Mundial 1962: Garrincha também foi Pelé

Mané Garrincha: foi ele próprio, foi Pelé (lesionou-se logo ao segundo jogo), foi o génio do segundo título consecutivo do escrete

O prenúncio do Mundial 1962, no Chile, foi pavoroso. A 22 de maio de 1960, o terramoto de Valdivia, o maior da história (9.5 de magnitude), matou até duas mil pessoas, feriu três mil e deixou dois milhões desalojados e fez-se sentir um pouco por todo o Mundo. A FIFA manteve a organização da prova entregue àquele país sul-americano, e o Chile esteve envolvido na infame "Batalha de Santiago", frente à Itália, com violência indiscriminada. A pairar sobre tudo isto, Mané Garrincha: foi ele próprio, foi Pelé (lesionou-se logo ao segundo jogo), foi o génio do segundo título consecutivo do escrete.

Logo na fase de grupos, um jogo histórico pela violência levada ao extremo, a 2 de junho. Uma sucessão de confrontos físicos, de cuspidelas, socos e pontapés. A imprensa italiana não ajudou ao fazer retratos preconceituosos do país, caricaturando o Chile como um atraso de vida em que dominavam as prostitutas, a decadência e o atraso de vida. "Santiago é terrível," escreveu numa crónica dantesca Corrado Pizzinelli no jornal La Nazione. O jornalista foi obrigado a sair do país para evitar o que acabou por acontecer a... um argentino. Confundido com um repórter italiano, o jornalista foi espancado num bar e acabou hospitalizado.

Percebe-se, por tudo isto, que o Chile - Itália (já agora, acabou com triunfo caseiro por 2-0, que acabaria por fazer cair os italianos na fase de grupos) tinha tudo para correr mal. E correu pior: dois jogadores italianos expulsos, uns quantos que permaneceram em campo apesar de agredirem violentamente adversários e quatro intervenções policiais para minimizar o impacto da violência.
O árbitro inglês Ken Aston foi duramente criticado por ter sido demasiado brando e permissivo, mas retirou as conclusões que lhe permitiram ser o chefe dos árbitros no Mundial 1966 e, mais definitivo, criar o sistema de cartões amarelos e vermelhos, que transformou vários desportos. Ainda assim, só no Mundial 1970 começaram a ser utilizados.

Portugal, outra vez, falhou a presença numa qualificação com Inglaterra e Luxemburgo em plena era dourada do Benfica de Coluna e Eusébio, que era bicampeão europeu (o "king" só participou do segundo triunfo). E falhou essencialmente porque perdeu escandalosamente no Luxemburgo por 2-4 (em Lisboa havia goleado por 6-0). Para cúmulo, neste torneio a arbitragem lusa não teve representantes.

Neste Mundial, acabaram-se definitivamente as transferências de jogadores entre seleções, e não quaisquer jogadores: o argentino Di Stéfano, o húngaro Puskas e o uruguaio Santamaria alinharam pela Espanha; os brasileiros Mazola (Altafini no título de 1958) e os argentinos Maschio e Sivori representaram a Itália.

A aura negativa que pairava no Chile, porém, não arranhou o futebol virtuoso de Jugoslávia, Checoslováquia e Brasil, que chegaria ao bicampeonato, apesar da deceção União Soviética, a campeã europeia de 1960 liderada por Lev Yashin (responsabilizado por dois golos na eliminação frente ao Chile nos quartos-de-final). Por contraponto, Itália e Alemanha Ocidental deram, pela primeira vez, grande expressão internacional ao catenaccio inventado por Nero Rocco, em 1947, como treinador do Triestina (os italianos não passaram da fase de grupos, os germânicos caíram a seguir, nos quartos-de-final).

O Brasil, campeão em título, trocou o treinador Vicente Feola por Aymoré Moreira, que na década de 70 treinaria na Invicta (72/74 o Boavista; 74/75 o FC Porto). Mas grande mudança foi o adiamento da afirmação definitiva de Pelé na "Copa": já no topo do Mundo como Rei, Edson Arantes do Nascimento ainda marcou um golo no primeiro jogo (2-0 ao México, também marcou o eterno Zagallo), mas lesionou-se no segundo ao tentar marcar um dos seus golos fora de órbita (e o Brasil empatou com a Jugoslávia, com a qual ajustaria contas na final: 3-1, no único jogo que não venceu no Mundial 1962). E vinte e quatro anos antes de um jogador carregar uma equipa no seu dorso de ouro até ao título (Maradona, Argentina, México 1986), Mané Garrincha elevou-se a uma potência inatingível. Zombou de adversários (um apelo que era mais forte do que ele - por vezes, depois de ultrapassar um jogador, chegava a voltar para trás para o fintar novamente), fez golos, fez quase tudo. Claro que não foi bem a mesma coisa do que faria posteriormente D10S (Diego Armando Maradona), porque a canarinha tinha Gilmar na baliza, e muitos craques em campo: Djalma Santos, Zito, Didi, Amarildo, Zagallo e o senhor Vavá, "Peito de Aço". Vavá e Garrincha acabaram no grupo dos seis melhores marcadores (quatro golos). E o "Peito de Aço" tornou-se o primeiro de quatro históricos a marcar em duas finais (o único em jogos decisivos consecutivos - dois em 1958 e um em 1962), a que juntariam Pelé (bis em 1958 e um golo no México 1970), Paul Breitner (1974 e 1982) e Zinedine Zidane (bis em 1998 e um na tristemente célebre de 2006, em que foi expulso).

E em sete mundiais havia três bicampeões: Uruguai (1930 e 1950) Itália (1934 e 1938) e Brasil (1958 e 1960). Orgulhosamente só seguia a República Federal da Alemanha, com a vitória em 1954.

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