"Objetivos para o Rio 2016 eram realistas e até muito conservadores"

Entrevista DN/TSF a José Manuel Constantino, presidente do Comité Olímpico de Portugal e candidato único às eleições de dia 23

José Manuel Constantino é candidato único às eleições para a presidência do Comité Olímpico de Portugal, que se realizam já no dia 23. Nesta entrevista, fala do seu mandato anterior, dos objetivos que ficaram por cumprir nos últimos Jogos Olímpicos e respetivas justificações, no que pretende retificar no seu próximo mandato, as relações com o governo e enumera as principais medidas para o próximo triénio, com destaque para a criação das figuras de um diretor desportivo e de uma direção clínica.

Ser apoiado por 80% das federações foi o principal motivo que o levou a avançar para mais um mandato à frente do COP?

Sim, ser apoiado por um número significativo de federações. Quando tomei a decisão de anunciar a minha disponibilidade para me candidatar a um novo mandato do Comité Olímpico, creio que, nessa altura, tinha o apoio de 22, 23 federações. E portanto considerei que era um número mais do que suficiente para sentir aquilo que era a disponibilidade das federações desportivas e manifestar a minha disponibilidade para novo mandato.

Quando tomou a decisão? Porque depois dos Jogos do Rio 2016 disse que não sabia se ia avançar...

Na altura, logo após os Jogos Olímpicos do Rio, se tivesse de decidir se me candidataria a um novo mandato, teria dito que não. Imediatamente a seguir aos jogos era para não continuar.

Porquê?

Porque houve um conjunto de avaliações relativamente aos resultados desportivos que me criaram algum desconforto. E entendi que estava a remar num sentido para o qual não sentia muita companhia. Depois mudei de opinião porque a Comissão Executiva fez uma avaliação no sentido de que eu deveria continuar; houve um conjunto de federações desportivas que também me fizeram sentir a importância que tinha a minha continuidade; uma delegação de atletas fez-me chegar uma declaração de apoio; e depois, trocando impressões com parceiros institucionais e comerciais, entendi que existiam condições para continuar.

Falou em desconforto...

Tradicionalmente, quando as coisas não correm bem nos Jogos Olímpicos, a explicação encontrada é para questões de natureza sistémica, estrutural, de políticas desportivas, de financiamento, o desporto na escola. Confesso que estou um pouco cansado desta narrativa. Porque esta narrativa ajuda a explicar porque é que nós levamos tão poucas modalidades, porque é que levamos tão poucos atletas, porque é que a nossa elite desportiva é tão circunscrita, mas não ajuda a perceber porque é que um conjunto de atletas que, tendo bons resultados durante o período dos quatro anos anteriores aos Jogos, não os consegue confirmar e até superar quando os Jogos ocorrem. Porque o valor, esse, já foi demonstrado! Se ele é demonstrado em períodos anteriores aos Jogos, porque é que não se consegue concretizar durante o período dos Jogos? E por isso quis travar um pouco esse tipo de avaliação e, na altura, senti-me relativamente isolado, devo confessar.

Vamos falar do que aconteceu nos Jogos Olímpicos do Rio. A esta distância, acha que os objetivos propostos eram realistas ou não existiu resposta adequada dos atletas? Na altura admitiu que os resultados tinham ficado aquém das expectativas...

Os objetivos eram realistas. Os resultados é que não conseguiram aproximar-se, ou melhor, aproximar-se, aproximaram, mas não conseguiram atingir as metas propostas. Os objetivos eram até, se me permite esta expressão, muito conservadores. Porque nós, durante quatro anos antes dos Jogos, tivemos dezenas de pódios em Campeonatos da Europa, em Campeonatos do Mundo, em Taças do Mundo em cinco ou seis modalidades desportivas. Por isso, quando me perguntavam quantas medalhas esperávamos ter nos Jogos do Rio de Janeiro, nunca lancei o número, mas disse que acreditava que em cinco ou seis modalidades havia possibilidades.

Ou seja, potencialmente era possível ter trazido melhores resultados...

Não era nenhum exagero, nenhuma especulação nem nenhum sonho alto esperar que houvesse medalhas, por exemplo, na canoagem, no taekwondo ou no futebol. Ou mesmo no ténis de mesa, no hipismo ou no tiro. Era perfeitamente expectável. Tendo em conta que estamos a falar de atletas que tinham sido campeões do mundo, vencido Taças do Mundo, era perfeitamente razoável admitir essa possibilidade.

A verdade é que não houve...

Não foi possível, pese embora a circunstância de termos tido um significativo número de bons resultados para o contexto de uns Jogos Olímpicos. Há um terço da nossa delegação que teve resultados excecionais: na marcha, na canoagem, apesar de neste caso particular o nosso grau de exigência ser muito alto. Agora, há dois terços de um conjunto muito significativo de atletas que, de facto, ficaram significativamente aquém - sobretudo em modalidades individuais - das marcas, das posições que já tinham alcançado. E, portanto, só posso entender isto não por ausência de valor do atleta mas porque os momentos de forma, naquela circunstância, não foram os melhores. E é isso que, do meu ponto de vista tem de ser estudado, tem de ser identificado, porque nós não conseguimos adequar uma terapêutica própria se não fizermos um bom diagnóstico.

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