Os destinos cruzados de Simone Biles e Gabby Douglas

Figura no Rio, Biles saiu de cena com um histórico quarto ouro. Já Douglas, campeã em 2012, lida com as críticas

A falha inesperada na trave, no dia anterior, tinha impedido a perfeição. Simone Biles não saiu dos Jogos Olímpicos do Rio com os inéditos cinco ouros a que se propunha, em outras tantas finais. Mero acidente de percurso. A redenção surgiu ontem da forma mais arrebatadora, tal como a norte-americana habituou, de resto, os adeptos fiéis da ginástica ao longo dos últimos quatro anos - e os adeptos de ocasião durante estes Jogos Olímpicos.

Biles ganhou a final de solo, a última do programa feminino, com um sublime exercício que igualou a sua melhor pontuação no Rio (15.966) e saiu de cena com um quarto ouro ao peito (e ainda o bronze que conseguiu na trave, apesar do erro), igualando um feito histórico que só três outras ginastas tinham conseguido: a soviética Larissa Latynina (1956), a checoslovaca Vera Caslavska (1968) e a romena Ecaterina Szabó (1984). A lendária Nadia Comaneci, por exemplo, "só" conseguiu três ouros em Montreal 1976.

Também ela um fenómeno moldado pelo casal Karolyi - Bela e Martha, os treinadores que já tinham "criado" Comaneci -, a pequenina Simone Biles (1,45 metros, 47 quilos, de 19 anos) é uma das maiores figuras destes Jogos do Rio. Os últimos Jogos de Phelps e de Bolt (assim o garantem eles) ficarão na história também como os primeiros Jogos de Biles, a menina negra de infância difícil que veio revolucionar a ginástica sempre com um sorriso cativante na cara.

"Eu só queria terminar com uma boa nota. Isto dá cabo dos nervos, mas não havia espaço para nervos. Foi uma experiência extraordinária. Pensando no que ganhei, não podia pedir mais. Saio dos meus primeiros Jogos Olímpicos com cinco medalhas, quatro das quais de ouro. Como é que posso estar desiludida?", afirmou a prodigiosa ginasta, que de 2013 para cá "limpou" todos os grandes palcos internacionais - 14 medalhas em mundiais, dez de ouro; primeira negra campeã do mundo individual all-around, primeira a ganhar três mundiais consecutivos...

"Agora fico no Rio para me divertir um pouco até à cerimónia de encerramento. Quero ir ao Cristo Redentor, à praia e comer piza de pepperoni [risos]. Quero ser um pouco normal agora", despediu-se a pequena Simone, com o seu sorriso do tamanho do mundo.

Douglas, a outra face

A felicidade e o momento de Biles não podiam contrastar mais com aquilo por que passa Gabby Douglas. Há quatro anos, foi ela a fazer história em Londres ao tornar-se a primeira ginasta negra campeã olímpica no concurso individual all-around. Abrindo a porta ao aparecimento de Biles.

Agora, saiu do Rio apenas com a medalha de ouro por equipas e uma série de desilusões individuais. Pior do que isso, Douglas viu-se alvo de abuso nas redes sociais. Pelas suas fracas atuações, mas também por não ter levado a mão ao peito durante o hino norte-americano. E por alegadamente não mostrar alegria a apoiar as colegas. E ainda pelo seu cabelo "pouco liso". Ou por "parecer ter feito um implante mamário".

O bullying sobre Gabby, de 20 anos, gerou também uma onda de solidariedade nas redes sociais: #LOVE4GABBYUSA. "Não percebo. O que fiz eu para desrespeitar estas pessoas? Eu também projetei que as coisas fossem correr de forma diferente aqui [nos Jogos]. Todos queremos sair da melhor forma na fotografia, no topo do pódio, a fazer uma ginástica fantástica . Mas dei sempre tudo pelo país e tentei representá-lo no melhor das minhas capacidades. Isto magoa."

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