De quatro em quatro anos, há sempre um entusiasmo geral com os Mundiais. Veja-se a atual febre das cadernetas de cromos. Também sinto essa empolgação, até porque as possibilidades de Portugal chegar longe são elevadas, mas, quando olho para trás, fico com a sensação de que os Campeonatos do Mundo perderam alguma aura nos últimos anos.Aqueles jogadores que me venderam na infância como tendo sido os melhores de sempre, como Pelé, Eusébio, Cruyff ou Maradona, alicerçaram esse legado sobretudo em Mundiais. E quando remonto às minhas primeiras memórias futebolísticas, sentia que não havia melhor equipa à face da Terra do que aquela seleção francesa campeã mundial (1998) e europeia (2000), com Zidane, Henry, Trezeguet, Desailly, Barthez, Thuram, Vieira, Pirès e outros. Olhava para o Brasil e via Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Cafu e Roberto Carlos. Na seleção italiana havia Maldini, Del Piero ou Totti. Inglaterra tinha David Beckham e Michael Owen, dois dos melhores do mundo na viragem do milénio. E sentia, que à exceção de um ou outro caso, como Shevchenko ou Ryan Giggs, os melhores estavam nestes grandes torneios.Nessa altura o talento estava muito bem distribuído entre ligas e clubes, o que até permitiu que Deportivo da Corunha, Valencia, Lazio e Roma ganhassem campeonatos. O Bayern Munique não era tão hegemónico na Alemanha e França tinha praticamente um campeão diferente todos os anos. Até em Portugal, na mesma altura, o Boavista foi campeão e o Sporting quebrou um jejum de 18 anos sem o título nacional.Mas, atualmente, sinto que é ao contrário: os grandes clubes é que são as verdadeiras seleções. O crème de la crème está distribuído por Paris Saint-Germain, Bayern, Manchester City, Barcelona, Real Madrid e pouco mais. Os melhores jogadores estão na Liga dos Campeões, sobretudo a partir das fases adiantadas. E as seleções, mesmo as mais cotadas, parecem ser uma espécie de manta retalhos onde estão misturados candidatos à Bola de Ouro e jogadores medianos.No que concerne à qualidade do espetáculo, o alargamento para 48 seleções não vem ajudar. Bem pelo contrário. Mas o que mais desgosto é este método de apuramento para os 16 avos de final que vai premiar os oito melhores terceiros classificados de cada grupo. Quando começar a terceira jornada, os primeiros jogos até poderão ser genuínos, mas, nos derradeiros dias, as seleções entrarão em campo já a saber exatamente o que terão de fazer para avançar no torneio e, inclusivamente, que resultado servirá às duas que se vão defrontar, o que poderá potenciar os chamados “arranjinhos”. O primeiro arranjinho que ficou famoso em grandes torneios aconteceu no Mundial 1982, quando a Alemanha bateu a Áustria por 1-0 na última jornada da fase de grupos, um resultado que serviu a ambas as seleções e prejudicou a Argélia, que havia disputado o seu derradeiro encontro no dia anterior. O caso ficou conhecido como a “Desgraça de Gijón”. Daí para cá, a FIFA passou a colocar sempre os jogos da última jornada de um grupo à mesma hora do mesmo dia, mas, com a questão dos melhores terceiros a envolver todos os grupos, o problema volta a colocar-se.Outro dos arranjinhos mais polémicos dos grandes torneios aconteceu em Portugal. No Euro 2004, Suécia e Dinamarca sabiam que um empate a dois ou mais golos no Bessa daria a ambas o apuramento para os quartos de final e eliminaria Itália, que à mesma hora defrontava a Bulgária em Guimarães. E a verdade é que se registou mesmo um empate 2-2.Como diz um ditado popular espanhol: “No creo en brujas, pero que las hay, las hay."