Seleção russa a sonhar com um milagre após estreia prometedora

A vitória (5-0) frente à Arábia fez subir as expectativas da seleção anfitriã, ultrapassando algum pessimismo e conferindo um novo suspense ao jogo desta terça-feira com o Egito

As expectativas da seleção russa eram, à partida para este Mundial 2018, francamente contidas. A equipa russa entrou em campo no jogo de abertura do torneio num modestíssimo 70.º lugar no ranking da FIFA - três pontos atrás do seu adversário - e nenhum comentador arriscaria apontar os anfitriões do torneio ao lote dos candidatos a um lugar cimeiro.

A seleção russa não conta com grandes proezas de monta no seu palmarés. Não conseguiu uma vitória sequer nos últimos sete jogos disputados antes do Mundial, o que valeu à equipa comandada por Stanislav Tchertchesov uma barragem de críticas na imprensa russa.

Os exuberantes 5-0 frente aos sauditas - um recorde em jogos de estreia dos Mundiais de futebol - terão feito sonhar muitos russos e obrigaram os comentadores a um olhar mais atento sobre esta equipa. Para já, os três pontos amealhados frente à Arábia Saudita colocam a Rússia numa posição auspiciosa para garantir no confronto desta terça-feira com o Egito (19.00) e depois com o Uruguai um dos dois primeiros lugares no Grupo C e o apuramento para a fase seguinte da competição.

A euforia russa arrisca-se porém a ser algo prematura. Os cinco golos frente aos sauditas atestam a eficácia de Gazinsky, Cheryshev, Dziuba e Golovin mas denunciam igualmente a permeabilidade da defensiva saudita e não chegam para disfarçar algumas fragilidades da equipa russa, tanto no plano defensivo como em matéria de concretização.

Da URSS à Rússia

Tal como outros setores da sociedade, o futebol russo não se recompôs ainda inteiramente das convulsões vividas pelo país na última década do século ido. O colapso da URSS, no final de 1991, veio alterar substancialmente as condições da prática desportiva no país, com incidências particulares no caso do futebol.

O palmarés da antiga seleção soviética regista apenas um grande êxito internacional - o título europeu, conquistado em 1960, na primeira edição da prova (além de duas medalhes de ouro olímpicas). Mas os soviéticos estiveram regularmente na luta pelos lugares de topo nos campeonatos da Europa (três segundos lugares) e chegaram às meias-finais do Mundial de 1966 (para perder depois face a Portugal na disputa do terceiro lugar).

Assente numa grande disciplina tática, numa grande mecanização de processos e num elevado nível técnico - mas a que faltaria entretanto a criatividade de outras grandes seleções -, o futebol soviético deu ao mundo nomes célebres como Voronin, Netto, Streltsov ou o lendário Lev Yashin. Viveu na década de 1980 uma época de ouro dominada pela escola do Dínamo de Kiev e por nomes como Blokhin, Demianenko, Dasaiev ou Belanov.

Na era soviética, os grandes desportistas estavam ligados a instituições de Estado ou a organizações de massas. O Dínamo representava o Ministério do Interior (era "o clube do KGB"), o CSKA era o clube do Exército, o Spartak estava ligado aos sindicatos, o Torpedo à fábrica de automóveis ZIL.

Com o desmantelamento do sistema soviético passaram a ser patrocinados por grandes empresas de Estado - a Gazprom patrocina o Zenit de São Petersburgo, a Lukoil financia o Spartak de Moscovo, o Lokomotiv é apoiado pelos Caminhos de Ferro - ou tornaram-se empresas privadas.

Ambições frustradas

O influxo financeiro e os grandes patrocínios terão valido outro nível de competitividade ao campeonato russo. As ambições dos magnatas, as lutas de poder, as manobras de corrupção e a afirmação de novos potentados regionais apoderaram-se do mundo do futebol e das rivalidades clubísticas. Os grandes clubes russos encheram-se de jogadores brasileiros e de outras origens pagos a peso de ouro. O Dínamo de Moscovo chegou a ter meio plantel constituído por jogadores recrutados em Portugal. O futebol ganhava entretanto uma nova popularidade na Rússia, suplantando o hóquei no gelo como desporto mais seguido no país.

Fenómenos que marcaram o futebol russo nos últimos anos como o surgimento de claques organizadas e violentas, muitas vezes ligadas a movimentos políticos radicais, e a expressões de racismo e xenofobia, estão em boa medida ligadas a essas mudanças.

Os resultados estiveram longe de corresponder ao investimento. O CSKA conquistou a Taça UEFA em 2005, batendo o Sporting na final em Alvalade, e o Zenit repetiu a proeza, reforçada com a conquista da Supertaça europeia frente ao Manchester United em 2008. Para além desses dois êxitos, os clubes russos nunca foram longe na Liga dos Campeões nem atingiram um plano elevado no ranking europeu.

Depois do brilharete da seleção russa no Euro 2008, jogadores como Andrei Archavin, Iuri Jirkov, Roman Pavlyuchenko e outros assinaram contratos com vários clubes europeus. Raramente se afirmaram, porém, revelando muitas vezes dificuldades de adaptação, problemas de indisciplina e mesmo, em casos mais graves (como o de Iuran e Kulkov, ex-jogadores de Benfica e FC Porto), de alcoolismo.

Desde que começou a atuar como representante da Federação Russa, em 1994, a seleção russa marcou presença em quatro Europeus e três Mundiais mas só por uma vez conseguiu passar a fase de grupos - no Euro de 2008 em que só soçobraria nas meias-finais frente à Espanha.

Para agravar o panorama, a seleção russa tem sido assolada por uma vaga de lesões que afastaram da equipa pedras fundamentais como o avançado Alexander Kokorin e os defesas Georgi Djikia e Viktor Vasin. A situação levou mesmo a imprensa de Moscovo a escrever que só um "milagre" seria capaz de valer à seleção neste Mundial. A lesão de Alan Dzagoiev, peça fundamental no meio-campo, no jogo de estreia, agrava ainda a situação.

Face à contenção das expectativas com que partiu para este Mundial, passar a fase de grupos seria já um feito para a seleção russa. A conseguir ultrapassar esta terça-feira o Egito, esse objetivo ficará muito próximo.

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