O Diário de Notícias falou com John McEnroe numa conversa em que o antigo número um mundial defendeu que o desporto “precisa de personalidade” e que a perfeição eletrónica não substitui o elemento humano. “Nada é perfeito — nem o sistema eletrónico. Se fosse perfeito, era ótimo. Mas há quem goste do elemento humano — discutir com o árbitro. No meu tempo, lembram-se mais disso do que do meu ténis.A modalidade precisa de personalidade num desporto um-contra-um. Sou old school. Não olho tanto para essa parte como os outros, mas não digo que estejam errados. Se ajuda a maximizar o jogo, força. Dou um exemplo: o sensor de let (a tecnologia para deteção automática de bolas fora). Às vezes funciona, outras não. Para mim deviam acabar com o let e pronto — era simples. Mas devemos sempre procurar maneiras de melhorar o jogo”.Ainda em resposta ao DN, McEnroe foi igualmente célere a identificar quem poderá protagonizar a próxima grande revolução da modalidade: Carlos Alcaraz. “É um representante tremendo do que o ténis devia ser. A alegria que leva para o court, o sorriso como arma, a atitude, o estilo de jogo. Cria um contraste enorme com o Sinner — faz com que ambos brilhem mais. Tivemos muita sorte que tenham surgido agora, quando perdemos o Federer e o Nadal e com o Novak perto do fim”, disse, antes de lamentar que nos Estados Unidos o ténis tenha perdido grande mediatismo. “Nos EUA só se fala de futebol americano nesta altura — zero sobre a Austrália. Precisamos de alguém que volte a entusiasmar o público. Alguém com personalidade e jogo. Nesta altura só se fala de futebol americano”..Estas declarações surgiram numa conferência de imprensa restrita a um jornalista por país, num total de nove países, na qual o DN representou Portugal. A sessão decorreu poucos dias antes do arranque do Open da Austrália, torneio aguardado com enorme expectativa e que poderá, novamente, colocar frente a frente Alcaraz, Sinner e Djokovic — uma triagem geracional que o circuito masculino aguarda com crescente curiosidade.No feminino, McEnroe considerou que o circuito está “muito aberto”, um cenário que associa à volatilidade competitiva ao peso estratégico do sorteio nos Grand Slams. Elogiou a evolução de várias jogadoras, e referiu que, no caso de Klara Tauson, vê “juventude, ambição e jogo grande”, características que, com as circunstâncias certas, podem permitir chegar longe. Se no feminino o futuro parece aberto, no masculino o eixo de renovação está mais definido. Sinner e Alcaraz surgem como dupla central, com o italiano Lorenzo Musetti “a aproximar-se desse patamar”, embora ganhar um Major continue a ser “um feito raríssimo”. McEnroe confessou surpresa com a saída de Juan Carlos Ferrero da equipa técnica do espanhol: “Não se muda uma fórmula vencedora”, afirmou, admitindo que não conhece os detalhes da separação, mas elogiando a maturidade tática e emocional de Alcaraz.O tema Djokovic apareceu inevitavelmente. O ex-número um recusou leituras dramáticas sobre a idade do sérvio: “Ele só entra num torneio se achar que pode ganhar. E ainda consegue estar em meias-finais e finais.” Sem prever datas, McEnroe descreveu o dilema competitivo de quem passou duas décadas habituado a dominar: “Quando deixas de ganhar, é difícil.”Em relação a Rafael Nadal, o americano não disfarçou a admiração: “Foi um privilégio assistir a isso durante 20 anos.” Colocou o espanhol ao nível de Jimmy Connors no que diz respeito ao esforço competitivo e à ética de jogo, sublinhando que o ténis “não produz esse tipo de intensidade todos os anos”.Quanto à proposta italiana de criar um quinto Grand Slam, McEnroe sorriu: “Muito improvável”, embora recorde que o ténis já mudou radicalmente antes e que grandes investimentos podem alterar equilíbrios. “No meu tempo ninguém queria ir à Austrália, agora todos querem. Isso faz-me lembrar quando eu pedia à minha mãe para chegar às três da manhã a casa e ela dizia : sobre o meu cadáver. Durante anos falaram que Indian Wells seria o próximo major. Agora é Roma. Eu também gostava de voltar e ganhar Roland Garros, mas não vai acontecer”.Entre nostalgia, pragmatismo e antecipação, o discurso de McEnroe oscilou entre o que o ténis foi e o que o ténis está prestes a ser. Se a atualidade tem um protagonista claro, esse é Carlos Alcaraz. .John McEnroe, o Mozart do ténis.McEnroe diz que Djokovic pode ter perdido o "instinto matador"