Jogar com menos um é uma atenuante, mas não explica tudo

Expulsão de Bruno Alves retirou poder ofensivo a Portugal frente a uma equipa vulgar. Fernando Santos sai confuso de Londres

O teste que Fernando Santos tinha em mente para o jogo de ontem em Wembley, diante da Inglaterra, durou 35 minutos - nem mais nem menos. Uma entrada violenta de Bruno Alves sobre Harry Kane deixou Portugal com dez. Uma atitude inexplicável de um jogador experiente mas que com o passar dos anos não conseguiu controlar a "impetuosidade" - uma palavra simpática, até porque o encontro de ontem foi de carácter particular.

Portugal, mesmo jogando 55 minutos com menos um, não perdeu bem e podia perfeitamente, pelo menos, ter empatado. Porque foi uma equipa competente a defender, superiormente comandada pelo veteraníssimo Ricardo Carvalho, mas, sobretudo, porque a Inglaterra tem nomes muito sonantes mas alguns deles totalmente sobrevalorizados pelo facto de disputarem semanalmente o campeonato mais espetacular do mundo.

A Inglaterra, como equipa e pelo que demonstrou ontem, assusta muito pouco. Basta dizer que Portugal, mesmo com dez jogadores, teve duas oportunidades (por André Gomes e Quaresma), ao passo que a Inglaterra só teve uma (a única de que dispôs em todo o encontro) e marcou numa desatenção de Danilo, que não esteve atento a fechar ao meio, permitindo o cabeceamento vitorioso do central Smalling.

Fernando Santos alterou oito jogadores em relação ao jogo com a Noruega, mas manteve a estrutura num 4x1x3x2, desta vez pouco dinâmico e com o duo da frente entregue à sua sorte. Custa entender um bocadinho como Nani e Rafa são avançados na seleção, tendo de jogar de costas para a baliza, quando os seus pontos fortes são precisamente o virtuosismo como transportam a bola vindos de terrenos mais recuados, da ala para o meio. É assim que jogam nos seus clubes e foi por aquilo que fizeram nos seus clubes que foram convocados para o Euro.

Adrien foi outro equívoco. Começou como interior direito, terminou como interior esquerdo mas nunca desempenhou a função que exerce no Sporting - o de médio centro, à frente do trinco.

O que pode deixar Fernando Santos e os adeptos portugueses um pouco mais preocupados prende-se com a posição tomada pela seleção portuguesa depois da expulsão de Bruno Alves. Um abdicar claro do ataque. O que a equipa ganhou em eficácia defensiva perdeu em dinâmica atacante ou atrevimento no meio-campo ofensivo da Inglaterra. E isso dá que pensar. A inferioridade numérica é uma atenuante de peso, mas não explica tudo: Portugal podia e devia pelo menos ter tentado fazer mais. Se foi por incapacidade é preocupante, se se tratou de estratégia... também.

Valentes dores de cabeça
O selecionador deve ter ficado com mais dores de cabeça do que as que tinha antes do encontro. A mais intrigante prende-se com Danilo, que ainda não se libertou do "vírus" de final de época do FC Porto. O médio, que disputa um lugar no onze com William, esteve demasiado complicativo, raramente jogou simples e isso torna-se nefasto para quem se posiciona à frente da defesa.

E, para complicar as coisas, João Moutinho, que repetiu a titularidade, não é, decididamente, o Moutinho que já conhecemos. Muitas dúvidas para Fernando Santos no meio-campo, onde, para já, só João Mário parece ser intocável. E como se este puzzle não estivesse suficientemente baralhado, André Gomes e Renato Sanches mostraram-se em bom plano nos minutos jogados ontem. Quem não se dá por vencido é Quaresma, que ontem ia repetindo o momento de magia do Dragão frente à Noruega, e Vieirinha - prometem despiques acesos, respetivamente, com Nani e Cédric.

Claro está que estas dúvidas nem são más de todo, provam que existe alguma competitividade. O que é preciso é jogar um bocadinho mais e ver mais vezes a baliza adversária.

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