"Mais responsabilidade para o Mundial? Assumo-a com todo o gosto"

Primeira parte da versão completa da entrevista com o selecionador de futsal Jorge Braz, publicada este domingo em versão mais reduzida no edição em papel do Diário de Notícias

Desde início que o seu discurso foi muito convicto em relação ao objetivo para o Europeu: uma medalha no mínimo, sabendo bem a cor da medalha que queriam. Essa confiança assentava em quê?
Comecei a sentir isso logo na qualificação. O comportamento que tivemos ali já deu alguns indicadores. E depois foi o início desta época desportiva: o primeiro estágio em setembro, a forma como decorreu, os dois jogos na Rússia, independentemente do segundo jogo não nos ter corrido bem, depois aquele estágio de preparação já na Eslovénia, onde fomos fazer os dois jogos com a Eslovénia, já no pavilhão do Euro, ficámos no hotel do Euro ...
Fomos trabalhando para isso e sabíamos, era o que eu dizia, que mais tarde ou mais cedo íamos ter um resultado de relevância. Felizmente foi agora. Esta era a fase de dizer já chega, já fomos a muitos Europeus e Mundiais, comigo à frente tem que haver um resultado relevante agora. E eu confiava que estaríamos nesse patamar.

Não era mero discurso motivacional portanto?
Percebo que haja sempre essa vontade de descodificar o discurso, como é que se faz, como é que se motiva... O meu discurso é sempre baseado na honestidade. Sou honesto para os jogadores, porque eles são os primeiros a perceber quando não somos honestos, como sou honesto para a comunicação social. Não há nada a esconder. Noutras vezes fui mais cauteloso. Mas desta vez sentia muito que às medalhas íamos. Só punha ali a questão de qual era a cor. Sabíamos qual era a cor que queríamos, mas... às medalhas iríamos. Isso era o mínimo dos mínimos.

Que processo foi esse que deixou a seleção no ponto nesta altura?
Houve alguns momentos... Por exemplo, a seguir ao Europeu da Bélgica (2014) percebemos que precisávamos de ter gente nova, de uma série de jogadores que estavam a aparecer. Era aquele o momento, mas não seria para o resultado imediato. Era a pensar num próximo ciclo a dois/quatro anos, no Europeu seguinte, no Mundial que viria, porque temos de perceber que eles têm passar por várias experiências competitivas. Poderíamos correr riscos no imediato, mas o futuro teria que ser esse. A aposta foi feita e fomos tendo cada vez mais opções. E acima de tudo miúdos que foram tendo oportunidade competitiva internacional e que jogam contra uma Espanha ou uma Rússia sem qualquer peso histórico em cima deles, porque dizem "são mais uns para se jogar e ganhar". E um dos clics esta época, posso confidenciar, foi quando fomos à Rússia. Aí foi: "gente, acabou-se o chavão dos miúdos; aqui não há miúdos, há gente com 40 e 50 internacionalizações".

A aposta declarada da FPF no futsal, com a nomeação de Pedro Dias para vice-presidente, e a implementação do Plano Estratégico para o Desenvolvimento do Futsal, em 2011/12, foi estruturalmente o passo que tornou isto possível?
Eu posso parecer suspeito, mas não há ninguém que consiga ter uma visão de desenvolvimento estratégico como o Pedro Dias, não há. E, depois, com a vontade enorme do presidente de transformar o futsal na modalidade mais praticada de pavilhão e passar a ter enorme relevância social... foi um objetivo muito concreto traçado, uma visão que a Federação teve. Isso levou-nos todos a ir atrás desse trabalho e as seleções beneficiaram disso, dessa visão. Por isso havia a necessidade [de um título] e esse era também muito o meu desejo pessoal. Não por mim, mas tínhamos de alavancar todo este trabalho de qualidade que está a ser feito. Porque o principal fator avaliativo depois, no alto rendimento, é se obtivemos resultado ou não. E felizmente conseguimo-lo. E a maior satisfação é que conseguimo-lo com distinção. Não há ali qualquer coisa a apontar à nossa vitória. Fomos campeões porque estivemos muito bem, porque fomos a melhor equipa do Europeu, porque merecemos totalmente ser campeões.

