O também Presidente da Federação de Desportos de Inverno de Portugal traça um retrato realista e ambicioso do presente e do futuro do desporto de inverno nacional. Entre atletas mais experientes, estreantes promissores e novas modalidades a caminho do cenário olímpico, Portugal chega a este ciclo com a meta de superar resultados anteriores, ganhar visibilidade e quebrar a ideia de que estes desportos são “exóticos” para o público português. Apesar das limitações de infraestrutura e do peso económico, as expectativas são elevadas: melhores prestações, maior acompanhamento mediático e, sobretudo, a consolidação de um caminho que pode transformar a participação nacional nos próximos anos.. Qual é o principal objetivo da Missão Portuguesa para estes Jogos? Trabalhamos sempre com o objetivo de melhorar os resultados anteriores, de conseguir a melhor prestação para os atletas nacionais. Esse é sempre o objetivo principal. Mas, acima de tudo, dar a conhecer os desportos de inverno aos portugueses, porque acho que esta é uma excelente oportunidade que temos de 4 em 4 anos para podermos falar mais de desportos de inverno. Em relação aos nossos atletas o José Cabeça, pela forma como conseguiu a qualificação que foi feita no Campeonato do Mundo, a abertura da vaga, dá-nos sinais de que o resultado será bastante melhor do que em Pequim 2022. A Vanina também é uma atleta mais experiente, também acho que vai conseguir melhorar os seus resultados. E depois temos o estreante Emeric, que é um atleta de excelência. Conseguiu um feito que já não conseguíamos desde 1994, que foi qualificar-nos também para o Supergigante para as provas de velocidade. O que é que espera dele no Super Gigante? Vai ser a estreia deste atleta, portanto é preciso perceber como é que ele se vai enquadrar numa grande competição internacional como são os Jogos Olímpicos. O nosso historial de Supergigante é muito curto. Nós tivemos só o Jorge Mendes em 1994, em Lillehammer. Mas eu penso que um resultado bom será um lugar acima do meio da tabela, com toda a certeza. Estamos a falar de uma competição onde estão os melhores atletas numa disciplina muito rigorosa, muito específica e imponente, numa pista que tem um historial enorme de provas de velocidade. E por isso nós estamos todos com muita expectativa e ele também.E em relação à Vanina, à irmã dele? A Vanina é uma atleta com mais experiência, já esteve em Pequim em 2022. Está mais madura e isso faz também que ela vá participar com uma leitura diferente da competição e isso pode-lhe trazer também um melhor resultado. A Vanina neste momento trabalha, é instrutora de esqui em França. Vai conciliando o seu trabalho com os treinos, mas eu penso que ela também está numa forma interessante. Vamos falar do José Cabeça. Ele já disse ao Diário de Notícias que quer fazer o melhor que conseguir. Não é um velocista, é mais um atleta de endurance e que a grande aposta são os 10 km.O José Cabeça é um atleta muito focado, que treina muito. É dos atletas que eu conheço que mais insiste, que mais passa dias inteiros a treinar. Às vezes manda-me os resultados dos treinos fico surpreendido como é que ele treina tanto. Ele esteve quase, ficou ali perto de conseguir participar noutras disciplinas, como o esquiatlo, porque abaixo de 150 pontos era possível fazê-lo, não conseguiu, mas está ali muito perto..Ainda é muito cedo dizer que Portugal pode ascender aos lugares de topo dos Desportos de inverno? Nós estamos a fazer este caminho, não só nestas modalidades. Infelizmente não conseguimos qualificar a Jéssica Rodrigues, ela esteve muito perto, ficou nos 24 primeiros, ou seja, ela estava dentro do intervalo de atletas qualificados para os jogos, mas tinha de fazer um tempo numa distância e infelizmente por muito pouco não conseguiu. Mas a Jéssica vem de um ano de 2025, em que foi campeã do mundo júnior da modalidade e isso mostra que mesmo num