A paixão pelo desporto sempre guiou José Cabeça. Foi na natação, no triatlo e por fim no esqui de fundo que encontrou a forma mais desafiadora de perseguir um sonho que o acompanha desde os seis anos: participar nos Jogos Olímpicos. Depois da estreia em Pequim, em 2022, o atleta português prepara-se para a segunda participação olímpica, fruto de quatro anos de evolução, divididos entre a neve da Noruega e o calor dos Emirados Árabes Unidos. Quais são as expectativas para esta segunda participação nos Jogos Olímpicos?São um pouco mais altas do que para os outros. Nos últimos, com tão pouco tempo de experiência no esqui de fundo, foi um pouco tudo em cima do joelho. Claro que para estes Jogos Olímpicos, depois de 4 anos a trabalhar com o meu treinador, a evolução é muito superior e se tudo correr bem, o resultado vai ser muito melhor do que foi nos últimos Jogos. Como é que foi a preparação nestes 4 anos? Eu sei que o José treina na Noruega, mas trabalha nos Emirados Árabes Unidos. Como é que isso é possível?Eu trabalhei nos Emirados constantemente durante 2 anos, o período entre 2020 e 2022 e depois, a partir de 2022, a pessoa para quem eu trabalhava, decidiu que queria que eu fosse atleta dele, ou seja, que o representasse internacionalmente em provas, em vez de trabalhar diretamente com ele no dia-a-dia. Eu era personal trainer e como é óbvio, não é possível ser personal trainer presencial num sítio e treinar noutro. Isto foi uma abertura da parte dele, que me deu a possibilidade de vir constantemente à Noruega, onde tenho o meu treinador e onde preparo praticamente todos os invernos a minha apresentação no esqui de fundo. Neste momento o meu trabalho é tentar, todos os dias, melhorar como atleta para o conseguir representar melhor ainda do que já consegui até agora.Ele é muito importante no país?Ele é uma pessoa muito importante sim, especialmente pelas empresas que tem e o tipo de trabalho que faz para o governo, por isso sim, diria que é das pessoas mais conhecidas do país sim.Foi ele que sugeriu esta situação consigo?Sim, ele é um amante de desporto, inclusive neste momento é dono da primeira equipa de basquetebol profissional dos Emirados, que joga na Euroleague, ou seja, a primeira equipa não europeia a jogar na Euroleague, a um nível muito elevado. Quando fui trabalhar para ele, sabia que eu era atleta, sabia que eu tinha objetivos altos mais até em triatlo do que em esqui. Ele gostou do projeto que eu tinha e viu o meu esforço para tentar desenvolver-me como atleta, porque, como é óbvio, não foi fácil entre 2020 e 2022 o processo até conseguir a qualificação olímpica. Nessa altura tive um total de quatro meses na neve, antes dos Jogos Olímpicos. .E o que é que lhe passou na cabeça para ir para o esqui de fundo? A sua modalidade, o triatlo, não tinha nada a ver.Tem alguma coisa a ver, porque são ambos desportos de endurance. Necessitam bastante treino e bastante foco, mas claro que são desportos totalmente diferentes em termos de técnica. Mas pronto. Escolhi o esqui de fundo porque eu vi que era um desporto bastante exigente, vi o quão cansados chegavam os atletas à linha da meta e pensei que era algo que é similar ao triatlo e que é algo que eu gostaria de experimentar. Desde que tinha 6 anos, o meu objetivo de vida era ir aos Jogos Olímpicos e eu tentei em todas as modalidades que fiz, quer na natação, quer no triatlo, quer agora no esqui. Infelizmente não consegui chegar a um nível suficientemente alto para conseguir ir ou na natação ou no triatlo, embora no triatlo ainda tenha atingido um nível razoável. Eu vi a possibilidade do esqui de fundo, mas não tinha qualquer base neste desporto.Como é que foi a experiência quando calçou pela primeira vez um esqui e experimentou? O que é que pensou?Não foi nada engraçado. Eu comprei tudo online, botas, esquis, bastões e peguei no carro e fui para França, para Font Romeu, que é um centro de alto rendimento em altitude, onde já costumava ir como triatleta. Cheguei à pista, meti o equipamento e tentei esquiar, como as pessoas que lá estavam faziam. Nessa altura eram só esquiadores amadores, não havia nenhum profissional a esquiar. E eu pensei, isto é só