José Peseiro tem uma carreira longa e marcada por experiências internacionais, incluindo agora um regresso ao futebol da Arábia Saudita. Assume o comando técnico do Al Ula FC, clube que disputa a segunda divisão saudita, com o objetivo claro de lutar pela promoção ao principal escalão. Atualmente está na quarta posição da classificação.“Há cerca de um mês tivemos as primeiras conversas. Comecei a ver os jogos e acho que a equipa tem condições para fazer melhor. Nos últimos 6 jogos, só ganharam um. Mas considero que tem condições para subir. O meu objetivo não é só subir de divisão, é manter-me lá. Tenho de falar primeiro com os jogadores, vê-los em treino, o que é muito importante: perceber como se comportam em treino, muito mais do que em jogos que observei em vídeo”, disse ao Diário de Notícias o técnico português que acrescentou ainda o facto de poder ou não vir a fazer ajustes, durante o mercado de janeiro. “Até dia 29 o mercado está aberto e posso ter necessidade de mudar, mas nem quero pensar nisso agora, porque tenho de conhecer muito bem as pessoas que já lá estão. A minha forma de ver o jogo é diferente da que tinha o treinador que saiu. Tenho de ir ao encontro das características dos jogadores. Por aquilo que vi, a equipa tem potencial para subir de divisão. Acreditamos que podemos ter sucesso, mas também é verdade que temos pouco tempo, mas penso que é possível.”.A ligação de Peseiro à Arábia Saudita não é nova. Entre 2006 e 2007, treinou o Al-Hilal, um dos clubes mais titulados do país, e mais tarde foi selecionador da Seleção Nacional da Arábia Saudita, entre 2009 e 2011. Recorda essas duas passagens como positivas e como aprendizagens que guarda, como em todos os outros projetos por onde tem passado. “Estive no Al-Hilal, que foi considerada a melhor clube asiático do século XX pela FIFA. Na altura saí porque o principal dirigente me disse que os jogadores não suportavam as nossas regras. Dou um exemplo: os jogadores não tomavam o pequeno almoço antes dos jogos, se não lhes apetecesse e nós não permitíamos. Depois, esse dirigente foi para a Federação e voltou a contactar-me para ser o selecionador, porque a equipa precisava de disciplina”, contou José Peseiro.O que é certo é que essa vivência no Médio Oriente contribuiu para o seu perfil de treinador adaptável a diferentes realidades culturais e competitivas.“Saí em 2011 e já me disseram que está tudo muito diferente. Há questões culturais e sociais que se mantêm, mas a ideia é que o país mudou quase radicalmente. Abriu-se ao turismo e agora está muito mais próximo da nossa forma de viver”, acrescentou o técnico português que referiu ainda que “temos de respeitar a cultura que não se muda apenas por mudar. Não tenho dúvidas que encontramos pessoas ótimas. Há pessoas com as quais mantenho contacto desde que vim para cá pela primeira vez”.José Peseiro construiu uma carreira longa e multifacetada no futebol internacional, marcada por passagens por clubes históricos e seleções nacionais em contextos exigentes. Nascido a 4 de abril de 1960, em Coruche, o treinador português destacou-se sobretudo pela sua capacidade de adaptação a diferentes realidades competitivas, assumindo frequentemente projetos de reconstrução ou de elevada pressão.O percurso de José Peseiro ganhou dimensão internacional no início dos anos 2000, depois de ter sido adjunto de Carlos Queiroz no Real Madrid. Em 2004, assumiu o comando do Sporting CP, num dos períodos mais marcantes da sua carreira. Na época 2004/05, levou os leões à final da Taça UEFA, disputada em Alvalade, onde o Sporting acabou derrotado pelo CSKA Moscovo. Apesar da ausência de títulos, essa campanha europeia consolidou o seu nome no panorama do futebol português e internacional.Após a saída do Sporting, Peseiro prosseguiu a carreira fora de Portugal, acumulando experiências em diferentes ligas e culturas futebolísticas. Regressou mais tarde ao futebol português para orientar o SC Braga, clube onde voltou a trabalhar em contexto europeu, reforçando a imagem de treinador habituado a competir em várias frentes. Seguiram-se passagens por outros emblemas nacionais, como o Vitória SC, onde esteve em duas ocasiões distintas, sempre associado a fases de reorganização do plantel e de estabilização competitiva. No FC Porto, Peseiro assumiu o comando técnico numa fase particularmente exigente, sucedendo a Julen Lopetegui. Apesar de uma boa percentagem de vitórias, a passagem foi curta, ilustrando uma constante da sua carreira: projetos de alto risco, frequentemente interrompidos por contextos de grande pressão e expectativa imediata de resultados.Paralelamente ao percurso em clubes, José Peseiro construiu uma carreira relevante ao nível