São Petersburgo. Tudo é grande, tudo é imponente

Estar na Rússia e perder o jogo de abertura? Se acham que é facil, venham até à Avenida Nevsky, onde mora o primeiro chefe da polícia da cidade: o senhor António Manuel Vieira.

Cinco dias numa capital imperial: tudo é grande, tudo é imponente. Do enviado especial do semanário desportivo Off-Side, um rapaz chamado Rui Tovar, já então (junho 1983) um pai responsável. Diz ele, como que a preparar a visita de Portugal à URSS por ocasião do jogo de apuramento para o Euro 84: "Oito milhões e meio de habitantes é o saldo demográfico de Moscovo no presente momento. Números, portanto, sete vezes superiores aos de Lisboa."

Um quarto de século depois, eis outro Rui Tovar em Moscovo. Este não é pai (ainda), só é responsável (kind of). Moscovo, digo-te, continua grande, imponente. Com 11 milhões e meio de habitantes. E ainda 214 estações de metros espalhadas por 364 quilómetros. Por dia, qualquer coisa como seis milhões andam de um lado para o outro. Esbarramos numas pessoas, driblamos outras e só encontramos paz em São Petersburgo. Então e o Mundial? Calma, tudo a seu tempo. O importante é chegar à cidade do Marrocos - Irão (hoje às 16.00). Entra em ação o primeiro português de todos, Carlos Queiroz. A seu cargo, um duplo desafio: o de somar a segunda vitória pessoal em Mundiais (dos sete jogos, só se salva, por assim dizer, o 7-0 à Coreia do Norte em 2010) e o de garantir a segunda vitória iraniana em Mundiais (dos 12 jogos, só é válido o inesquecível 2-1 aos EUA em 1998).

Antes do Marrocos - Irão, um clássico bem divertido na viagem de avião Moscovo - São Petersburgo, com cruzamento de cânticos impercetíveis entre árabe e persa, impõe-se o visionamento do jogo de abertura. Onde? Ora essa, na Avenida Nevsky, a mais imponente (continuo com a palavra na ponta dos dedos). Aliás, quando me decido por viver em São Petersburgo até ao fim da fase de grupos, é por conversas com dois ilustres russos. Um é Danny, número 10 da seleção portuguesa no Mundial 2010 e atual 10 como pessoa. O outro é José Milhazes, inimitável personagem do nosso jornalismo histórico-político.

Tanto um como outro indicam São Petersburgo como cidade ideal em beleza e comodidade. E se Danny o diz sem rodeios, enquanto ajeita o seu boné de basebol, sentado no jardim de sua casa em Praga, há uns oito meses, já Milhazes fala em dose dupla sobre as variantes socioculturais de São Petersburgo. Em dose dupla, sim. A primeira vez é entre umas valentes garfadas no bife do império, a outra é em Oeiras, vestido com um robe da CCCP na sua casa recém-pintada.

Até agora, tudo fixe numa nice. São Petersburgo, encostada à Finlândia (está mesmo ali à mão de semear, Helsínquia), é b-e-r-u-t-a-l. O ponto alto é, até agora, a tal Avenida Nevsky. É larga até dizer chega. E parece infinita vista de frente, seja de táxi ou a pé. Claro, o largo e o infinito convivem alegremente com o Museu Hermitage. Que bloco central impressionante. À esquerda, um café fofinho alimenta a esperança de sucesso com um bife tártaro. O primeiro de muitos.

Tu queres ver? Tu queres ver que ainda vou ao segundo bife. Calma, só se o pessoal do restaurante mudar de canal para o Rússia-Arábia Saudita. Vai começar o Mundial, a malta anima-se. Veem-se marroquinos, iranianos, mexicanos e brasileiros vestidos a rigor, mais um norte-americano equipado à Real Madrid com o 11 de Ronaldo (o fenómeno). C"um caneco. Ninguém fala russo e todos se entendem na perfeição. Até porque as palavras universais são as mais requisitadas: cappucino, toillet, menu, tartare e por aí fora. Tudo pronto? Bora, já são 17.50 e faltam dez minutos para o jogo. Peço à senhora da entrada para mudar de canal e, ato contínuo, ela desaparece. Cinco minutos depois, peço a um empregado e, it"s a kind of magic, ele desaparece. Dois-zero e nada de jogo na televisão. Às tantas, luz, câmara, ação. Errrr, liga-se a televisão e está a dar um Inter-Atalanta. Depois, o canal muda para ténis feminino. A seguir, Fórmula 1. Finalmente, NBA. De repente, cinco/seis empregados já estão de volta do comando e ninguém se orienta. É o fungagá da bicharada. Ouvem-se festejos lá fora, golo da Rússia. Aqui, 0-0. Mau mau, Maria. Perto do intervalo, mais uma onda ruidosa no exterior, 2-0 em Moscovo, 0-0 em São Petersburgo. Uma pessoa vem à Rússia e não apanha os dois primeiros golos? G'anda barraca.

Como não se aprende nada por aqui, damos de fuga até ao infinito. Isso mesmo, até ao mosteiro Nevsky. Caramba, este Nevsky é importante. Olá se é. Príncipe e tudo. Lá dentro, o túmulo da figura portuguesa António Manuel de Vieira. Como? António Manuel de Vieira, aqui Anton Manuilovitch Devier, é o primeiro chefe da polícia de São Petersburgo, conde e senador, protegido pelo czar Pedro I no século XVIII. Desconhece-se o local de nascimento, talvez Minho. Sabe-se o da morte: São Petersburgo, pois claro. Em 63 anos de vida, o António Manuel, filho de uma família judia, foge da Inquisição em Portugal e instala-se em Amesterdão, onde se inscreve na Armada holandesa. Durante os exercícios navais, Pedro I impressiona-se pela habilidade do jovem marinheiro na arte de desfraldar as velas e requisita-o para o serviço russo.

António nem pensa duas vezes. E embarca para a Rússia, onde se faz ortodoxo e muda de nome. A partir de agora, Devier. E passa de capitão em 1708 a chefe da polícia em 1718. Cabe-lhe limpar as ruas de São Petersburgo da criminalidade, do jogo, dos vestíbulos, além de ter uma palavra a dizer sobre a arquitetura dos prédios, a construção de pontes, o saneamento público e o preço dos produtos nas lojas. Em 1727, o seu parecer é desfavorável a Alexandre Menchikov, irmão da sua mulher. O cunhado faz-lhe a cama e a imperatriz Catarina I, já moribunda e a caminho do sono dos justos, ao lado do seu marido Pedro I, assina a ordem de prisão. Devier passa anos atrás de anos desterrado na Sibéria e só é libertado por um decreto da nova imperatriz Elizaveta Petrovna em 1741. Tarde e a más horas. O isolamento faz-lhe mal e nunca mais é o mesmo. Ainda volta a exercer o cargo de chefe da polícia, já sem forças nem cabeça. Morre em 1745 e é sepultado no mosteiro Nevsky, onde ouço os outros três golos da Rússia. Um país imponente. Como o meu pai.

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