Jéssica Inchude não esconde a ambição. Aos 30 anos, depois de já ter chegado a uma final olímpica e de se ter aproximado da barreira dos 20 metros no lançamento do peso, a atleta portuguesa continua à procura de novos limites. Os próximos meses oferecem-lhe duas oportunidades para os testar: os Campeonatos da Europa de Birmingham e os Jogos do Mediterrâneo de Taranto.A presença em Itália terá um significado especial. Será a primeira participação de Inchude nos Jogos do Mediterrâneo desde que passou a representar Portugal internacionalmente e a lançadora espera aproveitar uma competição que, além da vertente desportiva, lhe permitirá integrar uma numerosa comitiva portuguesa. “Acho que é um orgulho enorme participar nestes Jogos, porque é a primeira vez desde que represento Portugal que vou lá estar. Vai ser uma novidade para mim e acho que conviver com as outras modalidades que não vão aos Jogos Olímpicos também vai ser muito bom.”Portugal participa pela terceira vez nos Jogos do Mediterrâneo, depois das presenças em Tarragona 2018 e Oran 2022, e levará a Taranto uma comitiva de 168 atletas, distribuídos por 30 modalidades. Jéssica Inchude é um dos 20 nomes selecionados para representar o atletismo português.A lançadora estabelece, porém, uma diferença clara entre o grau de dificuldade dos Jogos Olímpicos e aquele que espera encontrar em Taranto. E não foge à responsabilidade quando se fala na possibilidade de subir ao pódio. “Acho que os Jogos Olímpicos têm um nível bem mais alto do que os Jogos do Mediterrâneo. Acho que nos Jogos do Mediterrâneo posso ir às medalhas, enquanto nos Jogos Olímpicos ainda tenho de me esforçar um bocadinho para chegar lá.”A confiança encontra agora ainda maior suporte nos resultados. Inchude acaba de elevar o recorde pessoal para 19,62 metros, marca conseguida nos Campeonatos de Portugal, disputados no Estádio Universitário de Lisboa. O resultado valeu-lhe o título nacional do lançamento do peso e estabeleceu também um novo recorde dos Campeonatos, superando os 19,53 metros que pertenciam a Auriol Dongmo. Foi o sétimo título de campeã de Portugal conquistado por Jéssica Inchude e o primeiro desde 2024.A portuguesa superou por larga margem o anterior recorde pessoal, de 19,21 metros, conseguido em março de 2025, em Nicósia, na Taça da Europa de Lançamentos. Nos Campeonatos de Portugal, não se limitou, aliás, a ultrapassar esse registo uma vez: depois dos 19,62 metros, lançou 19,61 no ensaio seguinte, confirmando a consistência de uma exibição que surge a poucas semanas dos Europeus..Em 2026 já tinha mostrado estar próxima dos melhores registos da carreira. Em maio, ao serviço do Sporting, venceu o lançamento do peso na Taça dos Clubes Campeões Europeus, com 19,11 metros. No final de junho voltou a ser decisiva para o clube de Alvalade, vencendo a prova do peso nos Campeonatos Nacionais de Clubes, em Coimbra, com 18,38 metros, ajudando a equipa feminina leonina a conquistar o título nacional.A temporada internacional incluiu ainda a presença nos Campeonatos do Mundo em pista curta, disputados em março em Torun, na Polónia. Jéssica terminou o concurso do peso no nono lugar, com 18,77 metros, numa final ganha pela norte-americana Chase Jackson, com 20,14.A escolha pelo lançamento do peso surgiu muito antes de Jéssica Inchude chegar às grandes competições internacionais. Experimentou outras disciplinas do atletismo, mas rapidamente percebeu que era nos lançamentos que tinha maiores aptidões. “Passei um bocadinho pelas corridas, pelos saltos, mas sempre fui uma rapariga assim ‘bruta’. Então, quando pegava no peso, aquilo ia sempre longe. Pensei: pronto, acho que é mesmo isto que eu gosto de fazer e é o que eu vou fazer.”O percurso internacional teve uma particularidade. Inchude representou inicialmente a Guiné-Bissau e participou nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. A World Athletics regista-a como elegível para representar Portugal em competições internacionais desde 30 de julho de 2021.Oito anos depois do Rio, já com as cores portuguesas, viveu em Paris 2024 um dos momentos mais importantes da carreira. Apurou-se para a final olímpica do lançamento do peso e terminou no oitavo lugar, com 18,41 metros, garantindo um diploma olímpico.A experiência de competir ao mais alto nível ensinou-lhe também que a distância alcançada pelo peso não depende apenas da força. Técnica e capacidade para controlar as emoções assumem um papel decisivo, sobretudo quando chega o momento de entrar no círculo. “Passa muita coisa pela minha cabeça. Normalmente estou sempre nervosa, mas tento pensar sempre positivo e manter a calma. Penso sempre: hoje vai correr bem a prova. Aconteça o que acontecer, vai correr bem a prova. Tento sempre ter um pensamento positivo.”Essa dimensão mental é precisamente uma das áreas que Inchude considera poder ainda melhorar. “Talvez aperfeiçoar a minha técnica, a minha mente também. De resto á tenho o trabalho todo.”O próximo objetivo são Os campeonatos da Europa que se realizam em Birmingham, entre 10 e 16 de agosto, e Jéssica Inchude não esconde aquilo que pretende alcançar. “Vou aos Campeonatos Europeus em Birmingham e gostava mesmo de trazer uma medalha.” A fasquia representa uma evolução relativamente à última participação num Europeu ao ar livre. Em Roma 2024, Inchude conseguiu chegar à final, terminando no nono lugar. Desde então, chegou à final olímpica de Paris e, sobretudo, elevou o recorde pessoal até aos atuais 19,62 metros.O percurso teve também momentos menos positivos. Nos Campeonatos do Mundo de Tóquio, em 2025, ficou pela qualificação, com 17,69 metros. A temporada de 2026 mostrou, porém, uma atleta novamente capaz de competir acima dos 19 metros, culminando nos 19,62 alcançados nos Campeonatos de Portugal, resultado que reforça a ambição com que vai chegar aos Europeus de Birmingham.A carreira é também a história de uma progressão técnica. O engenho utilizado pelas mulheres no lançamento do peso tem quatro quilos, um peso que no início representava um desafio muito diferente daquele que constitui atualmente para a portuguesa. “Quando comecei a lançar com o peso de quatro quilos, achava bastante pesado. Às vezes caía das mãos, também não lançava assim tão longe, mas atualmente estou muito mais forte, tecnicamente também estou muito melhor e lanço muito mais facilmente agora o peso de quatro quilos.”Birmingham e Taranto são os objetivos imediatos. Os Europeus realizam-se primeiro, de 10 a 16 de agosto, seguindo-se os Jogos do Mediterrâneo, entre 21 de agosto e 3 de setembro. O maior sonho, porém, está mais distante. Depois de já ter entrado no grupo das oito melhores numa final olímpica e de ter elevado o recorde pessoal para 19,62 metros, Jéssica quer dar o passo que falta. “Um sonho mesmo maior ainda é trazer uma medalha dos Jogos Olímpicos. Era um grande sonho para mim mesma.”.Eliana Bandeira vence e Jéssica Inchude é segunda no Mityng na Polónia, no lançamento do peso.Mundiais de atletismo. Auriol Dongmo e Jessica Inchude ficam em oitavo e nono lugares do lançamento do peso