"Não podemos continuar a saber da saúde dos atletas uma semana antes dos Jogos Olímpicos"

Segunda parte da entrevista DN/TSF a José Manuel Constantino, presidente do Comité Olímpico de Portugal e candidato único às eleições de dia 23

Uma das principais novidades do seu programa prende-se com a criação da figura de um diretor desportivo. Porquê? Era uma lacuna que foi identificada na sequência do que se passou nas Olimpíadas do Brasil?

A seguir aos Jogos fizemos uma avaliação com os atletas, as federações e a própria Comissão Executiva fez a sua avaliação. Recolhemos de todas essas avaliações um conjunto de indicações que nos permitiram detetar algumas fragilidades do ponto de vista da nossa organização. Quais são essas fragilidades? A área clínica e a área desportiva. Portanto, temos de nos organizar...

A criação de uma direção clínica é outro dos seus objetivos para este mandato, ou seja, também nesta área era preciso mudar algo...

Temos de nos organizar de modo a que o estado de saúde dos atletas não seja do conhecimento da comissão médica do Comité Olímpico apenas uma semana antes de arrancarem os Jogos. Isto não é possível!

Isso aconteceu nos Jogos do Rio?

No Rio e em situações anteriores.

Como é possível um atleta ir aos Jogos sem estar nas melhores condições físicas?

Porque, contrariamente ao que se possa imaginar, há um conjunto de modalidades e federações desportivas que têm no plano da sua organização médica muitas debilidades. Por isso, esta insuficiência e esta ausência fazem que também não seja possível articular com o departamento médico do Comité Olímpico todas as informações. Nós temos de ter um departamento médico do Comité - à escala dos quatro anos, não é oito dias antes de irem para os Jogos - que consiga articular-se com todas as federações desportivas e em alguns casos intervir diretamente junto dos atletas no âmbito daquelas modalidades em que estas insuficiências são mais detetadas, porque há federações que têm bons departamento médicos mas há outras que não têm. Portanto, temos de intervir e temos de ter esta figura do diretor clínico que articula, monitoriza e acompanha o estado de saúde dos atletas, juntamente com as federações desportivas e respeitando todos os protocolos de reserva de intimidade e de proteção de dados que situações desta natureza justificam.

Voltando ao diretor desportivo. Já tem algum nome escolhido?

Não, mas tenho o perfil.

E qual é?

Tem de ser alguém ligado ao treino, alguém com experiência de competição, desejavelmente alguém com um perfil de autoridade junto das diferentes modalidades desportivas e que seja reconhecido como um especialista na matéria, com experiência e maturidade. Porque se trata de articular um processo de acompanhamento de modalidades muito distintas, até em desportos coletivos, oxalá eles existam e possam participar nos Jogos. Portanto, tem de ser alguém que, enfim, mal comparado, um Moniz Pereira de há 40 anos.

Mas certamente já pensou em nomes...

Nomes tenho, com certeza, mas naturalmente tenho de conversar sobre este assunto com a Comissão Executiva, depois de tomar posse e dialogar com os meus colegas para concertarmos uma solução que seja a melhor possível para a preparação olímpica e para o apoio às nossas federações.

O nome do novo diretor desportivo será conhecido ainda antes das eleições de 23 de fevereiro?

Não, não, até porque não preciso de trunfos eleitorais.

Voltando um pouco atrás, lamenta não existir mais nenhuma candidatura nem ter aparecido ninguém a querer candidatar-se à presidência do COP?

Não foi bem assim. Ainda os Jogos não tinham ocorrido e já havia movimentações no sentido de se organizar uma candidatura diferente desta - na altura não se sabia se seria alternativa ou não, porque eu ainda não tinha dado nenhum sinal se iria concorrer. E houve até um dia em que ocorreram três entrevistas aos três jornais desportivos dadas pela mesma pessoa, manifestando a sua disponibilidade e vontade de ser candidato ao Comité Olímpico de Portugal. O trabalho de auscultação de eventuais apoios para uma outra candidatura aconteceu há relativamente pouco tempo.

Foi então a falta de apoios que levou a que essa pessoa não avançasse?

As federações entenderam que aquilo que se prefigurava não era suficientemente razoável que justificasse que as federações se mobilizassem em torno dessa candidatura e, portanto, não a apoiaram. Creio que a explicação simples é que não a apoiaram. Não houve apoios, não houve candidatura!

Em relação à sua equipa. Considera-a mais forte? Quais são as grandes diferenças em relação à anterior?

Creio que o próximo mandato vai ser mais difícil, mais complexo, mais duro, se a expressão me é permitida. E isso exige uma equipa mais forte, conhecedora e com mais experiência daquilo que são os meandros do movimento associativo, das federações desportivas, das dinâmicas federativas. E, nesse sentido, procurei constituir uma equipa que aliasse experiência, essa maturidade e esse conhecimento, com uma nova geração de dirigentes desportivos que entretanto surgiram, até por força de alterações que houve em algumas federações desportivas. A construção das listas é feita em conversações com as federações apoiantes, subscritoras. É essa a tradição, é essa a regra, em Portugal como em qualquer outra parte do mundo. E portanto houve em algumas federações desportivas alterações a nível das suas lideranças e entenderam também que deveriam escolher outras pessoas para estarem representadas na Comissão Executiva do Comité Olímpico de Portugal. Concertei com essas federações o perfil das pessoas e tenho uma equipa que alia estas duas vertentes: experiência, maturidade e conhecimento com alguma juventude.

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