"Há a expectativa de chegarmos às duas medalhas"

Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação que tutela o desporto, em entrevista ao DN e à TSF alerta para objetivos contratualizados e recorda que as condições para os atletas foram melhoradas

Esteve em Londres como adido olímpico da comitiva portuguesa nos Jogos de 2012 e foi um ávido leitor de biografias dos atletas portugueses. Consegue dizer quem estará em condições de dar alegrias aos portugueses no Rio de Janeiro?

Há vários atletas que têm condições para se superar. Acima de tudo o que nós esperamos é que cada um deles consiga superar os resultados que os levaram aos Jogos Olímpicos (JO), sabendo nós que para estarem no Rio tiveram de ultrapassar fases verdadeiramente competitivas. Isso faz-nos pensar que são verdadeiras vedetas nos desportos que praticam. Acreditamos que os nossos atletas possam superar os seus resultados médios e sonhar em chegar ao pódio. Temos atletas no ténis de mesa, no taekwondo, no judo, na canoagem, que nos têm habituado a grandes resultados.

Prevê alguma surpresa? Por vezes há atletas de quem não se esperava muito e que têm mostrado essa superação.

Há o João Costa, quinta presença nos Jogos Olímpicos, que nos habituou em Europeus e Mundiais de tiro a resultados de muito relevo. Depois há o atletismo, a marcha, as modalidades técnicas, o próprio Nelson Évora, que num bom dia pode ser o melhor do mundo.

Está a tentar afastar-se daquela temática que assola os portugueses de quatro em quatro anos que são as medalhas, mas a verdade é que há um contrato-programa celebrado para este ciclo olímpico que prevê que 25% dos atletas de nível 1 atinjam uma medalha. Como há 11 atletas englobados nesse nível, podemos esperar duas medalhas. Confirma estas contas?

As contas estão certas, um contrato-programa implica objetivos que possamos medir. Neste ciclo olímpico, em especial neste último ano, foram criadas todas as condições e é relevante ver que o habitual nível de ruído ou de queixa não foi considerável. Isso também se deve à melhoria das condições de treino e ao nível de organização federativa que cada vez temos mais. Muitos destes atletas, principalmente os de nível 1, têm condições para chegar às medalhas e são potenciais candidatos, mas há o potencial de surpresa de atletas de nível 2 ou nível 3. Este programa olímpico tem objetivos que estão contratualizados e que prevê a obtenção de medalhas. É expectável que tenhamos expectativas de chegar longe, inclusivamente a essas duas medalhas. Mas não temos um algoritmo, porque se o tivéssemos aplicávamo-lo e sabíamos quem seriam os vencedores. É por essa imprevisibilidade que o desporto nos agarra.

A bolsa mensal atribuída a um atleta de nível 1 ronda os 1300 euros. Parece-lhe razoável?

Esses são os níveis de financiamento, mas há um compromisso da nossa parte de intensificar as ajudas aos atletas que entram nestes programas. Há um compromisso para que no próximo programa olímpico exista um cuidado relativo às bolsas dos atletas, dos treinadores e em relação às condições. Estamos a terminar o programa em curso, que não foi assinado por este governo. A minha garantia é de que vai haver um estudo sério para quantificar e equacionar novas condições para os atletas olímpicos, mas não serão só a nível monetário. Temos de dar novas perspetivas e percursos possíveis a esses atletas olímpicos, qualidade dos treinos, formação e acesso a cursos educativos, até porque muitas das modalidades têm um tempo de vida curto, é preciso pensar que há um tempo posterior. Esses atletas têm de assegurar a possibilidade de estudar. E esperamos que os treinadores, muitos deles docentes do ensino secundário, possam ter alguma flexibilização nas aulas.

Não lhe faz confusão que existam poucos holofotes sobre os atletas olímpicos durante três anos e 11 meses e depois exista um país a exigir medalhas dia-a-dia durante praticamente um mês?