Ricardinho disse antes do Europeu que sentia mentalidade vencedora de todo o grupo, o que nem sempre teria acontecido em grupos anteriores. Foi uma das diferenças fundamentais?
Sim, percebemos que estávamos num momento em que tínhamos de remar todos para o mesmo lado. O nosso lema todos juntos tinha que ser genuíno. E este grupo foi fantástico. Não somos a seleção mais forte, do ponto de vista individual, sempre o assumi. Mas como equipa fomos claramente, mas a léguas, a equipa mais forte. E percebemos que se funcionássemos dessa forma era difícil perdermos um jogo.

Não sentiu desta vez nenhum bloqueio entre os jogadores em relação a qualquer adversário, fosse Espanha ou Rússia...
Não... Um bocadinho aquela primeira parte com a Rússia, mas acho que percebemos logo: não nos vamos desviar, não vai ser Rússia ou Espanha, não vai ser ninguém que nos vai fazer desfocar de nós e no que temos de fazer como equipa. E isso foi uma grande vantagem.

Já se habituou a este sucesso e novo estatuto de campeão europeu, a ser reconhecido na rua pelos adeptos?
Ainda me estou a habituar... Mas continuo a ser o mesmo Braz de sempre. Vou continuar a estar apaixonado por isto, a ir ver um jogo de infantis se tiver que ir ver, ou um jogo feminino, se der para encaixar três jogos seguidos em pavilhões próximos irei na mesma. E só tenho é que agradecer, e nós agradecemos muito, este apoio, este carinho.

Sente que o país já está definitivamente rendido ao futsal?
Sinto. A receção no aeroporto disse tudo. Mas já anteriormente tivemos aqui eventos exemplificativos disso. Há muito mais ainda a fazer e não é agora porque somos campeões da Europa que vamos pensar que não temos mais trabalho a fazer. Mas essa relevância social que a modalidade está a ter, espero eu que contribua para que possam aparecer ainda mais miúdos a praticar, dirigentes a associarem-se aos clubes, ao movimento associativo, treinadores a investir na formação deles e essencialmente os miúdos perceberem que um dia podem vir a ser eles os campeões europeus. Por isso é que eu digo, esta vitória é de todos, é da família do futsal. É uma vitória para alavancar tudo isto.

No dia seguinte ao título foi anunciada a sua renovação até 2020. Foi o prémio merecido ou já estava combinada anteriormente, independentemente do resultado?
Já estava, sim... O presidente falou comigo antes da final. Mas mesmo aí, é como eu disse. Estava tão focado no Europeu que não era isso que me preocupava. Agora, a FPF conhece o meu perfil de competências, a minha forma de estar, a minha forma de trabalhar, esta paixão exagerada por isto. E as coisas têm sido naturais porque neste momento a paixão pelo trabalho e o nível de exigência naquela casa é enorme. O volume de trabalho, porque eu coordeno todas as seleções, é tão grande, o nível de exigência tão grande que eu sinto-me como o peixe na água. Eu sei que muitas vezes as pessoas associaram a minha função apenas a isso: é o treinador da seleção A e não tem ganho. Mas não tem sido essa apenas a minha função na FPF. E isto tudo tem-me dado um prazer enorme. Por isso é que eu queria muito, porque é importante, ter resultados.

Esta conquista valida, para o exterior, esse trabalho todo?
Dá consistência e permite-nos perceber que o caminho que estamos a seguir se calhar é o correto. Portanto, quando me propuseram, eu disse ao presidente: neste momento o que interessa é ganhar a final. Mas, claro, é fácil para mim continuar por mais dois anos.

