O trio dourado da acrobática que conseguiu derrotar o poderio russo

Beatriz, Joana e Rita fizeram o pleno de medalhas de ouro (três) nos Europeus de juniores, numa proeza rara

Em setembro do ano passado, Lourenço França decidiu alterar a composição de alguns dos grupos de ginástica acrobática que treina no Acro Clube da Maia. A ideia era "proporcionar novas experiências" e "diversificar a formação" das ginastas, "muito novas para fazerem sempre a mesma coisa", conta o treinador.

Por isso, Joana Moreira e Rita Ferreira, até aí habituadas a competir como um par, já com várias medalhas internacionais no currículo, ganharam a companhia de Beatriz Carneiro, que veio de outro par, também medalhado, e formaram um novo trio júnior feminino. Um ano depois, dificilmente a reunião entre Joana (14 anos), Rita (18) e Beatriz (17) poderia ter resultado mais feliz: no fim de semana passado, o trio maiato arrebatou três medalhas de ouro nos Europeus de acrobática, conseguindo no seu escalão um raro pleno de títulos que, asseguram, "só as russas já tinham conseguido, uma vez".

Já habituadas a ter de fazer esquemas "muito melhores" do que os das equipas russas - "há o peso histórico de um país com mais de 80 anos de tradição e que é a principal potência da modalidade", diz Lourenço França -, as meninas do novo trio dourado da ginástica acrobática nacional conseguiram superar o poderio de Leste em todas as três categorias da disciplina: equilíbrio, dinâmico e all-around.

Para trás ficou um ano de trabalho intenso, com "treinos diários de quatro a cinco horas", revelam, à exceção dos domingos, dia de folga, e dos sábados, em que o treino se "limita" a três horas. "Menos para as volantes, que é quatro", esclarece Joana, a mais nova e mais leve das três - e que, por isso, exerce a função de volante, o elemento que é atirado ao ar, nos exercícios mais arriscados, pelas duas bases, mais fortes.

Uma grande dose de dedicação a que já estão habituadas desde cedo. Rita Ferreira, a mais velha do trio, começou na acrobática "aos 7 anos", por "decisão dos pais", e foi "aprendendo a gostar até decidir a sério pela competição", por volta dos 10. Joana Moreira, a mais nova, também começou aos 7 anos e escolheu a ginástica por influência das acrobacias do Sportacus e da Estefânia na Vila Moleza (um programa infantil). No caso de Beatriz Carneiro, foi mesmo ela, aos 10 anos, a convencer os pais, que "no início não gostavam muito da ideia".

De então para cá, garantem, nunca se arrependeram da escolha. "Pelo contrário", mesmo se sentem que o reconhecimento dos seus feitos é, geralmente, "discriminado" em relação a outros desportos ou até outras vertentes da ginástica. É que, ao contrário dos ginastas de artística, rítmica ou trampolins, os da acrobática não podem aspirar aos Jogos Olímpicos, não têm direito a bolsas de preparação ou sequer ao estatuto de alta competição porque, "ainda para mais, a disciplina está catalogada como modalidade individual, quando elas competem de forma coletiva e sob o nome de Portugal, o que dificulta as condições de acesso ao estatuto previstas na lei", explica o treinador. "Elas são umas campeãs da Europa que pagam para treinar e para competir", resume Lourenço França.

As ginastas confessam "um certo vazio" que nunca será preenchido. "Toda a gente gostava de ir aos Jogos", diz a pequena Joana. "É o sonho de qualquer atleta, é uma experiência que marca para a vida", reconhece Beatriz. Todas têm a esperança de que a participação, pela primeira vez, da acrobática (através dos pares mistos) nos próximos Jogos Olímpicos da Juventude, em 2018, "abra as portas" para o objetivo maior.

Enquanto isso não acontece, mesmo sem Jogos Olímpicos, bolsas ou outros benefícios, continuam felizes na acrobática. E já estão empenhadas a fundo no novo desafio: os Mundiais na Bélgica, em abril do próximo ano, onde vão competir pela primeira vez como seniores. "O grau de dificuldade aumenta e a concorrência também", diz Rita. "A Rússia é ainda mais forte nos seniores, eles lá conseguem ser profissionais", acrescenta Joana. Mas nada disso retira a ambição ao novo trio dourado da ginástica portuguesa, que promete continuar a lutar por mais pódios e medalhas. A Rússia (e restante concorrência) que se cuide.

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