz isto e ponto". Tentava sempre perceber porque é que me estão a mandar fazer isto, porque é que estou a fazer desta forma. E essa curiosidade, aqueles anos como jogador do Chaves, a felicidade de estar uma época inteira na primeira divisão, a vivenciar a experiência num plantel fortíssimo como o do Chaves na altura, são coisas que nos ajudam imenso a crescer. E senti que tinha mesmo que ir para o treino, para o alto rendimento, é isto que eu quero, o futebol pode esperar agora um bocadinho. E esperou muito tempo, que nunca mais lá voltei

E o futsal chegou depois por acaso?

Na Faculdade de Desporto joguei algumas competições, fui ao campeonato nacional universitário. Era guarda-redes do Chaves e tinha algum jeito para aquilo... E fui convocado pelo Orlando Duarte para a seleção nacional universitária de futebol de cinco, mesmo jogando no Chaves na altura. Fiz dois mundiais universitários como guarda-redes, ainda fui jogar na Pontalto (Chaves), que foi quando me transferi definitivamente para o futsal e percebi que era isto de que eu gostava e era isto que eu queria. Depois tive uma lesão grave na universidade do Minho e comecei a treinar a equipa feminina da Universidade. E começou por aí...

E portanto agora já não trocava também o futsal pelo futebol...

Não. A determinada altura tive essa possibilidade. Houve um convite para pertencer a uma equipa técnica de futebol. Foi outro momento em que abanei muito... o futebol é uma realidade à parte. Foi antes de um mundial universitário, de um treinador que eu apreciava muito, o Horácio Gonçalves. Na altura foi muito difícil de decidir. Foram os dois momentos da minha vida em que tive de tomar as decisões mais difíceis: o de decidir continuar a jogar ou ir para a faculdade, e este de aceitar ou não o convite do Horácio Gonçalves. Mas mais uma vez tive sempre a sorte de ter pessoas extremamente honestas a ajudar-me nas minhas decisões. Na altura no Chaves foi o mister José Romão, que foi muito claro e muito honesto. E quando o Horácio me convidou foi de uma honestidade, explicou-me muito bem o que era assinar um contrato, ir para uma equipa de futebol, deixar de dar aulas. Acabei por optar por andar aqui sempre só com 5 jogadores de cada lado.

Hoje em dia não abdica de um jogo de infantis de futsal por um clássico entre grandes no futebol?

Não, não troco.

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