"Os árbitros estão totalmente vacinados contra as ameaças"

Pedro Henriques revela ao DN o que sente um árbitro perante o clima de tensão que se vive. PSP adota medidas para proteger os juízes

O antigo árbitro internacional Pedro Henriques garantiu ao DN que "os árbitros estão totalmente vacinados" contra o tipo de ameaças que foram alvo esta semana e que motivaram ontem a PSP a adotar medidas adicionais de proteção aos juízes, após uma reunião com o Conselho de Arbitragem, presidido por José Fontelas Gomes.

O clima de intimidação é, segundo Pedro Henriques, "muito comum nas divisões secundárias e distritais", sobretudo "quando o árbitro chega ou sai do estádio", mas assegura que "no futebol profissional há mais proteção". Ainda assim, diz que os episódios desta semana, com a entrada de adeptos - alegadamente do FC Porto - no centro de treino da Maia, "não são normais". "Lembro-me apenas de, no Monte da Galega [centro de treino na zona de Lisboa], isso ter acontecido com um adepto", revelou.

Estas medidas adicionais de proteção dos árbitros, nomeadamente "o facto de a polícia vigiar o dia-a-dia dos árbitros e das suas famílias, não é nada de novo", segundo Pedro Henriques, dando a certeza de que "eles reagem muito bem" a este tipo de ações que "não implica uma mudança drástica das suas vidas". "O máximo que pode acontecer é mudarem algumas rotinas. Se calhar nessa semana não vão ao cinema, às compras e coisas desse tipo", acrescenta Pedro Henriques, garantindo até que "as famílias também estão habituadas e preparadas" para esta mudança.

Apesar da proteção que vão passar a ter, o antigo árbitro deixa a garantia de que este clima de intimidação "não altera nada as decisões que tomam dentro de campo". "A partir do momento em que estão no relvado tudo passa, qualquer problema pessoal ou de outro tipo são esquecidos", sublinhou, frisando que "os juízes dão uma resposta muito positiva após acontecimentos deste género". Pedro Henriques sustenta essa ideia pela forma de ser da classe: "O árbitro é muito egoísta, mais até do que o jogador, e quer sair por cima nos jogos. Quer deixar a melhor imagem, ser elogiado e ver nas televisões e nos jornais que o seu trabalho foi bom."

Na próxima quarta-feira vai realizar-se uma reunião entre os clubes e o Conselho de Arbitragem convocada de emergência, uma medida que Pedro Henriques acredita ser com o propósito de "fumar o cachimbo da paz". "José Gomes vai tentar passar a responsabilidade da resolução desta polémica para os clubes. Quando Sporting e FC Porto, os mais queixosos neste momento, perceberem as dificuldades das nomeações, vão entender que este clima não pode continuar", frisou o antigo juiz de Lisboa, convencido de que "irá ser explicado que as nomeações que têm sido feitas visam não desgastar os melhores árbitros, que ao contrário de outros anos, não têm sido sobrecarregados com os principais jogos".

Entre as medidas para melhorar a ação dos árbitros, Pedro Henriques considera que seria positivo "a divulgação das notas" atribuídas aos juízes, algo que "a FIFA não permite". "Sou ainda a favor que seja divulgado o relatório do árbitro três horas após o jogo", acrescenta, dando como exemplo a expulsão do portista Danilo Pereira no jogo com o Moreirense: "Se o relatório fosse divulgado já todos saberiam por que o árbitro lhe mostrou o segundo amarelo e as razões que o levaram a tomar a decisão."

Além disso, considera que o Conselho de Arbitragem "devia terminar com as nomeações às terças-feiras, nem que seja de forma temporária", pois assim "os clubes só saberiam quem é o árbitro quando ele chegasse ao estádio", o que diminuiria a pressão exercida.

Segurança pessoal aos árbitros

À semelhança de Pedro Henriques, o presidente do Conselho de Arbitragem deixou ontem a certeza de que "os árbitros não têm medo" do clima de ameaças e pressão que se tem verificado nos últimos dias. À saída da reunião com a PSP, José Fontelas Gomes revelou que o organismo a que preside "já tinha alertado para algumas ameaças", acrescentando que a reunião com as forças policiais teve que ver sobretudo com "o crescendo de ameaças dos últimos tempos por estarem a afetar também as famílias das equipas de arbitragem".

E, nesse sentido, deixou a certeza de que "as condições de segurança estão garantidas e os árbitros estão tranquilos, pois terão todas as condições para arbitrar", uma vez que considera "satisfatório o plano que foi traçado" pela PSP na reunião de ontem.

As autoridades policiais não revelaram, no entanto, o tipo de medidas adicionais que serão adotadas, mas o intendente Hugo Palma, das relações públicas da PSP, deixou a certeza de que continuará a ser acompanhada "a situação relativa à segurança de todos os agentes desportivos, designadamente a das equipas de arbitragem, de forma a garantir que todos têm condições para exercer livremente as suas funções".

Ao que o DN apurou essas medidas prendem-se, sobretudo, com a presença de elementos do corpo de segurança pessoal junto dos árbitros de maior risco, nomeadamente Artur Soares Dias, o alvo das mais recentes ameaças. A polícia irá também reforçar a presença de elementos à paisana junto de outros árbitros designados para os jogos considerados de maior risco.

Entretanto, fonte oficial do Sporting tinha apontado para o dia de ontem o anúncio de medidas a adotar na sequência da polémica no jogo do Bonfim, com o V. Setúbal. Contudo, a mesma fonte revelou ontem ao DN que os leões não se querem precipitar tendo em conta a decisão do Conselho de Arbitragem em convocar os clubes para uma reunião. Mas não é certo que até lá não se manifestem, o que dependerá em boa medida dos jogos deste fim de semana.

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