Onde é que o futebol perdeu a coragem de falhar?

Raquel Baptista Lopes

Coordenadora Digital do Diário de Notícias

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O futebol costumava cheirar ao cimento do recreio e aos joelhos esfolados de tanto cair no chão. Nascia nos intervalos das aulas ou na rua de casa, onde as balizas eram feitas com duas mochilas atiradas para o chão. Não havia redes nem barreiras a separar o campo do resto do mundo, e a bola acabava, invariavelmente, por ir parar às mesas ali ao lado ou por esbarrar em pessoas que iam a passar. Nesses recintos improvisados, onde sobrevivia quem fintava melhor os buracos no chão, imperava o instinto. O engano. Aquela malícia tática que não vem nos manuais, que apenas se herda nas ruas da nossa infância.

Hoje, quando olhamos para os relvados imaculados deste Mundial 2026, com a relva cortada à régua e esquadro sob a luz fria de estádios saídos de um filme de ficção científica, a pergunta que fica no ar: para onde foi este futebol?

A resposta não se vê da bancada. Está escondida naqueles pequenos coletes com GPS que os jogadores usam por baixo da camisola de jogo. Entrámos, de vez, na era da “Geração Algoritmo”. Um tempo em que o futebolista deixou de ser um miúdo sonhador para ser um produto de laboratório, calibrado desde menino. Um tempo em que as academias deixaram de ser viveiros para passarem a ser fábricas de rendimento. Um tempo em que tudo é medido, pesado e vigiado: os mapas de calor, a velocidade do sprint, a probabilidade matemática de cada passe culminar num golo. 

Mecânico. Eficiente. Clínico.

O improviso puro, aquele drible irresponsável que não obedece a nada mas que levanta um estádio inteiro, foi engolido pela ditadura da estatística. Quem tenta inventar fora do guião é logo corrigido. A ordem é não perder a bola. A ordem é não arriscar. A ordem é seguir cegamente o que está desenhado no ecrã do treinador.

Para quem cresceu na altura de viragem do milénio, como eu, este choque bate ainda mais forte. Nós não aprendemos a gostar de futebol agarrados a máquinas de calcular ou a mapas de calor. Fomos, antes de mais, herdeiros das maravilhas deixadas por deuses como Pelé, "o Rei", e Maradona, “D10S”. 

Eles continuam a ser a bitola do impossível. Basta pensar no Maradona e naquele mítico aquecimento ao som de Live is Life. Enquanto o resto da equipa cumpria a sua rotina tática e rigorosa, lá estava ele. Gingão e embalado com a bola, de chuteiras desapertadas, a sorrir para o público. Uma anarquia feliz que, hoje, lhe valeria provavelmente um olhar censurador do treinador por se pôr com invenções no aquecimento.

Foi com essa herança rebelde que fomos ao delírio com o Ronaldinho Gaúcho, "o Bruxo", com o Ronaldo, o eterno "Fenómeno", ou com o Figo, o nosso eterno "Capitão". A nossa imaginação foi alimentada por essa fantasia, imortalizada naqueles antigos anúncios do Joga Bonito. Quem não se lembra daquele anúncio da Nike antes do Portugal-Brasil? Aquele em que os jogadores transformavam os túneis e os balneários num recreio autêntico. “Olés”, cuecas, fintas do meio da rua, para no fim entrarem no relvado esgadafunhados e a rir, antes sequer de o apito inicial. Aquele anúncio não vendia chuteiras; vendia a alma do jogo. A promessa de que a bola era um brinquedo, não um vetor matemático.

Hoje, a régua com que medimos o estatuto de GOAT ficou gelada. E a figura dessa transformação tem um nome incontornável: Cristiano Ronaldo.

Cristiano Ronaldo é o oposto do génio desregrado; ele é a vitória absoluta do esforço contra a biologia. 

O atleta supremo, feito de banhos de gelo de madrugada e de uma obsessão quase desumana pela perfeição. Provou que, com dedicação cega, o ser humano transforma-se numa máquina imbatível. Mas, ao fazê-lo, mudou o que exigimos aos ídolos. Passámos a discutir futebol como contabilistas. Debatemos quem é o melhor atirando folhas de Excel para cima da mesa: rácios, recordes, percentagens.

Tudo isto é impressionante. Mas traz uma melancolia difícil de disfarçar. O futebol moderno ganhou pavor de falhar. A eficácia engoliu a magia.

Se limparmos demasiado o jogo, arrancamos-lhe a alma. Nós, do lado de cá, até podemos bater palmas a super-atletas que correm 12 (ou mais) quilómetros por jogo, mas o que nos arranca um grito às entranhas é aquilo que algoritmo nenhum prevê. 

Faz-nos falta o erro, a finta à escovinha que não faz sentido, a energia de quem entra em campo com o coração na relva e despenteado de tanto brincar. Porque o futebol ganhou o mundo por ser um espelho da vida. 

E a vida, por muitos dados que se recolham, não dá para pôr numa folha de cálculo.

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