O clube-embaixador do talento açoriano sonha chegar mais além

Praiense visita Sporting (20.15) com equipa made in Açores. "É o jogo da vida deles, numa montra única", assume o líder

No meio das dificuldades, eles preferem falar do "orgulho enorme de representar a Praia da Vitória, a ilha Terceira e os Açores". Essa é a bandeira do Praiense e dos seus atletas. O clube - que hoje visita o Sporting, para a 4.ª eliminatória da Taça de Portugal (20.15, Sport TV1) - veste o fato de embaixador do futebol da região autónoma. E é com a prata da casa (77% de atletas açorianos) que ambiciona chegar mais além e espreitar a subida às liga profissionais.

Esta podia ser a história das limitações das equipas açorianas, com menos matéria-prima e maiores contratempos no dia-a-dia, e dos obstáculos enfrentados pelos futebolistas do arquipélago, que nem sempre conseguem fazer carreira fora da ilhas. Também o é. Todavia, o presidente, Marco Monteiro, e o capitão do Praiense, André Vieira, preferem dar voz ao orgulho e à ambição da equipa, que hoje vive "o ponto mais alto da sua história".

O líder da Série F do Campeonato de Portugal e ainda invicto esta época (ao fim de 13 jogos, entre campeonato e Taça), visita Alvalade numa semana especial: o clube celebrou o 69.º aniversário na segunda-feira e o treinador, Francisco Agatão, completa 56 anos amanhã. "A melhor prenda que podíamos pedir era a vitória sobre o Sporting", nota Marco Monteiro. Haja ou não uma surpresa, o objetivo é "representar os Açores com carácter, dignidade e ambição".

Ao contrário do Santa Clara [II Liga, com quatro açorianos no plantel], o Praiense ainda é uma equipa made in Açores (17 dos 22 jogadores), que hoje tem uma oportunidade irrepetível para dar nas vistas. "Temos jovens com muito talento para despontar no futebol português. Este é o jogo da vida deles, estão numa montra única", assume o presidente.

O mesmo reconhece André Vieira, guarda-redes que tem sido titular na Taça de Portugal. "Há cá belíssimos jogadores. Muitos têm qualidade bastante acima da média, e até podiam dar outro Pedro Pauleta... mas não temos a visibilidade do resto do país", aponta o capitão.

O guardião, de 34 anos, é um dos que nunca deram o salto para fora da Terceira (é também um dos quatro elementos do plantel que conciliam o futebol com um trabalho fora dos relvados). "Tive propostas para sair [dos Açores] mas não era nada de aliciante", explica. Contudo, mostra-se orgulhoso no crescimento do Praiense (leva 16 anos de clube) e no seu papel na afirmação do futebol açoriano. "Nos últimos anos, chegaram as pessoas certas para ajudar o clube e temo-nos afirmado a nível nacional. Temos cinco ou seis escalões de formação. E, com jogadores de Terceira, São Miguel, São Jorge e Pico [na equipa sénior], estamos a defender a bandeira dos Açores", diz André Vieira.

Com um dos treinadores continentais que melhor conhecem o futebol açoriano [Francisco Agatão, que dirigiu o Operário de 2005 a 2013 e chegou à Terceira esta época, ver entrevista à direita] e com alguns reforços cirúrgicos de fora do arquipélago (incluindo um cabo-verdiano, um guineense e um costa-marfinense), "para dar mais soluções ao plantel", compôs-se a equipa. "Não se consegue chegar a outros patamares só com jogadores açorianos... até porque eles não são suficientes para todo o arquipélago, que tem cinco equipas no Campeonato de Portugal", aponta Marco Monteiro.

No entanto, o presidente do clube não se queixa de falta de matéria-prima. "O principal problema são as constantes viagens" para o Continente e toda a logística associada. "Para ir jogar com o Alcanenense [sábado passado, às 15.00], saímos daqui na sexta-feira às 18.00 e só chegámos à Terceira no domingo de manhã, para fazer treino logo a seguir", conta o dirigente. Ainda assim, isso não lhe limita a ambição. Esta época, o objetivo do Praiense é "voltar a participar na fase de subida do Campeonato de Portugal e, lá chegado, pensar jogo a jogo... para fazer as contas no final". E Marco Monteiro não têm dúvida quanto ao valor da sua equipa made in Açores: "Estes jogadores têm qualidade para chegar à II Liga."

A lógica açoriana de Agatão

"São 17 jogadores açorianos num plantel de 22 e acho que deve ser mesmo assim. Estando num arquipélago, o clube não tem capacidade financeira para trazer muitos jogadores do Continente. A aposta tem de ser promover os jovens açorianos, os que mostrem vontade de chegar ao outros patamares. É essa a lógica que pretendemos manter", diz ao DN Francisco Agatão.

O técnico do Praiense aponta que "a diferença de treinar nos Açores passa mais pelas limitações das viagens e da organização de jogos do que pelos atletas". "O jogador açoriano tem cada vez mais qualidade. Aqui, há sempre o desejo de fazer o melhor possível para valorizar e dar a conhecer o jogador açoriano. E eu devo ser dos treinadores continentais que mais visibilidade lhes tem dado, àqueles que correm e lutam por se afirmar", diz.

O jogo desta noite será especial para Francisco Agatão, que chegou a trabalhar em Alvalade na época 1997-98, então como adjunto de Carlos Manuel: "É sempre agradável reencontrar o Sporting e para muitos dos nossos jogadores será uma oportunidade única de defrontar um clube desta dimensão. Cabe-nos transmitir-lhes essa vivência para que se sintam mais à vontade. Sabemos que eles são mais fortes. Nós temos uma pequena percentagem de hipóteses, não vai ser fácil, mas queremos dignificar o clube e deixar uma boa imagem da ilha e dos Açores."

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