Simone Biles depois de Comaneci: a nova obra perfeita dos Karolyi

A nova rainha da modalidade, vencedora da prova individual all around, foi moldada numa quinta escondida do Texas, pelo mesmo casal que lançou Nadia Comaneci

A medalha de ouro estava entregue à partida. "Só uma abelha é capaz de afastar Simone Biles do pódio", brincam as rivais (sucedeu na cerimónia de entrega das medalhas dos Mundiais de 2014) e parece verdade. A nova rainha da ginástica artística alcançou ontem a coroa que lhe faltava - a vitória na competição individual all around do Rio 2016. E ninguém ficou surpreso com a forma simples como a conseguiu: a adolescente, dos EUA, é "só" mais uma obra perfeita (a melhor de todas?) do casal Karolyi, os treinadores que já tinham dado ao mundo a lendária Nadia Comaneci.

"Nada pode ser feito para travar Simone Biles": até Comaneci, primeira ginasta a obter uma nota perfeita de 10.00 em Jogos Olímpicos (Montreal 1976) o reconhece. Hoje, o sistema de pontuações é diferente - desde 2006 que funciona uma escala variável, com base na dificuldade e na execução dos movimentos - mas a norte-americana, de 19 anos, é apontada como o novo arquétipo da perfeição da ginástica. A vitória de ontem, com 62.198 pontos, 2.100 de vantagem sobre Alexandra Raisman (EUA) e 3.533 sobre Aliya Mustafina (Rússia), ajuda a sustentar a tese da sua superioridade. Desde 1972, ninguém ganhava o all around por uma margem superior a 0.30 pontos.

No entanto, Simone Biles não é uma ginasta qualquer: é uma rapariga de 1,45 metros e 47 quilos, com tanto de graciosa como de indestrutível. A sua treinadora Aimée Boorman, notou-o cedo, ao ver como aquela miúda de seis anos - retirada à mãe (toxicodependente) e criada pelo avô materno e pela mulher - dava as mais complexas cambalhotas, apenas por diversão. Depois, a selecionadora de ginástica dos EUA, Martha Karolyi, ajudou-a a tornar-se a mais recente rainha da longa dinastia de campeãs mundiais born in the USA.

As três últimas vencedoras da competição all around dos Jogos Olímpicos - Carly Patterson (2004), Nastia Liukin (2008) e Gabby Douglas (2012) - tinham saído do mesmo berço: o Rancho Karolyi, uma quinta escondida no meio de um parque florestal do Texas, onde o casal Bela e Martha Karolyi se radicou desde 2000. Em rutura com o regime de Ceausescu, os dois treinadores romenos de ascendência húngara exilaram-se nos EUA no início dos anos 80, depois de terem levado a compatriota Nadia Comaneci a fazer história - treinavam-na desde os seis anos. Juntos (ele, até se reformar em 2000, era o treinador principal) fizeram outro milagre desportivo na nação que os acolheu: ajudaram à progressão de um país outrora quase sem grande expressão na ginástica artística. Desde Barcelona 1992 que as norte-americanas sobem sempre ao pódio da prova feminina de equipas. "Sinto-me orgulhosa de ter criado algo único para a ginástica dos EUA", gaba-se Martha.

A quinta dos Karolyi - equipada com recintos de treino e residências para atletas e treinadores, num regime de isolamento quase total - tornou-se um local de culto para os amantes de ginástica artística. Foi lá que a coach Martha modelou as últimas campeãs olímpicas, sempre sob o olhar atento do marido (que goza o restante tempo tempo livre ocupando-se dos animais...). E agora que a treinadora (de 73 anos, como Bela) se vai reformar, após os Jogos Olímpicos, a federação de ginástica dos EUA já anunciou que comprou de todos os espaços desportivos que fazem parte do rancho, para manter a fábrica de talentos.

De qualquer forma, o futuro da ginástica do país parece estar assegurado com Simone Biles. A adolescente conquistou os títulos individuais all around nos três últimos mundiais (um feito inédito) e juntou-lhes mais 11 medalhas (sete de ouro). No Rio 2016, já amealhou dois ouros (o de ontem e o da prova de equipas) e é considerada a grande favorita das finais de salto (dia 14), trave (14) e solo (16). Se colecionar os cinco títulos, fará algo único, que nem Nadia Comaneci ou Larissa Latynina (18 medalhas em Jogos Olímpicos, entre 1956 e 1964) conseguiram. No entanto, ela continua a brilhar sem pressão, com a leveza de uma miúda que se quer distrair: "Os melhores resultados aparecem quando uma pessoa se diverte".

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