das seleções nacionais. A experiência mais marcante surgiu ao serviço da equipa nacional da Venezuela, entre 2011 e 2013. Mais tarde, assumiu o comando da seleção nacional do Irão, num período curto mas politicamente e desportivamente complexo.Contudo, foi em África que Peseiro alcançou um dos pontos altos da sua carreira como selecionador. Entre 2022 e 2024, orientou a equipa nacional da Nigéria, uma das seleções mais emblemáticas do continente. Sob o seu comando, a Nigéria chegou à final da CAN 2023, realizada na Costa do Marfim, terminando a competição como vice-campeã. A campanha destacou-se pela solidez defensiva, disciplina tática e eficácia competitiva, características frequentemente associadas ao trabalho do treinador português.Ao longo da sua carreira, José Peseiro passou ainda por clubes em diferentes geografias, incluindo experiências na América Latina e no Norte de África, como no comando do Zamalek SC, um dos gigantes do futebol egípcio. Nessas passagens, voltou a assumir contextos de elevada exigência, com forte pressão mediática e institucional, reforçando o seu perfil de treinador experiente em ambientes complexos.No plano técnico, Peseiro é reconhecido por uma abordagem pragmática, com forte atenção à organização coletiva, ao equilíbrio defensivo e à gestão do grupo. A carreira de José Peseiro reflete, assim, o trajeto de um treinador português com dimensão global, habituado a trabalhar fora da sua zona de conforto e a enfrentar desafios em clubes e seleções de grande exigência competitiva, deixando uma marca consistente no futebol internacional contemporâneo.José Peseiro vai levar para a Arábia Saudita a equipa técnica com quem tem trabalhado recentemente. E confessa que sente orgulho ao ver muitos dos seus adjuntos como técnicos principais, com carreiras de sucesso. “O Nuno Presume, o Luís Martins, o Alexandre Santos, o Pedro Caixinha e tantos outros, são treinadores principais agora. O modelo de liderança, de treino, de jogo, ajuda a formar as equipas técnicas. Construímos uma forma de treinar e de jogar que é a minha, mas sempre suportada por todos os treinadores que trabalham comigo”, acrescentou.A Arábia Saudita tem contratado vários técnicos portugueses para as equipas principais de vários clubes. Peseiro acrescenta que vai encontrar, também na sua nova casa profissional outros treinadores portugueses. “A formação do meu clube tem muitos treinadores portugueses. O João Carlos Pereira é o Diretor Técnico. O treinador de Futsal também é português. E onde há portugueses é sempre muito bom para todos”.O seu regresso à Arábia Saudita reflete a aposta do país em técnicos europeus com percurso internacional e capacidade de entregar resultados imediatos, sendo a promoção do Al Ula FC o grande objetivo desta nova etapa da sua carreira. O clube está sediado na cidade histórica de Al-Ula, na província de Medina, e representa um dos projetos emergentes do futebol saudita fora dos grandes centros tradicionais. O atual projeto do Al Ula FC está inserido numa estratégia mais ampla do país, associada ao Saudi Vision 2030, plano governamental que procura diversificar a economia saudita e reforçar áreas como o desporto, o turismo e o entretenimento. O futebol tem sido um dos pilares dessa estratégia, não apenas através do investimento em grandes clubes, mas também no desenvolvimento de equipas regionais, como acontece em Al-Ula. O Estado, através de fundos públicos, passou a ter um papel direto no financiamento e na gestão desses clubes. José Peseiro explicou ao DN qual o enquadramento do seu novo clube: “Por todos os contornos da estratégia do Governo este é um projeto muito aliciante. O clube quer subir à primeira liga, quer ser uma das maiores equipas da Arábia Saudita, e é um dos 8 clubes que pertencem ao fundo governamental. O governo quer consistência. A aposta passa por não centralizar nas grandes cidades, mas, ao mesmo tempo, ter uma dimensão nacional. Geograficamente, o futebol de qualidade tem de estar por todo o país. É uma aposta para o Campeonato do Mundo. O Al-Ula não tem tantos adeptos como os outros, mas vamos conseguir crescer”.No âmbito do Vision 2030, o desporto é visto como uma indústria estratégica. O governo saudita pretende criar um ecossistema desportivo moderno, capaz de gerar receitas, criar emprego, atrair turismo e posicionar o país como um polo global de grandes eventos. Regiões como Al-Ula, Riade ou Jeddah têm sido promovidas como destinos que combinam património histórico, cultura, lazer e grandes eventos. O futebol e o desporto ajudam a atrair visitantes e a mudar a perceção internacional do país, apresentando uma Arábia Saudita mais aberta, moderna e integrada nos circuitos globais.