fazer igual, deve ser fácil. E demorei duas horas a fazer dois quilómetros. Portanto, como pode calcular, estive mais vezes no chão ou no mesmo sítio. do que estive realmente a esquiar. Mas eu sou um pouco teimoso, por isso comecei a ver vídeos no YouTube e a tentar entender a técnica e depois comecei a tentar copiar outras pessoas que estavam na pista e passados dois meses consegui fazer esqui: uma técnica que era o skate. O clássico, não conseguia, mas sejamos sinceros, eu não sabia esquiar.Com o Covid os planos foram todos alterados o que fez com que eu fosse para o Dubai ajudar um amigo a preparar uma prova de triatlo. Estive no Dubai três meses apenas a treinar e quando voltei para Portugal já não tinha quaisquer expectativas. Nessa fase recebi a proposta para ir para o Dubai trabalhar e graças a Deus aceitei. Isso mudou um bocadinho a minha vida. Tive a possibilidade de usufruir da pista de esqui que eles têm indoor num centro comercial, o Emirates Mall, antes do horário de abertura, graças à influência do meu chefe. Por isso tive alguma ajuda para conseguir treinar e tudo sem treinador. No final de 2020 qualifiquei-me para o meu primeiro mundial. Fiz o meu primeiro mundial sem treinador, onde abri a vaga portuguesa para os Jogos Olímpicos. Foi em fevereiro de 2021. E desde essa altura até dezembro não houve esqui. Em dezembro fui para a Noruega.Mas foi por iniciativa própria?Fui porque o meu chefe ofereceu-me a possibilidade de ir. Foram dois meses. Já tinha encontrado um treinador que continuou a ser o mesmo que tenho. Treinei com ele de 4 de dezembro, se não me engano, até aos Jogos Olímpicos. Foi nesse período que aprendi a fazer a técnica de clássico que foi a técnica que realizei nos Jogos Olímpicos.Ou seja, os atletas que iam aos Jogos Olímpicos tinham de ter capacidade de realizar duas técnicas distintas?Sim a clássica foi a prova que eu realizei nos Jogos, foi nos 15 km clássico..Como é que chegou ao contato com o seu treinador? Como é que se conheceram?É simples. Como já disse sou bastante teimoso e eu queria aprender com os melhores, por isso enviei mensagem para cerca de 40 ou 50 equipas na Noruega. Algumas pessoas mais simpáticas responderam a dizer que não, outras nem responderam. E tive a sorte de encontrar o laboratório que é do meu treinador. E ele respondeu à mensagem. Eu disse que era português, que queria aos Jogos Olímpicos, que queria fazer algo decente, e não apenas ir lá, e ele gostou da ideia. Eu mostrei-lhe vídeos meus a esquiar, e ele ficou bastante surpreendido: como é que é possível que tu não tenhas nenhum treinador e esquias assim? Mas a verdade é que tudo o que eu aprendi foi pelo Youtube. Ele disse, ok, se não me estás a enganar, se nunca tiveste nenhum treinador, eu ajudo-te e nós vamos arranjar uma solução para tu conseguires ir para a Noruega. Tive sorte, porque ele é muito boa pessoa e é como um irmão para mim, e facilitou um bocadinho os valores de pagamento. E depois o meu chefe teve a simpatia de me ajudar e de apostar um bocadinho em mim. Eu sou um sortudo por tudo isto.E depois dos Jogos, como é que vai ser a sua vida? Continua na época de inverno na Noruega, e depois quando não é inverno volta para os Emirados?Eu vou aos Emirados, no mínimo duas vezes por ano, cerca de um mês, um mês e meio, mas neste momento não tenho de trabalhar, simplesmente tenho de continuar a minha preparação, porque embora isto seja um desporto de inverno, a minha preparação é feita o ano todo. Não pode parar. Treino uma média de 4 ou 5 horas por dia, sem exceções, e como é óbvio, não posso ter um período em que estou simplesmente sem treinar. Quando vou para o Dubai o treino é adaptado, como é óbvio não posso esquiar, portanto temos de utilizar a versão de verão, que são os rollerskis, uma espécie de patins compridos. O meu treinador é treinador técnico da seleção nacional da Chéquia.Mas é norueguês certo?Ele é norueguês, e nós temos um acordo com a Chéquia. Eu posso juntar-me a eles em todos os estágios, desde este ano. Tem sido uma ajuda imensa, é bastante motivador porque conseguimos entender as diferenças, o quanto falta para eu conseguir atingir...E o que é que falta para