Faz. Faz-nos a todos, principalmente àqueles que vivenciamos o desporto no seu todo. Durante a Olimpíada existe um distanciamento natural em todos os países, não é um exclusivo de Portugal. Mas cabe-nos a todos - à tutela, às federações, ao Comité Olímpico de Portugal, fomentar a prática desportiva e por outro lado dar visibilidade aos eventos desportivos durante esses quatro anos. É natural que isso aconteça num país em que a prática desportiva não está generalizada e que muitas das modalidades não são rainhas como o futebol, em Portugal. Essa sazonalidade não acontece só no desporto, quando há eleições também é natural que se fale mais dos partidos. Mas é natural que nesta época exista esta exigência. Faz parte.

Fale-nos um pouco da sua experiência como adido olímpico da comitiva portuguesa em Londres 2012. Consta que dormia pouco, que engordou e que ajudava o Fernando Pimenta e o Emanuel Silva a carregar os caiaques.

Sinto muita nostalgia. Era investigador em Cambridge e o Nuno Delgado e o chefe de missão, Mário Santos, estavam a recrutar um adido e através da embaixada fui a uma entrevista. As pessoas com interesses comuns reconhecem-se e foi o que acabou por acontecer, quase como se de um namoro se tratasse. Com seis meses de antecedência começámos a pensar o que seriam aquelas seis semanas em Londres; novas metodologias para acolher os atletas. Eram 160 pessoas na comitiva e de repente temos de fazer uma equipa. Trabalhei com o resto das pessoas para criar todas as condições para que os atletas pudessem competir com serenidade.

É verdade que uma das ideias, que passava por decorar os quartos dos atletas com fotografias deles em competição, foi da sua autoria?

É verdade. Criámos uma área de lazer na Aldeia Olímpica, que costuma ser um sítio frio. Colocámos nos quartos imagens grandes dos atletas, fomentámos dinâmicas pré-Jogos para que os atletas se pudessem conhecer e oleassem relações porque tinham de estar naquele espaço em momentos de grande pressão com pessoas que conhecem pouco. Fizemos um protocolo de acolhimento, os atletas sabiam tudo o que tinham de fazer, minimizámos sinais de stress e tentámos criar uma dinâmica positiva. Foram muitos desses pormenores que eu trabalhei em equipa e, claro, estabeleci alguma proximidade aos atletas.

Fez amigos?

Bons amigos, mas alguns eu já conhecia e seguia as suas competições. Eu sigo o desporto, não sinto a tal sazonalidade. Fui sempre muito estimulado pelo meu pai, lembro-me de ver o Carlos Lopes e a Rosa Mota. Todas estas coisas marcaram a minha vida. Ter tido a possibilidade de estar do lado de lá foi um privilégio, estar ao serviço desses atletas e vivenciar com eles um momento cimeiro. Quando se está ao serviço das pessoas criam-se laços de amizade.

Por falar em laços de amizade, quando chegar à Aldeia Olímpica espera que aqueles que privaram consigo em Londres o tratem por Tiago ou por senhor ministro?

Isso já aconteceu e a postura institucional de alguns dos nossos atletas é muito apurada. Na presença de alguém estranho têm o cuidado de dizer "senhor ministro", mas tenho de confessar que soa a estranho. Mas logo que se dissolve essa formalidade tratam-me por Tiago, exceto em questões mais institucionais.

Quem é que conheceu na Aldeia Olímpica em Londres e que queria mesmo muito conhecer?

De todos os atletas não portugueses foi fantástico estar com o Pau Gasol [basquetebolista espanhol, a competir na NBA] e poder falar com ele. Ainda por cima, eu vivi oito anos em Espanha. Foi um prazer conversar com ele à hora do almoço como se estivesse a falar com alguém que encontrei num restaurante da Baixa de Lisboa. Mas tenho de confessar que foi marcante estar com alguns dos meus ídolos portugueses. Estar com a Telma Monteiro, com o Fernando Pimenta, de quem ouço falar há muitos anos como um promissor atleta, porque ele é do concelho ao lado daquele em que eu nasci. Vim dessa experiência olímpica com a sacola cheia.