Focando nessa final: como foi o seu discurso no balneário antes do jogo do título?
Eu não sou treinador-ator. ' Eu disse isto e foi a varinha mágica'... Isso é uma treta. As coisas vão-se preparando e nós chegámos à final muito bem. Depois mais um click daqui ou um click dali, que é evidente que o damos, mas não foi preciso dizer grande coisa. Posso confidenciar sem problema nenhum. Foi dizer assim: "Vocês vão viver, à noite, aquilo que estão a visualizar neste momento. Porque eu sabia que todos eles estavam a visualizar a vitória. Todos eles estavam convictos e só se falava nisso: isto vai cair para o nosso lado, isto vai cair para o nosso lado.. E eu disse: se é isso que vocês estão a visualizar, então não duvidem, nós à noite vamos viver o que estamos a visualizar todos agora. Agora, é fazer por isso e perceber que se o fizermos isso vai ser possível. Não é nenhum bicho-papão, não é a Espanha por nos ter ganho, nada disso. Nós estamos muito bem, isto vai acontecer. É uma questão de acreditarmos." Foi aquilo que aconteceu. Não sei se foi por isso, ou se não foi, mas aconteceu.

Não é então um treinador de rituais específicos ao longo de um torneio, de músicas-fétiche, vídeos motivacionais, superstições?
Não, sou um treinador de ir preparando os acontecimentos. Planeámos bem as coisas, todo o processo de preparação, algumas coisas com que me preocupei muito (eu e a minha equipa técnica) para que funcionassem muito bem, preparámo-nos para todas as unidades de treino como quem se prepara para um jogo... Fizemos isso porque sabíamos que só assim íamos chegar à competição e a competição ser fácil. Quando começasse o Euro nós tínhamos de ter uma equipa criada, ou, como eu dizia, uma equipa refinada, porque ela já era uma equipa quando nos juntámos para aqueles 14 finais. Para chegar ao Euro e dizer assim: está aqui uma equipa e agora não é preciso fazer quase nada.

Entrou já no Euro com essa sensação?
Entrei. Entrei e aconteceu. Houve vários momentos de eles [jogadores] serem os primeiros a falar e ouvi-los a dizer "é preciso ajustar isto ou fazer aquilo". Estávamos ali todos unidos, equipa técnica, 14 jogadores, o próprio staff... ninguém utilizou uma expressão negativa ao longo do Euro. Ninguém. Estar numa fase final é um privilégio enorme. Lutar por um objetivo é o que tem de nos alimentar e isso aconteceu. Depois o processo em si, chegar ao jogo, nunca me senti tão tranquilo.

E é sempre tranquilo como aparenta?
Não, não é sempre assim. Especialmente na preparação, no treino.. Mas senti que o devia ser. E depois também estava tranquilo por essa convicção que tinha, e por sentir que também eles estavam com essa convicção.

No seu relacionamento com os jogadores é mais do tipo disciplinador, gosta de manter distâncias, ou mais o estilo de treinador que se confunde com um amigo dos jogadores?
Tenho algum espaço, sou algo reservado, mas todos eles sabem que sou o primeiro a estar ao lado deles em todos os momentos. Quando falham, quando acertam, quando precisam de algo do ponto de vista pessoal, cheguei a dizer a jogadores com momento familiar difícil para irem embora de estágios. Isto não é tudo na nossa vida. Perceber que estamos aqui todos uns para os outros. E eles sabem que a equipa técnica está para eles para tudo, para o aspeto pessoal, profissional, competitivo, tático, técnico, físico. No fundo sou o pais que tem que dar uma bofetada de vez em quando - e dar uma bofetada a um filho custa muito mas sabemos que é para o levar ao lugar dele - mas quando é preciso estar ao lado, está-se totalmente.

O título europeu dá responsabilidade acrescida para o Mundial?
Assumo... com todo o gosto. Venha mais responsabilidade daqui a dois anos. Sem problema nenhum. Nós assumimos essa responsabilidade, sem ter ganho nada, para este Europeu. Agora temos o título, é mais responsabilidade? Pois que venha, cá estaremos para a assumir.

Já disse que isto não é para ficar por aqui. É para ser campeão mundial?
Estar no topo, ir outra vez às medalhas, estar nos três primeiros... De certeza que não vamos ter problemas daqui a dois anos em dizer que queremos isso.

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