atingir a excelência, na sua opinião?Neste momento é tempo, porque em termos técnicos costumo dizer muitas vezes que o meu treinador é o melhor treinador do mundo. A forma como trabalhamos tem demonstrado evoluções que nunca ninguém viu no desporto, e isto não sou eu a falar, inclusive o selecionador nacional da Noruega, antes dos Jogos Olímpicos passados, disse que nunca viu ninguém passar de não saber esquiar, em dois meses, e fazer a prova que eu fiz nos Jogos.Atualmente tenho capacidade de ser muito bom tecnicamente durante um X período, mas ainda não consigo ter a capacidade de aguentar, por exemplo, uma prova de 10 km, em que vou entre os 180 e 190 de batimentos cardíacos, sempre com a mesma técnica. Isso demora tempo a conseguir alcançar. Ainda me falta muito em termos de força. Aumentei de peso, mas continuo a ser dos atletas mais leves e mais pequenos do esqui de fundo, por isso não é algo que se consiga fazer do dia para a noite. Eu não quero ser o português que vai 4 vezes aos Jogos Olímpicos, eu quero ser o português que, sempre que vai aos Jogos Olímpicos, reduz para metade a diferença ou até chega ao topo. É para isso que eu trabalho e é para isso que também tenho o apoio que tenho. Nada me deixaria mais orgulhoso do que dar de volta o que todas as pessoas que me têm dado.Como é que são agora as suas vindas a Portugal? O seu Alentejo está um bocadinho posto de lado, ou não?Pois, é bastante difícil, mas estas são escolhas que fiz. Durante a minha carreira anterior tive alguns treinadores que diziam que eu era um pouco focado demais e tinha de relaxar, mas eu acho que não me dei mal, portanto, decidi que a última vez que ia estar com a minha família e com a minha namorada era em Agosto, para me preparar convenientemente.O José vai entrar em mais do que uma prova nos Jogos Olímpicos. Para si o qual poderá ser a mais fácil?É simples, eu não sou sprinter. Endurance para mim é o mais acessível, portanto a prova de 10 km vai ser a prova em que eu vou apostar mais para o melhor resultado. Claro que vou tentar fazer o melhor resultado no sprint, mas uma prova de 3 minutos não é uma prova que se ajuste muito a mim, especialmente neste desporto sendo tão técnico. O foco é 100% nos 10 km e tentar ao máximo conseguir reduzir a minha diferença para o primeiro classificado. .Que condições é que a neve deve ter para uma boa prova de esqui de fundo?Não existe a neve perfeita para uma prova de esqui de fundo. Há pares de esquis para todo o tipo de neve, portanto é um pouco pelas condições atmosféricas do dia.É como com os pneus na Fórmula 1, para chuva, para piso seco?Exatamente, nós não controlamos. A neve pode estar gelada, pode estar compacta, pode estar molhada e pode estar quente. São diferenças que, não só afetam o equipamento utilizado, mas também afetam a forma técnica como nós esquiamos.E vocês escolhem os esquis em função do estado da neve?Exatamente. Claro que existe sempre um teste dos esquis antes das provas, inclusive também dos produtos que são utilizados nos esquis. Tenho de ser muito grato à Chéquia, porque vão ser eles que vão tratar dos meus esquis.Imagine-se daqui a 30 anos, mas ligado ainda ao desporto. O que é que gostava de dizer nessa altura, em relação a si, neste percurso?Gostava de dizer que motivei crianças em Portugal, para acreditarem que é possível fazerem o que quiserem em qualquer desporto, desde que ponham esforço no processo. Eu passei por 5 ou 6 desportos diferentes até chegar a este e trabalhei 20 anos até conseguir os meus primeiros Jogos Olímpicos. Tudo é possível. Independentemente de haver dificuldades durante o percurso. É por isso que o meu objetivo nunca foi ir aos Jogos Olímpicos e estar lá apenas, mas sim mostrar que se pode vir do zero e chegar longe, se o esforço for feito da forma correta. Temos de trabalhar. Olhe o exemplo do Cristiano Ronaldo: não chegou ao nível a que chegou a comer batatas fritas e a jogar Playstation. Por isso acho que é um bocadinho levar essa motivação e tentar dar essa motivação aos nossos atletas mais jovens. .Pequim2022: José Cabeça torna-se o melhor português no esqui de fundo.Portugal leva três atletas aos Jogos Milão Cortina 2026