país como Portugal, que não tem as infraestruturas adequadas, conseguimos também formar campeãs do mundo. . Que lições é que retira da participação portuguesa de Pequim 2022 para a edição deste ano?Eu acho que serão jogos completamente diferentes. Eu fiz parte das últimas três missões, estive em Sochi, depois estive na Coreia, depois em Pequim. Os últimos foram muito difíceis, em pleno Covid, onde havia restrições para praticamente tudo e onde os atletas não conseguiram sentir o que era o real espírito olímpico. E estes vão ser uns jogos na Europa, em Itália que é um país com muita tradição nas modalidades de inverno, com um saber fazer já há muito tempo: as pistas de esqui têm condições excelentes e as infraestruturas de gelo também. Para os portugueses, o estar perto de casa tem também a vantagem que vão ter pessoas com os olhos mais em cima deles, quer na televisão, este ano vamos ter mais horas na televisão de transmissão, as provas dos atletas portugueses vão ser transmitidas. E depois vão ter a família por perto, há muitos familiares que os vão ver, há amigos que os vão ver, isso faz toda a diferença quando se está do outro lado do mundo.Mas também pressiona mais os atletas. Pressiona mais, mas eu acho que isso também os motiva a serem melhores. Porque das outras vezes, principalmente na Coreia e na China, os atletas estavam do outro lado do mundo, com sete ou oito horas de diferença, e isso faz com que aquilo seja um bocadinho um mundo à parte..De qualquer forma, igualou-se o recorde de participações portuguesas em Jogos Olímpicos de Inverno para estes Jogos. Quais foram as principais dificuldades que encontrou neste ciclo olímpico?Igualámos o número de participações com a vantagem de um dos atletas ir fazer a velocidade, porque nos últimos Jogos Olímpicos isso não foi possível. Mas as maiores dificuldades para a qualificação é o nível competitivo cada vez mais elevado.Mas em Portugal não há infraestruturas para estas modalidades a este nível. O fator económico é determinante? O fator económico é determinante e há sempre limitações. Mas estamos muito melhor do que há um conjunto de ciclos olímpicos atrás. Estes atletas estiveram incluídos num programa de apoio à participação nos Jogos Olímpicos de Inverno, feito diretamente entre a Federação e o IPJ. Mas estamos a caminhar para mudar isto e voltar a uma ligação mais direta com o Comité Olímpico, da mesma forma que os Jogos de Verão. Como as modalidades de Inverno estão todas centralizadas numa só Federação, no passado este foi o caminho que se encontrou para apoiar estes atletas que ainda não tinham resultados de excelência, como os atletas que estão no programa de Verão. O objetivo será para o futuro centralizar isto ao máximo e comparar ao máximo com o Verão para todas as modalidades. Parece que temos quase uma contradição: aumenta o número de federados, mas têm todos que competir lá fora porque em Portugal não conseguem.Para dar os primeiros passos e para que as nossas academias de atletas mais jovens consigam treinar, é possível fazê-lo em Portugal, quer na neve, quer no gelo. A Federação construiu em 2021 uma pista de gelo de dimensões mais pequenas do que as dimensões olímpicas. É uma pista localizada na Serra da Estrela, ao lado da Pousada da Juventude. Mas é onde a Federação tem conseguido implementar as suas academias. Mas veja, noutras modalidades, quando se está num nível muito elevado, há atletas que mesmo com infraestruturas em Portugal, acabam por treinar fora do país. E isso é quase impossível nesta fase não o fazer.. Na sua opinião, porquê é que os atletas que têm dupla nacionalidade optam por Portugal? Porque não têm resultados para conseguirem representar o país onde vivem? Há várias formas diferentes de fazer essa abordagem. Uns, muito incentivados pelos pais que têm relações muito fortes com o país e gostavam muito que os seus filhos pudessem representar