O futebol é apelidado de desporto-rei, mas parece que é o parente pobre dos Jogos Olímpicos. Como viu as dificuldades do selecionador Rui Jorge em elaborar uma convocatória?

Admiro muito a posição de Rui Jorge, a sobriedade e a estoicidade com que encarou este processo. O não compromisso da FIFA em relação aos JO deve preocupar-nos e a FIFA tem de entender o que quer do futebol olímpico. Esse compromisso que a FIFA tem tido com o movimento olímpico e o futebol feminino não tem tido com o futebol masculino. Entendo os clubes, têm as suas prioridades e já têm de libertar os jogadores para as datas obrigatórias.

Desde 2004 que Portugal não se fazia representar com o futebol nos JO. Tendo em conta esta longa ausência, o governo não podia ter agido, sensibilizado os clubes, para o país levar uma equipa de maior valia ao Rio de Janeiro?

Portugal tinha aqui uma oportunidade única, acima de tudo porque tendo uma participação robusta não tem sido muito representado em modalidades coletivas. Mantivemos contactos não institucionais, vendo com cuidado todo o processo. Não podemos ter uma intervenção ativa. As declarações que fizemos foi no sentido de que esperávamos que a equipa olímpica pudesse estar representada ao mais alto nível.

Mas houve algum contacto diplomático com a Federação Portuguesa de Futebol ou com algum clube?

Houve muitas conversas e transmitimos essa mensagem, no sentido de que os clubes se pudessem comprometer. Toda esta discussão está condicionada à partida; a questão da data FIFA é primordial. Até porque muitos dos atletas não estão em Portugal. E nem na Liga portuguesa podemos ter uma intervenção direta porque os clubes são instituições privadas. Com todas as competições que existem, isso faz que os clubes se queixem. Em média já dão os atletas 30/40 dias às seleções e os campeonatos estão a começar. O problema é de base e de falta de compromisso da FIFA.

Fixei a sua expressão de que Portugal pode estar a perder uma oportunidade única.

Acredito que é uma chamada de atenção para todos nós. Quem segue a imprensa internacional vê que esta é uma discussão presente em países onde o futebol é um desporto de referência e onde o futebol olímpico já obteve grandes êxitos. Quem ama o desporto vê nos JO o Olimpo do desporto. Os JO são também um sonho para muitos futebolistas, por muito que sejam vedetas nos seus campeonatos. Temos de tirar ilações da situação e do relacionamento da FIFA com o movimento olímpico e saber o caminho a percorrer.

Têm-se ouvido relatos preocupantes sobre a baía de Guanabara, sobre a Aldeia Olímpica. Parece que está tudo bem com a comitiva portuguesa, mas preocupa-o estas situações?

Tenho estado atento e falei com as pessoas da missão portuguesa que estão no terreno. Existem alguns problemas, mas estou convencido de que tudo se vai normalizar.

Não sentiu receio por parte dos atletas portugueses?

Senti foi uma vontade enorme de chegar ao Rio e de poder competir. Alguns dos nossos atletas competem pela quinta vez nos JO.

O porta-estandarte de Portugal soma a sétima presença em Jogos.

O João Rodrigues... começou em Barcelona 1992, o que é absolutamente notável...

Até por isso acha justo João Rodrigues ser o porta-estandarte?

Tem toda a justificação, todos entendemos que chegar a sete participações nuns JO merece todo o nosso respeito... não sei se o João Rodrigues conseguirá uma oitava participação [risos].

Parece que já afastou essa hipótese.

O Messi também disse que ia abandonar a seleção argentina e afinal foi falso alarme. O que eu vejo é que os nossos atletas estão muito contentes por competirem num país em que vão ter a oportunidade de se sentir em casa, com uma comunidade portuguesa imensa, em que vão poder usar a sua língua, e estas questões também são importantes. Portugal tem de apoiar o Brasil para que estes primeiros JO numa cidade lusófona possam ser um marco.

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