Salgueiros, um sonho com a casa às costas

Depois de uma longa travessia no deserto, o centenário emblema portuense tem uma oportunidade de renascer das cinzas com a subida à II Liga. O plantel é uma mistura de veteranos - caso de Rui Lima, 38 anos - com jovens como o sobrinho de Luís Boa Morte

Já lá vão mais de duas décadas desde que o Salgueiros abandonou os palcos mediáticos do nosso futebol e ainda há uma falange de adeptos que segue o histórico emblema do Porto para todo o lado. Os que viram o clube cair a pique até às divisões distritais são os mesmos que hoje assistem ao seu renascimento. Nos últimos anos, o Salgueiros reformulou a sua estrutura e recuperou a sua identidade. A presença na fase de subida do Campeonato de Portugal representa uma oportunidade de ouro para devolver a equipa às ligas profissionais.

São mais de cem anos de história a alimentar um sonho que tem de andar com a casa às costas. "Mas é um sonho com cabeça, tronco e membros, e tem pernas para andar", diz ao DN o presidente Silvestre Pereira, ciente de que tudo seria mais fácil se o Salgueiros tivesse um espaço próprio para treinar e não se visse obrigado a pedir - que é como quem diz, a pagar - à autarquia da Maia para disputar os seus jogos no Estádio Municipal.

O velhinho Vidal Pinheiro, agora propriedade da Metro do Porto, é há muito uma causa perdida. Os salgueiristas desdobram-se em alugueres de espaços para que as suas 15 equipas de futebol tenham onde treinar e jogar. "É um esforço titânico que nos tira recursos financeiros que podiam ser aplicados noutras coisas", explica o dirigente. Estamos a falar de "60 a 70 mil euros" por época, que engolem importante fatia do orçamento do clube.

Para Filipe Cândido, isso "não é desculpa" para a prestação da equipa, que terminou a sua série no segundo posto. "As condições não são as ideais, mas não me agarro a isso. Fazemos dessas dificuldades as nossas forças. Faz parte da mística deste clube", argumenta o atual treinador do Salgueiros, "orgulhoso" por fazer parte do renascimento de um emblema que lhe diz muito, pois foi lá que atingiu "o ponto mais alto" da sua carreira enquanto futebolista. O técnico conhece bem essa "mística" e não consegue dissociá-la dos objetivos a que se propôs quando assumiu o leme, a meio da época. "É um clube histórico, tem de existir ambição. Quem está aqui tem de levar isso em conta", atira, referindo-se ao desejo de atacar a subida. "O clube está preparado para isso", corrobora o presidente, que ambiciona levar o Salgueiros à I Liga "no prazo de cinco ou seis anos".

Salgueiros, SAD

Passo importante neste renascimento foi a recuperação do símbolo e do nome original: Sport Comércio e Salgueiros. A marca foi a leilão durante o processo de insolvência e esta direção adquiriu--a de volta. O orgulho dos adeptos materializou-se também numa nova sede. "Um edifício devoluto que os nossos sócios reconstruíram com as suas próprias mãos", diz o presidente.

No plano financeiro, a "estabilidade" é agora a palavra de ordem. Para ter recursos para atacar a subida, o clube recorreu a investidores, que assumiram o compromisso de ajudar neste projeto. O próximo passo é a constituição de uma SAD para gerir o futebol profissional, cujo anúncio está para breve.

O veterano e o sobrinho de Boa Morte

A entrada de investimento permitiu ao clube reforçar-se para lutar pela subida. O plantel está polarizado: mistura jovens promissores e muitos veteranos com nome sonante, como Rui Lima. "Passei a minha infância a ver jogos no Vidal Pinheiro, que era perto da zona onde cresci, sonhando um dia jogar no Salgueiros. Felizmente aconteceu nesta fase", conta o médio, de 38 anos.

Filipe Cândido não tem dúvidas: "Todos estes jovens podem chegar longe." Um deles é Aylton Boa Morte, que herdou o apelido do seu tio Luís, conhecido internacional português, agora treinador do Sintrense. Aos 23 anos, o avançado não tinha consciência da dimensão do Salgueiros. "Só quando cheguei é que percebi a sua grandeza e a força dos adeptos", explica o jovem, determinado em "fazer história" nesta fase de subida.

Silvestre Pereira acredita que foi essa força que manteve o clube vivo. "Tenho passado essa mensagem aos mais novos", avisa Rui Lima. "Alguns não têm noção do impacto que a subida do Salgueiros teria na imprensa, nos adeptos, no futebol em geral. Seria verdadeiramente histórico."

Exclusivos