o país onde nasceram. Outros porque até têm uma ligação forte com o país também e outros porque são atletas muito bons, mas nos países onde vivem também não conseguem ser tão bons como outros que são nascidos e criados lá e que têm apenas essa nacionalidade. E nós estamos a pensar já até um bocadinho à frente, porque no ciclo Olímpico que começa, quando este terminar. Temos atletas já identificados em modalidades onde nunca participamos nos Jogos Olímpicos, como o snowboard, por exemplo. Vamos conseguir ter atletas com idade para fazer os Festivais Olímpicos da Juventude e para se qualificarem para os Jogos.Está a dizer isso com toda a certeza?Tenho a certeza de que se vão qualificar mesmo. .Acha que o Estado poderia fazer um bocadinho mais do que tem estado a fazer até agora? Eu sou um bocadinho suspeito porque acho sempre que precisamos de mais, porque de facto o desporto precisa de muito investimento. Se por um lado estes atletas tiveram condições para poder treinar, alguns deles tiveram também apoios da Solidariedade Olímpica, através das Bolsas de Solidariedade Olímpica, mas de facto todo o dinheiro que puder vir para o desporto é um investimento que o Estado está a fazer da melhor forma, porque está a investir na saúde, está a investir no futuro destes jovens, está a investir nos resultados desportivos que vamos conseguir a seguir. E por isso, no desporto que é levado ao mais alto nível, o dinheiro é sempre pouco para conseguir estar preparado da melhor forma. Apesar dos desportos de inverno e das modalidades olímpica começarem a ser já mais conhecidas do público, quando é que os portugueses vão deixar de ter a sensação de que os desportos de inverno são um bocadinho “exóticos”? Eu acho que algumas pessoas já não acham isso, até porque nós temos milhares de portugueses que praticam desportos de inverno, de lazer, mas atualmente as pessoas gostam muito de ir à neve, conhecem as modalidades, seguem muitas destas modalidades na televisão. O curling, por exemplo, é uma modalidade que tem imensos portugueses espectadores. E isto é também revelador que hoje os portugueses já olham um bocadinho diferente, já não acham que é tão exótico. As pessoas seguem na televisão, acompanham nas redes sociais, nas plataformas de vídeo, no YouTube, há muita informação e hoje as pessoas já veem. Eu acho que o paradigma está a mudar. Porque aquilo que já me falou, porque também é no continente europeu, acho que estes jogos podem mudar o paradigma aqui em Portugal e ajudar também estes jogos a desenvolver. Perante isto que me está a dizer, vamos pensar em 2030 ou 2034. Quantos atletas é que prevê daqui a oito anos ter a representar Portugal nos Jogos Olímpicos? Acho que o número vai aumentar de alguma forma. Pelo menos, diria que em 2030, pelo menos mais um ou dois, se calhar dois.Falando realisticamente? Realisticamente. Pondo o coração de lado?Sim, porque se eu pusesse o coração, dizia demais. Mas acho que em 2030 vamos ter com toda a certeza, além destas duas modalidades e de três atletas nestas duas modalidades, podemos ter com toda a certeza um atleta ou dois na patinagem de velocidade e um atleta no snowboard, de certeza.É esse o legado que quer deixar destes Jogos Olímpicos? É. E também dizer-lhe outra coisa. Nós estamos a falar de Jogos Olímpicos de Inverno, mas já em 2026 poderemos pela primeira vez ter um atleta nos Jogos Paralímpicos de Inverno. É um atleta de snowboard, que está a fazer a qualificação, está perto e eu acho que vai ser possível. Para o desporto adaptado seria um salto enorme podermos ter um atleta de Inverno a representar Portugal nos Jogos Paralímpicos e isso seria também uma semente para o futuro. .José Cabeça: o português que vai aos Jogos Olímpicos depois de aprender a esquiar através do Youtube.Portugal leva três atletas aos Jogos Milão Cortina 2026.Jogos Olímpicos de Inverno de 2026 vão decorrer em Milão/Cortina