"Marca CR7 é muito consistente e não será afetada no longo prazo"

Em dia do clássico entre Manchester United e Liverpool, a indefinição quanto ao próximo passo na carreira de Cristiano Ronaldo continua na ordem do dia mas Daniel Sá, especialista em marketing desportivo, não crê que isso o vá prejudicar no futuro.

Uma rivalidade antiga, com raízes na Revolução Industrial, um confronto com mais de um século e mais de duas centenas de jogos entre red devils e reds. Separadas por cerca de 50 quilómetros, as cidades de Manchester e Liverpool têm nos seus principais clubes os mais titulados do futebol inglês e hoje, em Old Trafford - Teatro dos Sonhos cada vez mais transformado em Casa dos Pesadelos como num mau filme de terror -, vai escrever-se mais um capítulo dessa longa história.

Com um início de época dececionante dos dois conjuntos - os mancunianos sofrendo duas derrotas, uma delas humilhante (0-4 com o Brentford), num arranque que já não se via desde a primeira edição da Premier League há 30 anos; os scousers com dois empates - o normal seria as atenções concentrarem-se apenas e só numa partida que pode começar a definir muito do que será a época de ambos. Conseguirá o holandês Erik ten Hag inverter a situação e apagar a má imagem deixada pela sua equipa? Será Jürgen Klopp capaz de ressuscitar a máquina de jogar futebol que tem sido o seu Liverpool?

Todas as questões têm sido, no entanto, colocadas em segundo plano pela situação de Cristiano Ronaldo. Tudo indica que o português, de 37 anos, parece estar infeliz com a sua continuidade no clube ao qual regressou na época passada: sem Liga dos Campeões, desconfiado dos métodos do novo técnico, descontente com a falta de investimento num plantel limitado (embora o internacional brasileiro Casemiro tenha sido agora contratado ao Real Madrid) e mais uma mão cheia de outras razões têm sido avançadas para o desejo do capitão da seleção nacional rumar a outras paragens. Vários destinos têm sido sucessivamente apontados e negados, de Barcelona a Munique, de Londres (Chelsea) a Paris, de Madrid (Atlético) a Dortmund, e até Lisboa, num quase impensável regresso ao Sporting. Cristiano não abre o jogo e acusa a imprensa de publicar mentiras, que alegadamente aponta num caderno ("em cem acertaram cinco"), prometendo uma entrevista para esclarecer tudo na próxima semana quando se espera que o empresário Jorge Mendes já tenha conseguido resolver a questão do seu futuro.

Toda a situação, que incluiu faltar aos trabalhos de pré-temporada, justificada com um problema familiar, pode deixar uma mancha na imagem de alguém que, mais do que um jogador, é uma marca a nível internacional. Todavia, Daniel Sá, presidente executivo do Instititudo Português de Administração de Marketing (IPAM) e especialista em marketing desportivo, não acredita que tal vá acontecer. "A marca CR7 já tem mais de 20 anos e nós, no IPAM, fomos acompanhando e avaliando a mesma nos últimos 15. Trata-se da marca portuguesa mais conhecida no mundo e com uma imagem muito sólida e consistente. Acredito que, apesar dos acontecimentos das últimas semanas, essa marca não será afetada no longo prazo", começa por referir ao DN.

Silêncio é de ouro

A verdade é que não é a primeira vez que o futebolista nascido na Madeira força a saída de um clube antes do final do contrato. Foi quase sempre assim, embora as novelas nunca se tenham prolongado demasiado - grande parte dos clubes já percebeu que, a um certo nível, os jogadores têm poder e o seu destino nas mãos. A exceção deu-se há cerca de um ano, quando o jogador lutou até ao último dia do mercado para trocar a Juventus pelo regresso a Manchester.

"Algumas pessoas poderão não gostar do seu comportamento, mas acho que a maioria entendeu o que aconteceu nessa altura e está a suceder agora: que o Cristiano Ronaldo só quer estar em equipas de topo que lutem por títulos. É um "animal" de competição e só sabe estar na vida assim. É uma postura que tem sempre um risco mas a verdade é que ele quer estar sempre nos melhores palcos e isso é legítimo por parte dele", assinala Daniel Sá. Por isso, o especialista em marketing desportivo defende a forma como toda a situação está a ser conduzida pelo jogador e respetiva entourage, deixando-lhes um conselho: "Diria-lhes para serem o mais silenciosos possível durante todo este processo. As transferências são situações absolutamente normais nestes dias, mas é natural que as de Cristiano Ronaldo chamem mais à atenção. Portanto, o melhor é continuar o silêncio na comunicação e manter o foco competitivo no Manchester United até ao último minuto".

Entre os antigos colegas do português no United, as posições dividem-se. Nani, atualmente nos australianos do Melbourne Victory, diz entender o compatriota. Numa conversa com Rio Ferdinand, outra antiga glória dos red devils, no podecast "Five", o extremo assinalou que CR7 "faz as mesmas coisas que fazia, não gosta de perder e reage quando a equipa não está bem". "O treinador está a tentar formar uma equipa forte e não é fácil. Leva tempo mas o Cristiano não tem tempo a perder a formar equipa ou a esperar pela próxima época", defendeu.

