Joseph Blatter aconselha adeptos a evitarem Estados Unidos no Mundial2026
AFP

Joseph Blatter aconselha adeptos a evitarem Estados Unidos no Mundial2026

Ex-presidente da FIFA alerta para riscos de segurança e direitos civis, citando casos recentes envolvendo forças federais americanas e reacendendo debate internacional sobre o clima político nos EUA.
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O antigo presidente da FIFA, Joseph “Sepp” Blatter, defendeu que os adeptos de futebol devem ponderar não viajar para os Estados Unidos durante o Mundial2026, alegando riscos de segurança associados ao atual clima político norte-americano e às práticas das autoridades federais de imigração. O apelo surgiu através de uma publicação na rede social X, onde o dirigente suíço de 89 anos partilhou uma entrevista ao jurista Mark Pieth, especialista em combate à corrupção e figura de referência no debate sobre governança no futebol.

Na entrevista publicada no diário suíço Tages-Anzeiger, Pieth advertiu que a marginalização de adversários políticos e os abusos cometidos por serviços federais de imigração nos Estados Unidos não criam um ambiente favorável para quem tencione acompanhar o torneio no local, afirmando que, para muitos adeptos, seria mais prudente assistir aos jogos pela televisão. Na mesma intervenção, o jurista alertou ainda que uma simples divergência com as autoridades à chegada poderia resultar numa deportação sumária. Blatter não só replicou a entrevista como expressou concordância com as críticas, defendendo que Pieth levantava questões legítimas sobre o Mundial.

O peso político e mediático da intervenção de Pieth não é irrelevante. O suíço, professor de direito penal e criminologia na Universidade de Basileia, foi responsável pela Comissão Independente de Governação da FIFA entre 2011 e 2013, criada pelo próprio Blatter na sequência de sucessivos escândalos financeiros e de corrupção que abalaram a imagem da instituição. Embora nem todas as recomendações estruturais apresentadas pela comissão tenham sido aplicadas, Pieth tornou-se numa das vozes mais influentes na discussão sobre transparência no futebol internacional. Após a queda de Blatter em 2015, na sequência do maior escândalo judicial envolvendo dirigentes do futebol mundial, o jurista passou também a falar com maior liberdade sobre a relação entre grandes competições desportivas, direitos humanos e democracia.

Washington Post

A crítica ao Mundial2026 coincide com um período de forte contestação interna nos Estados Unidos devido a incidentes recentes envolvendo forças federais de imigração. Em Minneapolis, no estado do Minnesota, dois cidadãos norte-americanos, Renee Good e Alex Jeffrey Pretti, morreram baleados em operações distintas conduzidas por agentes federais. Pretti, enfermeiro de 37 anos da Administração de Veteranos e sem antecedentes criminais, terá estado a filmar a atuação das autoridades quando foi imobilizado e atingido mortalmente. O caso foi precedido da morte de Good, em janeiro, durante uma operação rodoviária semelhante. Ambos provocaram protestos locais, vigílias e exigências de investigações independentes, alimentando um debate nacional sobre o uso da força por agentes de imigração e sobre a presença de destacamentos federais em cidades norte-americanas. Pieth citou expressamente o caso de Good para ilustrar o que considera serem “abusos sistemáticos” que, na sua perspetiva, não podem ser ignorados à medida que o Mundial se aproxima.

O Mundial2026 será o primeiro a contar com 48 seleções e o primeiro organizado de forma tripartida pelos Estados Unidos, México e Canadá. O torneio decorrerá entre 11 de junho e 19 de julho em 16 cidades, onze delas em território norte-americano. A ampliação do formato, embora celebrada em vários mercados comerciais do futebol, levantou críticas quanto à motivação política da decisão e ao possível impacto logístico para adeptos e equipas, num momento em que muitos países se queixam de restrições na emissão de vistos para entrada nos Estados Unidos. Acresce a este cenário a criação de um grupo federal de coordenação — o “FIFA World Cup 2026 Task Force” — encarregado de supervisionar a segurança e a logística do torneio, numa demonstração da importância estratégica atribuída ao evento pela Casa Branca.

FIFA

A dimensão internacional do debate já ultrapassou o universo estritamente desportivo. Responsáveis políticos na Europa reconheceram que eventuais boicotes ou medidas de pressão diplomática não podem ser excluídos caso se agrave o confronto com Washington, embora nenhum governo tenha dado ainda sinais de pretender adotar uma posição oficial. Para já, o debate vive sobretudo no espaço público, entre movimentos de defesa de direitos civis, associações de adeptos e figuras com visibilidade internacional como Blatter e Pieth.

No plano desportivo, Portugal figura no Grupo K, onde enfrentará Uzbequistão, Colômbia e o vencedor do play-off intercontinental disputado entre Jamaica, Nova Caledónia e República Democrática do Congo. Até ao momento, não há indicação de que a Federação Portuguesa de Futebol ou o Governo português ponderem restrições ou alertas específicos para adeptos nacionais. Contudo, face às críticas sobre o ambiente político e policial nos Estados Unidos e ao historial recente de incidentes envolvendo forças federais, a questão da segurança de adeptos ganha relevância adicional.

Com o arranque do Mundial marcado para junho, as declarações de Blatter reacendem um debate que junta futebol, direitos humanos e liberdade de circulação. Ao envolver-se publicamente neste tema, o antigo presidente da FIFA volta ao centro de uma discussão global, desta vez não sobre governança interna, mas sobre o poder político e social do futebol e os limites éticos da organização de grandes eventos desportivos em contextos controversos.

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