Queixas por ameaças e agressões a árbitros duplicaram em relação à época anterior

Luciano Gonçalves, presidente da APAF, revela que já foram feitas 52 participações. Jorge Ferreira é a vítima mais recente

A Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF) já apresentou esta época 52 participações por delitos cometidos contra equipas de arbitragem, um número que, segundo Luciano Gonçalves, presidente daquele organismo, "mais do que duplica as registadas no período homólogo da época passada". Aliás, em toda a temporada 2015/16 "foram feitas entre 26 e 28 participações ao Ministério Público, à PSP e à GNR".

Ao DN, o dirigente dos árbitros revelou que "esse número abrange desde os escalões distritais até aos campeonatos profissionais" e dizem respeito a "agressões, carros de árbitros danificados e ameaças".

Neste número avançado por Luciano Gonçalves já se incluem as situações mais mediáticas resgistadas neste ano, como a invasão ao centro de treinos dos árbitros na Maia, no início de janeiro, e os atos de vandalismo na madrugada de ontem, em que elementos alegadamente afetos à claque SuperDragões fizeram inscrições no estabelecimento comercial do pai de Jorge Ferreira, em Fafe. Refira-se que este foi o árbitro que na terça-feira dirigiu o Estoril-Benfica para a Taça de Portugal, que terminou com um golo obtido em fora de jogo por Mitroglou, que ditou o triunfo dos encarnados.

Jorge Ferreira garantiu ontem ao DN que este caso "está entregue aos advogados que, em sintonia com a APAF e o Conselho de Arbitragem, vão agir em conformidade". Luciano Gonçalves confirmou este facto, acrescentando que "será entregue uma participação ao Ministério Público".

O árbitro Jorge Ferreira não quis alongar-se sobre o caso envolvendo o seu pai, remetendo para as declarações que havia prestado à Fafe TV, quando admitiu estar de "consciência tranquila", mas revelando alguns receios: "Temo um bocadinho pela minha família, pelo meu pai, pelo meu filho, por todos." O árbitro da Associação de Futebol de Braga lamentou ainda que se tenham "atingido determinadas situações que não se coadunam com a realidade", mostrando-se convencido de que os atos de vandalismo têm a ver com a sua arbitragem no jogo da Amoreira. "Nem me passa pela cabeça outra coisa. É triste. É lamentável que as pessoas sejam cobardes, seja de que clube for. Não estou a colocar em causa seja que clube for. Está lá escrito. Neste momento sinto-me triste. Uma pessoa não pode continuar a vida, o trabalho", sublinhou.

"Saberemos dizer basta"

Luciano Gonçalves afirmou ao DN que a situação que envolveu a família de Jorge Ferreira "é mais uma que envergonha o futebol português". E deixou uma certeza: "Todos temos de pensar bem aquilo que podemos fazer para alterar este estado de coisas."

O presidente da APAF deixou a garantia que, apesar dos casos que têm sucedido ultimamente, "os árbitros estão tranquilos e descansados". Mas deixou um aviso: "A arbitragem tem tido calma durante todo este processo mas saberemos quando o momento de dizer basta." Ainda assim, o dirigente escusou-se a especificar qual será o limite a que estará sujeita a paciência dos árbitros de primeira categoria. "Queremos mais calma e tranquilidade no futebol, mas se isso não acontecer é preciso fazer alguma coisa", acrescentou ao DN.

Questionado sobre as declarações de Luís Filipe Vieira que, em entrevista à CMTV, revelou ter-se reunido com o Conselho de Arbitragem para falar sobre os "indícios públicos de condicionamento e intimidação" aos juízes, Luciano Gonçalves recusou-se a dizer se esta é uma situação que se enquadra nesse cenário: "Não faço quaisquer comentários sobre o que disse o presidente do Benfica, senão amanhã teria de comentar aquilo que dizem outros clubes."

Em comunicado, a APAF repudiou ao início da tarde de ontem os incidentes que envolveram Jorge Ferreira, responsabilizando os "agentes desportivos e alguns comentadores que intervêm em representação dos clubes e cujo principal objetivo é criar pressão, justificar resultados e levantar suspeições". Aquele organismo defende que as pessoas em causa "não têm noção do grave problema que estão a criar ao futebol português, criando desta forma uma onda de violência moral e física, sem fim à vista".

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