Já Gary Neville, agora comentador, diz não perceber porque é que o "melhor jogador de todos os tempos tem de esperar para contar a verdade aos adeptos do Manchester United". "Levante-se agora e fale. O clube está em crise e necessita de líderes que liderem", tweetou o antigo lateral.
Para Daniel Sá, porém, "ninguém melhor do que ele para saber o timing certo para dar a entrevista".

"Acho que o silêncio nesta altura é a melhor estratégia mas se o Cristiano Ronaldo vai dar essa entrevista é porque ele e a sua equipa têm dados relevantes para divulgar a que o público não tem acesso", acrescentou, frisando as responsabilidades do clube em todo o processo: "Para o United, o Cristiano Ronaldo é apenas um dos problemas. É um clube sem paciência desde a saída de Alex Ferguson e que não consegue regressar às vitórias do passado." E, se fosse necessário prová-lo, um grupo de adeptos vai hoje manifestar-se antes do jogo contra os proprietários, os Glazers, num protesto que deverá terminar em frente à loja do clube.

Quando Ronaldo agitou o mercado

Sporting --- Manchester United (12/08/2003) - 19 MILHÕES*

Depois de ter chegado aos leões proveniente do Nacional da Madeira em 1997 (após iniciar a carreira no Andorinha), o então extremo madeirense não demorou a ser chamado à equipa sénior. Bölöni ainda pensou em utilizá-lo na época do título mas os testes físicos não o aconselharam. Estreou-se na temporada seguinte (2002/2003), numa partida da Liga dos Campeões com o Inter. Apesar da utilização intermitente, somou cinco golos (dois deles na estreia a titular como Moreirense) e seis assistências em 31 jogos. No ano seguinte, o jogo de inauguração do novo Alvalade, frente ao Manchester United, foi decisivo para convencer Alex Ferguson a levá-lo para Old Trafford quando vários outros clubes já estavam de olho nele (incluindo o Arsenal).

Manchester United --- Real Madrid (06/07/2009) - 94 MILHÕES*

Ao fim de seis anos nos red devils, Cristiano Ronaldo quis procurar outro desafio - já o tentara na época anterior, mas Sir Alex convenceu-o a ficar mais um ano com a promessa de que no seguinte o deixaria sair. Ainda ganharia mais três troféus (Liga, Taça da Liga e Mundial de Clubes), para juntar aos seis que já havia vencido (incluindo a sua primeira Liga dos Campeões), mas a decisão estava tomada e o desafio de ir para Madrid era irrecusável apesar de ainda ter três anos de contrato. A 6 de Julho de 2009, o Bernabéu abriu de propósito para a sua apresentação e 85 mil pessoas estiveram nas bancadas a ver o homem que iria marcar a história de um clube histórico.

Real Madrid --- Juventus (10/07/2018) - 117 MILHÕES*

Nove anos em Madrid enriqueceram o palmarés de CR7, numa caminhada com muitos altos e alguns baixos (incrivelmente chegou a ser assobiado em casa). Descontente com o facto de Florentino Pérez não lhe aumentar o salário numa altura em que o presidente fazia uma oferta gigante por Neymar, e apesar de ainda ter três anos de vínculo, decidiu sair no verão de 2018, depois de conquistar a quarta Liga dos Campeões pelo clube (além de duas Ligas e mais oito troféus e de ser tornado o melhor marcador de sempre da história merengue, ultrapassando o lendário Di Stéfano, com 450 golos, média superior a um por jogo). As negociações não foram fáceis mas o português estava irredutível depois de tomar a decisão. Em Turim, onde marcara num pontapé de bicicleta um dos melhores golos da carreira (o que lhe valeu os aplausos dos adeptos rivais), a Juventus chegou-se à frente e pagou o exigido pelo Real para levar o jogador.

Juventus --- Manchester United (31/08/2021) - 15 MILHÕES*

Em Itália, CR7 só aguentou duas temporadas, vencendo todos os títulos internos mas ficando longe de conquistar a desejada Liga dos Campeões. Depois de um ano fraco, e apesar de ainda ter dez meses de contrato, a substituição de Pirlo por Massimiliano Allegri não acalmou a vontade de procurar outro destino que achasse mais promissor, mesmo tendo feito um último jogo pelos bianconeri. Em cima do final do mercado, o técnico anunciou o desejo do jogador em partir e o Manchester City parecia ser o inesperado destino do português. À última hora, uma reunião com Alex Ferguson acabou por ser decisiva para CR7 aceitar regressar ao "seu" United, com o beneplácito do técnico Ole Gunar Solsjkaer. Em termos individuais, CR7 dificilmente se pôde queixar da decisão, somando mais uma série de golos (24) para o currículo, mas coletivamente a época ficou longe daquilo que certamente desejava e falhar a presença na Liga dos Campeões tornou-se uma ideia insuportável, apesar de ainda lhe restar uma época no vínculo aos mancunianos.

*Dados transfertmarkt.com

dnot@dn.pt

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