O lançamento da avozinha voltou pelas mãos de Onuaku

Poste dos Houston Rockets adotou estilo celebrizado por Rick Barry: "Sei que me vão gozar, mas só quero que a bola entre"

Rick Barry retirou-se da NBA em 1980 como o melhor marcador de lances livres da história da liga, com uma percentagem de acerto de 90%. Mais ainda do que a estatística, foi a forma como efetuou esses 3818 lançamentos que o eternizou na memória coletiva. Barry atirava ao cesto com as duas mãos por baixo da bola, de baixo para cima, num estilo geralmente caricaturado como o "lançamento da avozinha".

A Rick, um MVP tanto das Finais da NBA (1975) como do All-Star Game (1967), as piadas sobre os seus lançamentos livres não o impediram de construir uma imagem de marca plena de sucesso na mais exigente liga de basquetebol do mundo. Agora, 36 anos depois de Rick Barry se ter retirado nos Houston Rockets - após uma carreira de 15 anos que passou pelos San Francisco/Golden State Warriors, New York Nets e Oakland/Washington Caps, estes últimos na liga ABA -, o "lançamento da avozinha" voltou à NBA pelas mãos de outro jogador dos Houston Rockets, o rookie Chinanu Onuaku, que marcou assim dois lances livres no seu jogo de estreia na liga, na madrugada de terça-feira, frente aos Phoenix Suns.

O extremo-poste de 20 anos, e de 2,06 metros, já tinha chamado a atenção do universo basquetebolístico com esta decisão de recuperar o lançamento que popularizou Rick Barry no seu segundo e último ano na Universidade de Louisville, na antecâmara da NBA.

Depois de uma primeira época em que sofreu bastante com as suas idas para a linha de lance livre, acertando apenas 46,7% dos lançamentos tentados, Onuaku deu ouvidos aos conselhos do treinador Rick Pitino, que lhe mostrou alguns vídeos de Rick Barry e o incentivou a tentar lançar assim ao cesto. O poste de ascendência nigeriana resolveu experimentar e os efeitos foram visíveis na temporada seguinte, quando a percentagem de lances livres concretizados subiu para 59%.

Desde que foi escolhido pelos Houston Rockets na segunda ronda do draft da NBA, em julho passado, que os adeptos e media norte-americanos aguardavam pelo momento de ver Onuaku tentar um lance livre num pavilhão da liga profissional. Depois de uma amostra numa partida da pré-época, na China, o momento "oficial" chegou na madrugada de ontem.

Onuaku, que tinha passado a maioria do tempo até agora nos Rio Grande Valley Vipers, filial dos Rockets na D-League (liga secundária da NBA), foi chamado pelo técnico Mike D"Antoni à equipa principal desde a lesão do suíço Clint Capela. Frente aos Phoenix Suns, com a equipa de Houston a assegurar bem cedo uma vitória folgada (131-115), o treinador lançou o rookie em campo nos últimos quatro minutos. A 2.46 do fim, Onuaku sofreu uma falta e pôde então recuperar oficialmente o "lançamento da avozinha" para a NBA.

"Sei que me vão gozar, mas não me importa o que as pessoas possam pensar. Desde que a bola entre... O que me importa é apenas melhorar e mostrar que posso jogar nesta liga por muito tempo", disse no último verão.

Num campeonato em que muitos dos melhores postes sofrem com os lançamentos livres - Andre Drummond, dos Detroit Pistons, tem menos de 40% de acerto; DeAndre Jordan, dos La Clippers, pouco mais -, Onuaku não quer que este seja fator de exclusão na carreira e não percebe porque é que não há mais jogadores a "pôr de lado o orgulho" e adotar um estilo que melhora a percentagem de acerto.

Rick Barry, hoje com 72 anos mas ainda no top 10 (7.º) dos melhores jogadores da história da NBA desde a linha de lance livre, também não percebe. "É muito mais natural lançar desta maneira. Porque é que têm problemas com isso? Por ser "pouco ortodoxo"? Humilhante é um jogador não passar dos 35% em lançamentos livres", comentou o antigo jogador à Sports illustrated. "Deus o abençoe [a Onuaku] por ter a coragem de ser diferente. Admiro-o pelo simples facto de tentar", acrescentou o antigo base, que adotou o "lançamento da avozinha" por conselho do pai.

Nessa altura, na década de 1960, Barry também teve receio de "ser gozado". Mas a resposta do pai convenceu-o: "Não te vão gozar se meteres a bola no cesto." Foi o que ele fez em 90% das tentativas.

Onuaku também sabe disso. No final do jogo com os Suns, o poste dos Rockets admitiu: "Estava nervoso como o diabo. Ainda bem que eles entraram." Para já, a nova "avozinha" da NBA leva 100% de eficácia.

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