Mau tempo não trava a meia maratona mas pode afetá-la

Com o vento a tornar muito difícil o objetivo recorde, eritreu Zersenay Tadese corre pela quarta vitória em Lisboa. Hoje, a organização decide se ativa o plano B, sem saída da ponte

O início talvez não seja na Ponte 25 de Abril e o final dificilmente terá um novo recorde mundial. A 28.ª edição da Meia Maratona de Lisboa sai para a estrada amanhã (10:30, transmissão na RTP1), condicionada pelo mau tempo: quão afetada saber-se-á hoje, após a reunião que vai determinar se é necessário ativar o plano B (que prevê que a partida seja feita da zona de Sete Rios).

O agravamento das condições climatéricas que afetam todo o país [sob efeito da tempestade Félix, ver também pág. 18] deixou em suspenso a corrida do eritreu Zersenay Tadese (desafiado pela restante elite africana) pela quarta vitória em Lisboa e fixação de um novo recorde mundial da meia maratona. Afinal, o mau tempo não trava a corrida lisboeta, mas pode afetá-la.

A tradicional partida da Ponte 25 de Abril poderá ser substituída por um percurso alternativo, devido às previsões de vento forte, que deixam o distrito de Lisboa sob aviso amarelo entre as 15.00 de hoje e as 21.00 de amanhã. "Pensamos seriamente em partir da ponte. No entanto, o plano B já está acionado", explicou, ao DN, Carlos Móia, presidente do Maratona Clube de Portugal (que organiza a prova).

A alternativa, descreve Carlos Móia, seria "fazer a viagem ao contrário", com partida na zona de Sete Rios/Jardim Zoológico (junto das estações de metro, comboios e autocarros) e percurso pelo Eixo Norte-Sul (parcialmente cortado) até perto da saída da Ponte 25 de Abril, em Alcântara. A partir daí, a corrida seguiria o trajeto normal - numa alteração que visaria os participantes da Meia e da Mini maratona, mas não a elite da distância mais longa [atletas de topo], que parte de Algés.

Ainda assim, a decisão definitiva quanto à eventual alteração do percurso só será analisada esta manhã, "após uma nova reunião com Proteção Civil, Polícia, Lusoponte e Infraestruturas de Portugal", sublinha o presidente do Maratona Clube de Portugal. "A 24 horas da partida já dará para termos uma noção mais aproximada do que serão as condições climatéricas", acrescenta.

Em busca do recorde (de triunfos)

Mesmo sem certezas quanto ao grau de intensidade do mau tempo, parece muito difícil que alguém leve para casa o cheque de 50 mil euros reservado para o homem e/ou mulher que conseguisse bater o recorde mundial de meia maratona em Lisboa. "Não digo que seja impossível, mas será muito difícil que alguém bata o recorde. O vento interfere muito", assume Carlos Móia.

Assim, restará ao eritreu Zersenay Tadese, atual detentor da melhor marca mundial (58.23 minutos, fixada em Lisboa em 2010), lutar por outro recorde: o de triunfos, entre a elite masculina, na prova lisboeta. Vencedor em 2010, 2011 e 2012, o recordista mundial tem tantos títulos como o queniano Martin Lel (2003, 2006 e 2009). "A Meia maratona de Lisboa é uma das minhas provas preferidas. Tenho muito boas recordações das três vezes que a disputei, porque venci-as todas. [Amanhã,] vou seguramente lutar pela vitória", apontou ontem o atleta, na apresentação da corrida.

Pela frente, Zersenay Tadese (que tem 36 anos e cinco títulos mundiais de meia maratona no currículo) espera encontrar "os melhores atletas quenianos" e não só. Entre os inscritos, estão outros oito homens que já correram os 21,097 quilómetros em menos de 1:00.00: os quenianos Sammy Kirwara (58.48 e vencedor da corrida lisboeta em 2016), Stanley Biwot (58.48), James Wangari (59.07), Edwin Kiprop Kiptoo (59.26) e Edwin Kibet Koech (59.54), o eritreu Samuel Tsegay Tesfamriam (59.20), o marroquino Aziz Lahbabi (59.25) e o neozelandês Zane Gordon Robertson (59.47).

Zane - irmão-gémeo do vencedor-surpresa do ano passado, Jake Robertson (ambos emigraram para o Quénia aos 17 anos, para evoluirem num dos principais viveiros de talentos da longa distância) - poderá ser mesmo a única ameaça à histórica hegemonia africana na prova masculina. Entre os concorrentes, está ainda o ugandês Stephen Kiprotich, antigo campeão olímpico (Londres 2012) e mundial (Moscovo 2013) de maratona, mas discreto na distância mais curta (61.15).

Na prova feminina, também deverá prolongar-se a tradição das vitória africanas. A etíope Mare Dibaba (1:07.13), antiga campeã mundial de maratona (Pequim 2015) e 3.ª classificada na distância no Rio 2016, vem defender o título conquistado no ano passado, em cima da meta, sobre a queniana Vivian Cheruyiot. Pela frente, terá, entre outras, as compatriotas Belaynesh Oljira (1:07.27), Helen Bekele Tola (1:09.48) e Senbere Teferi (estreante na distância, mas ex-vice-campeã mundial de 5000 metros), as quenianas Pascalia Chepkorir Kipkoech (1:07.17) e Magdalyne Masai (1:07.31) e a bareinita - de origem etíope - Mimi Belete (1:09.15).

Portugueses: ambição limitada

Em 27 anos de Meia Maratona de Lisboa, só dois portugueses venceram a corrida: Rosa Mota, em 1991, e António Pinto, em 1998. E, 20 anos depois desse histórico triunfo de António Pinto - primeiro atleta a completar os 21,097 quilómetros regulamentares em menos de 1:00.00, com um tempo de 59.43 (em 1993, Sammy Lelei fez 59.24, mas o trajeto tinha 91 metros a menos...) - a ambição é limitada, quanto aos participantes nacionais.

Com os principais atletas lusos de meio-fundo e fundo ausentes (devido à proximidade do campeonato nacional de corta-mato longo, marcado para 18 de março), o contingente português terá como principais figuras os veteranos Luís Feiteira e Yousef El Kalay (no sector masculino) e as experientes Cláudia Pereira, Mónica Silva, Doroteia Peixoto e Vera Nunes (femininos).

Com 35 mil inscritos (incluindo Meia e Mini maratona, ambas com inscrições esgotadas), Carlos Móia destaca o facto de ter aumentado "substancialmente" o número de candidatos à corrida mais longa. Talvez se bata o recorde de participantes (10582), se - também aí - o mau tempo não estragar os planos.

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