Jake cresceu no Quénia para derrubar a hegemonia africana

Neozelandês, emigrado desde os 17 anos, foi o vencedor inesperado da Meia de Lisboa. Em femininos, ganhou Mare Dibaba

Jake Robertson diz que é um "extremista", que gosta de "testar os próprios limites". E fá-lo diariamente desde que, com 17 anos, se mudou para Iten (Quénia) para perseguir o sonho de se tornar um atleta de longa distância de nível mundial. Ontem, o neozelandês, de 27 anos, fez história ao vencer a Meia-Maratona de Lisboa, tornando-se o primeiro a quebrar a hegemonia africana na prova desde 1998 (António Pinto). Mais: ficou a apenas 14 segundos do recorde da Oceânia, que pertence ao seu irmão-gémeo, Zane.

Quase 20 anos depois, terminou a hegemonia de atletas nascidos em África na Meia Maratona da Ponte 25 de Abril: ao fim de 11 triunfos quenianos, três eritreus, dois etíopes, um sul-africano e um britânico de origem somali (Mo Farah), apareceu - de forma inesperada - um neozelandês. Na prova feminina, a etíope Mare Dibaba prolongou o domínio africano, com um tempo que deixou desgostoso o organizador Carlos Móia. De forma surpreendente, Jake, o menos conhecido dos gémeos Robertson (Zane já foi medalhado nos 5000 m em competições internacionais de segunda linha, como os Jogos da Common-wealth), tornou-se o protagonista do dia. O neozelandês correu os 21,097 km em 1:00.01 horas, superando os quenianos James Mwangi e Edwin Kibet Koech e ficando bem próximo do recorde nacional e continental fixado pelo irmão, em fevereiro de 2015, na Meia-Maratona de Marugame, Japão (59.47 minutos). Samuel Barata terminou como o melhor português, em 6.º lugar (1:03.52 horas).

"Sinto-me fantástico. Tenho treinado muito bem. Por isso esperava sair-me bem aqui em Lisboa... mas conseguir o que fiz é incrível", disse Jake Robertson no final, admitindo que a sua vitória foi uma "meia surpresa". "Sabia que tinha uma hipótese de ganhar... Foi surpreendente mas bastante reconfortante", apontou o neozelandês, citado pela Lusa.

Mesmo com um tempo acima de uma hora (como não acontecia a um vencedor da Meia-Maratona de Lisboa desde 2007), Jake fixou a sua melhor marca na distância, celebrou o primeiro triunfo da carreira, e experimentou, por fim, um pouco da glória com que sonhava quando na adolescência ele e o irmão trocaram o conforto da casa familiar em Hamilton (Nova Zelândia) pelas condições de vida precárias de Iten, um dos viveiros dos talentos africanos de meia e longa distância.

Então (2007), a adaptação não foi fácil. Por vezes, faltava água ou eletricidade. E foi preciso ganharem a confiança dos anfitriões. "Fomos os primeiros brancos que alguns dos aldeões conheceram e por isso encaravam-nos com desconfiança. Tivemos de ganhar o seu respeito. Mas decidimos ficar porque adorámos o ambiente", recordou Jake, anos depois. Para ele, a recompensa chegou agora. Na prova feminina, a surpresa foi a marca da vencedora Mare Dibaba, atual campeã mundial de maratona e medalha de bronze na distância no Rio 2016. A etíope ganhou em 1:09.43 horas, batendo em cima da meta a queniana Vivian Cheruyiot, que gastou mais um segundo. "O tempo não é digno da Meia-Maratona de Lisboa. Esperava francamente melhor porque estiveram aqui das melhores atletas do mundo", lamentou Carlos Móia, líder do Maratona Clube de Portugal, que organiza a prova.

"Esta Meia-Maratona foi um teste para Londres. Estava a planear ganhar a corrida e consegui fazê-lo, o que foi muito bom", disse Dibaba, que ficou a 4.37 minutos do recorde mundial. A queniana Mary Macera completou o pódio. E Jéssica Augusto foi a única portuguesa no top 10: 7.ª, com 1:10.38 horas.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG